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	<title>Algodão Hidrófilo &#187; liberdade e criação</title>
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		<title>Menina-Projeto ou Garota Interrompida?</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Jul 2009 23:58:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Flavia</dc:creator>
				<category><![CDATA[Coisas da Vida]]></category>
		<category><![CDATA[Ideologia]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade e criação]]></category>
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		<description><![CDATA[Para mim é sempre assim: Será que gosto mais de dar início às coisas do que tomá-las como projeto de vida? Não sei responder a esta pergunta. Apenas que o que sinto é que há em torno de mim possibilidades inexploradas, e com relação a estas, eu poderia não fazer nada (pois estou confortável na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://www.adorocinema.com/filmes/garota-interrompida/garota-interrompida-poster01t.jpg" alt="" width="109" height="165" />Para mim é sempre assim: Será que gosto mais de dar início às coisas do que tomá-las como projeto de vida? Não sei responder a esta pergunta. Apenas que o que sinto é que há em torno de mim possibilidades inexploradas, e com relação a estas, eu poderia não fazer nada (pois estou confortável na minha profissão e sou razoavelmente bem sucedida). Então por que fazê-lo? (se não espero de meus projetos que revertam em uma alternativa de carreira, nem um lucro, nem fama e fortuna?)<br />
<span id="more-626"></span></p>
<p>Parece até que as justificativas que não envolvem o acima exposto são ou ingênuas, ou pura perda de tempo, ou cheiram à subversões (tipo FFLCH gosta de apanhar), ou têm uma agenda secreta (talvez conseguir dominar o mundo?).</p>
<p>Eu digo que não é nada disso, mas a crença alheia é como eu digo para os meus estudantes: Só você pode decidir. Só você pode fazer as coisas (aprendizado, crença, decisão) no seu cérebro, eu, o que eu posso fazer, como professora, é indicar certos caminhos e você é que tem o poder de escolha.</p>
<p>Inda bem! Imagina se professores fossem grandes controladores de mentes, acho uma coisa saudável quando meus alunos -- como dizem outros professores – “não cooperam” – isso demonstra que eles têm o poder de escolha (e que se eu não estou sendo bem sucedida é por que ou não consegui convencê-los ou por que simplesmente estou usando os “métodos” errados, ou sendo confusa). O mesmo com respeito às crenças.</p>
<p>No entanto sempre acho que os objetivos devem ser sempre bem claros e ter mais prioridade que qualquer outra coisa: Mais prioridade do que, por exemplo, ser bacaninha. Isso tanto como blogueira como professora. Ou ser divertido, ou tantas dessas coisas que podem entrar num blog ou numa sala-de-aula, mas que na minha opinião devem ser considerados como algo que se faça sempre que der (e que se justificam como meios, ou formas), mas que não se justificam como objetivos.</p>
<p>Imagine: qual o conteúdo de uma disciplina se o único objetivo do professor é ser bacaninha? Pode parecer estranho, mas como professora já recebi um sem número de turmas que vieram de um professor, ou, pior, de uma série de professores assim. É duro reverter o quadro de desinformação prévia dos alunos. Por essa razão, e a despeito de passar a ser considerada professora-lixo (que é como é visto o professor de básicos), eu pedia mais turmas de básico 1 quando dava aulas em escolas – pois pelo menos dava a formação básica para os alunos avaliarem suas metas e seus sucessos, e cobrar metas de outros professores. Vendo a formação daqueles que foram meus alunos no B1 eu via que alcançava o que queria.<br />
Isso para mim era paga suficiente, apesar de me incomodar ser vista como professora-lixo por que pegava básicos. Já fui contratada em escolas exclusivamente para dar aulas de avançados, pois na seleção era assim avaliada como melhor investimento. Isso por que os avaliadores medem os conhecimentos e fluência daqueles que selecionam, mas não avaliam a formação dada na escola nem são, por isso, capazes de evidenciar onde é que os problemas começam, do ponto de vista da formação dos seus alunos. Há diversas razões para que isso ocorra, mas não vou perder o foco, que era outro. Ao pedir turmas de básico um professor como eu é visto como alguém que não quer trabalhar, que quer mole. Quando na verdade, era um oposto: se você recebe uma turma fluente de avançado, tem os professores anteriores a agradecer e é só mandar os alunos fazerem, pois eles não tem <img class="alignright" src="http://www.marininstitute.org/images/smirnoff_052803.jpg" alt="" width="179" height="234" />dificuldades – isso sim é vida fácil: a aula vai praticamente no automático, e o professor diz que a turma é ótima, que são muito espertos, coisas assim. Mas quando pega uma turma emperrada, que foi sendo passada aos trancos e barrancos, ele diz que a turma é ruim, Reproduz o faz de conta que vocês estão aprendendo anterior e bola pra frente, que eu não sou jesus-cristo pra querer remendar o mundo. Mas não se trata de remendar o mundo, se trata de fazer ações que tenham eficácia: consertar uma turma de avançado é quase missão impossível. Dar uma formação para a independência desde o começo passa a ser a forma mais eficaz de fazer com que o aluno se torne o mestre e o avaliador do seu aprendizado e de seu saber.</p>
<p>Mas nada disso revertia em reconhecimento (não por via da instituição). Dar aulas divertidas foi sempre um ótimo meio de fazer com que os seus alunos respondam que você é uma maravilha nos questionários de avaliação de professores da escola, e se você der vídeos mudos do Mr. Bean, em geral vão responder que você utiliza recursos audio-visuais e que suas aulas são legais, mesmo que nada saia do vídeo (apesar de que o Mr. Bean pode ser usado com objetivos em sala-de-aula). Isso também ocorre por uma série de razões, mas deixemos por hora de lado. A questão é: se fazendo isso <img class="alignleft" src="http://pedrobiondi.files.wordpress.com/2008/07/crocodilos.jpg" alt="" width="255" height="189" />eu consigo reconhecimento certo, porque teimo no caminho mais duro? Não é para ver os olhinhos dos meus alunos brilharem (apesar de que vejo, e gosto muito), nem por que seja uma vocação, um dom de deus (sou atéia). É por que tudo o que faço só consigo força psicológica para fazer e me motivar se achar que estou fazendo certo, que tenho objetivos claros, e que não estou enganando ninguém (pelo menos ninguém que não mereça, como os alunos: o diretor que me avalia como boa se eu passar um vídeo&#8230; já são outros quinhentos, ele merece).</p>
<p>É difícil levar a sério as coisas em que você não acredita.  Para mim é difícil até fazê-las. Quando não acredito no que faço, deixo de acreditar em mim, e me sinto como se tivesse umas mil toneladas de chumbo ligadas aos meus braços. O insucesso eu não ligo. O não acreditar no que eu faço, para mim, é impossível levar: gera depressão, niilismo, o raio.</p>
<p>Ao contrário: fazer coisas em que acredito me move: arranjo energia para dar conta de tudo e mais um pouco, apesar de que certas coisas vão entrando em sub-categorias: mais e menos importantes, mais e menos urgentes, mais e menos eficazes, e claro: mais importante que tudo são aqueles que amo e que dependem de mim. Assim é a ordem das prioridades (apesar que de vez em quando perco o rumo, ai entram meu marido, minha gata, meus amigos pra me avisar que tou indo pro barranco feito uma lemingue feliz).</p>
<p><div style="float:left;margin-right: 10px;"><!-- Smart Youtube --><span class="youtube"><object type="application/x-shockwave-flash" width="300" height="250" data="http://www.youtube.com/v/fR0Te8GOyCc&amp;rel=1&amp;color1=d6d6d6&amp;color2=f0f0f0&amp;border=0&amp;fs=1&amp;hl=en&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;showsearch=0"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/fR0Te8GOyCc&amp;rel=1&amp;color1=d6d6d6&amp;color2=f0f0f0&amp;border=0&amp;fs=1&amp;hl=en&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;showsearch=0" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="wmode" value="transparent" /></object></span></div> Sei lá, acho que muitos dos que só admitem os argumentos de ganho (carreira, dinheiro e fama) vão me dizer que sou pirada, mas desde que não me internem – como ocorreu com a garota do filme que dá titulo ao post) tá tudo bem de duvidarem da minha idoneidade, da minha agenda secreta, do meu parafuso à menos&#8230; Não se pode, às vezes, nem agradar ou gregos ou troianos (e os Bálcãs em peso estão contra ti). Figuras de linguagem à parte: que importa, se não são os outros, mas o meu super-ego quem me faz sofrer? Perto dele, o resto é bolinho pro café da manhã.</p>
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		<title>Blogos-Fera Critica</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Jul 2009 23:42:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Flavia</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ideologia]]></category>
		<category><![CDATA[blogagem]]></category>
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		<description><![CDATA[Este texto surgiu no espaço de comentários do post &#8220;Respostas a Algumas Perguntas Frequentes&#8221;, do Biscoito Fino e a Massa, em resposta a Alexandre Nodari,  que comentou eu.
Alexandre,
&#8220;Essa história de &#8220;formar uma rede&#8221; é totalmente equivocada, mesmo se for caso de ativismo. Formar uma rede é o que as empresas e instituições tentam fazer.&#8221;


Então me [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Este texto surgiu no espaço de comentários do post <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2009/07/respostas_a_algumas_perguntas_frequentes.php">&#8220;Respostas a Algumas Perguntas Frequentes&#8221;</a>, do Biscoito Fino e a Massa, em resposta a <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2009/07/respostas_a_algumas_perguntas_frequentes.php#c88676">Alexandre Nodari</a>,  que comentou <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2009/07/respostas_a_algumas_perguntas_frequentes.php#c88632">eu</a>.</p>
<p><strong>Alexandre,</strong></p>
<blockquote><p><em>&#8220;Essa história de &#8220;formar uma rede&#8221; é totalmente equivocada, mesmo se for caso de ativismo. Formar uma rede é o que as empresas e instituições tentam fazer.&#8221;</em></p></blockquote>
<p><em><br />
</em></p>
<p>Então me diga como ficam os &#8220;cidadãos&#8221; atomizados frente a um poder que ele desconhece, de entranhas burocráticas e de conchavos, um sistema muito acima e para além dele. O &#8220;cidadão&#8221; (coloco o cidadão entre aspas e explico depois) &#8230; o &#8220;cidadão&#8221; moderno me lembra o ser humano pintado por Benjamim na modernidade da guerra: seu frágil corpo nada pode frente à imensidão de uma máquina de guerra.</p>
<p>Assim também é a política. Ao &#8220;cidadão&#8221; se dá o poder de apertar os botõezinhos de quatro em quatro anos. Sujeito a uma máquina de propaganda, uma máquina de CPIs e de criação de discursos, uma máquina cujos entremeios Kafkanianos ele desconhece, ele vai com fé (?) de quem por fim, sabe das coisas, apertar botões a cada 4 anos.</p>
<p>Quando se pega um assunto de interesse cidadão (sem aspas) &#8211; pois<br />
não se está a tentar a fama por meio de uma discussão qualquer acerca da vida de Michael Jackson, mas de um processo que envolve um sem-número de brasileiros e que vai retornar -<br />
na forma de leis à todos os brasileiros como norma, à qual<br />
todos, mesmo que não rousseanamente envolvidos na feitura da lei que obedecemos, mas num momento posterior, no momento de sua<br />
aprovação, atinge a todos como suditos desta república, e é,<br />
portanto de <strong>qualidade</strong> diversa de qualquer outra discussão de blog, ou post.</p>
<p>Quando se deixa de ver que um post é <strong>qualitativamente</strong> diverso de outro, estamos num mercado de posts.</p>
<blockquote><p>&#8220;toda manhã, para ganhar meu pão<br />
vou ao mercado, onde se compram mentiras.<br />
cheio de esperança</p></blockquote>
<blockquote><p>alinho-me entre os vendedores.&#8221;</p></blockquote>
<blockquote><p>(Hollywood, Bertold Brecht, tradução de Aroldo de Campos)</p></blockquote>
<p>E como todo post, e assim, todo blog, é equivalente geral, passa-se a aplicar a ele as regras da troca como se fora um equivalente, uma<br />
mercadoria qualquer. &#8220;Michael Jackson&#8221;, &#8220;Madona&#8221; e &#8220;disputa entre movimentos sociais e empresariado pela democratização ou manutenção das coisas como estão&#8221; passam, no universo de blogs, que me parece um mercado, a estarem sujeitas às mesmas regras de troca, de propaganda indireta (já viu que a propaganda hodierna não é direta? ela não diz: compre isto para fazer X, ao contrario, ela diz &#8220;o produto Y é tããããão legaaaalll, e nem diz o porquê).</p>
<p>Por isso se aplica a mesma regra a tudo, assim como no mercado a mesa (primeiro capítulo de O Capital) feita com arte, que leve ao artesão a sua vida para compor, tem um preço e entra na mesma régua monetária que a mesa feita em dois segundos pela indústria. São mercadorias, e isso lhes rouba a qualidade, ou o espírito &#8211; têm cada qual apenas um valor de troca, que as torna comparáveis.</p>
<p>Portanto, o pedido de linkagem é todo &#8211; cada qual &#8211; todo comparavel por que denota cada um, sem diferenças, uma e só uma<br />
coisa, ou (será que?) a cabeça do blogueiro só pensa por meio de uma regra que reduz tudo ao mesmo mercado de trocas? E, dentre as moedas de troca estão as linkagens e dentre os prêmios a fama e os pêmios de melhor blog. A estas regras são submetidos todo e qualquer assunto (?), a partir da chamada &#8220;boa maneira blogueira&#8221;, como se os assuntos não fossem de qualidades e esferas distintas (tanto Michael Jackson quanto Confecom tem o mesmo valor de<br />
troca, como se do ponto de vista politico eles fossem a mesma coisa?)</p>
<p>Assim, toda a proposta de formação de rede aparece no mercado de posts como se fosse a formação de quadrilha visando a fama, ou o prêmio, pois o &#8220;blogueiro&#8221; já não vê diferença entre isto e um ativismo &#8220;saudável&#8221;, uma alternativa do &#8220;cidadão&#8221; atomizado frente à máquina politica, uma tentativa de invenção de um mecanismo político não tão novo, mas modernizado (todo sujeito político torna-se político não pelo isolamento, mas pela associação. que esta se faça por blogs é só usar o recém-existente para re-criar em novos termos o previamente existente).</p>
<p>Deixa-se escapar as brechas que existem como se fossem coisas &#8220;que só empresas e instituições fazem&#8221; (?). (a respeito de instituições, me lembro como se fosse ontem o momento em que deixei a minha infância conceitual e passei a entendê-las de outro ponto de vista: foi quando, num banho de água fria, uma professora de sociologia disse que não é porque as instituições tenham um mesmo nome &#8211; como &#8220;escola&#8221;, por exemplo &#8211; que elas representam a mesma coisa: passei a tentar enxergar para além do nome, cada instituição em particular &#8211; por ex, sabemos que PT e PSDB estão sujeitos às mesmas regras do jogo polítco, mas ao mesmo tempo são instituições diferentes, para além das regras que as moldam grosso-modo).</p>
<p>Mas voltando à essa ideia de que &#8220;redes&#8221; é o que empresas e instituições fazem: isso quer dizer que o recurso é eficiente, e por isso as esquerdas perdem campo em deixar de fazê-lo, pois abrem um vacuo ocupado pela direita e com isso abrem seu flanco, ou que é um recurso do mal? Não seria ingenuidade pensar dessa segunda<br />
maneira?</p>
<p><span id="more-611"></span></p>
<p>Partidos também caberiam nisso &#8211; é coisa de direita. Vamos abandonar os partidos então. Formação de opinião, através de textos tambem. Não é o que a Folha faz? Vamos também abandonar isto, pois deste ponto de vista, os blogs e a imprensa escrita não passam da mesma coisa. É coisa de direita. Vamos voluntariamente nos atomizar e vamos ver o que acontece. Pensar assim é um acerto ou um erro? Você me responde.</p>
<p>Entre os n projetos de estudo que faço, elaboro um método topologico para a análise da internet. É discurso comum que redes &#8220;brotam&#8221; &#8220;espontâneamente&#8221;. Do ponto de vista da análise dos discursos, essa ideologia se aparenta tanto à ideologia de mercado, onde a mão invisível trabalha para que a bonança se estabeleça, e segundo o qual os grandes oligopólios não são se não o fruto de um mérito &#8211; da capacidade de produção de produtos bons que são reconhecidos pelo mercado, que nesse segundo momento é o composto de consumidores atomizados que gostam da qualidade do produto, compram e assim &#8220;brota&#8221; &#8220;espontâneamente&#8221; uma marca forte. É também um discurso que bebe nas fontes de discurso biologico. &#8220;Brotar&#8221; e &#8220;espontâneo&#8221; são coisas que remetem ao crescimento vegetal.</p>
<p>Mas, invertamos a analise. Quais os limitadores de acesso de textos pela internet? O primeiro é o mais obvio: a linguagem. Para além disso, há mecanismos que enquadram a busca: O Google, por exemplo, tem um procurador. Quais os parâmetros deste procurador? São vegetativos e &#8220;espontâneos&#8221;, ocorrem ao sabor do acaso, ou eles têm, por um acaso um formato que impõe uma<br />
hierarquia aos textos? Agora, digamos que, finalmente, você achou<br />
um site. A partir deste site você tem links: eles abrem &#8220;espontâneamente&#8221; seu acesso para tudo o que existe, ou limitam seu acesso a links escolhidos por outros? Vamos pensar nos blogs, e<br />
tomemos como parâmetro as ferramentas comuns, o blogroll, por<br />
exemplo. Como é que você inicia as suas leituras? Por procuras por<br />
palavras-chaves diretamente no Google, ou por seu blogroll, onde<br />
você se utiliza de um mecanismo de restrição para abrir outras páginas, onde os links remetem a outros escolhidos por outrem? É espontâneo isso?</p>
<p>Ser sociologo é desconfiar de tudo: inclusive do mais &#8220;óbvio&#8221;, pois o<br />
óbvio é na maior das vezes, discurso ideológico. A pergunta acima é<br />
apenas isto: uma pergunta. Não é uma afirmação, não é uma conclusão. Se trata de uma pergunta de alteridade (pela qual o pesquisador assume uma postura antropológica de perguntar<br />
sobre as coisas mais óbvias para poder encontrar o que há de não-tão-óbvio, o que no caso tem cor e cheiro de uma super-estrutura condicionante). O mesmo ocorre com os Feeds: eles abrem ou limitam a leitura ao que sai nos Feeds assinados? Por conta disso eu dou precedência à procura pelo google, não assino Feeds, abro blogs de comentaristas, dou precedência ao espaço de comentário e não ao post, mas mesmo assim, retorno aos blogs que gosto, como este. Na verdade, nenhum procedimento é antítese<br />
completa às ferramentas de procura, pois o google tem suas regras e os comentaristas estão também seguindo links específicos.</p>
<p>Do ponto de vista da análise sociológica que procura como um objeto &#8220;grupos humanos&#8221;, esta restrição por mecanismos assumidamente &#8220;neutros&#8221; seria capaz de formar grupos? Como definir isto sociológicamente? A hipótese é que sim, há a formação de grupos, e por mais frouxos que eles sejam, pois admitem mais e mais leitores e assinantes, as ferramentas às quais cada um que entra no grupo (seja por meio de uma procura por interesses, seja por outras vias) se submetem não são &#8220;neutras&#8221; nem &#8220;espontâneas&#8221;. Aliás, Alexandre, me dê uma definição de &#8220;espontaneidade&#8221; que poderemos discutir isto melhor.</p>
<p>Estamos, por exemplo, em um blog (refiro-me ao Biscoito Fino), um<br />
dos muitos, que tem uma percepção de si como membro de um grupo: &#8220;blogosfera crítica&#8221;, por exemplo, é uma das auto-denominações espontâneas deste grupo humano que se comunica e se forma a partir das linkagens de seus blogs. Espontâneo quer dizer, aqui, a <strong>percepção</strong> (não informada metodologicamente, mas por se fazer parte de uma dada cultura) de que se faça parte de um grupo social. Por menos que se possa medi-lo e por menos que esse grupo seja fechado, a percepção espontânea pode estar informando algo ao sociólogo: que este suposto grupo tenha suas fronteiras (eu sou diferente dele, eu sou mais parecido com estes, sim, uma coisa tribal).</p>
<p>Como passar da percepção social do indivíduo em seu grupo à ferramentas sociológicas de analise? É por isso que uma das minhas<br />
inspirações neste projeto sai da geografia pós-moderna: a análise do<br />
espaço &#8211; que tento subverter para a análise do espaço virtual &#8211; segundo a qual, pela análise das vias de circulação no espaço se chega a um desenho do espaço distinto do mapa produzido a partir de uma medida métrica. Por meio desta geografia é possível evidenciar que, por exemplo, apesar de Paraisópolis estar metricamente muito perto aqui de casa (moro no Butantã), o Butantã está, na verdade, estudando-se a circulação dos grupos sociais, muito mais próximo da Avenida Paulista do que de Paraisópolis, e ambos, Butantã e Av. Paulista, estão muito mais próximos de Campinas, por exemplo, do que de Paraisópolis,<br />
apesar de que pelo mapa métrico possamos ter uma idéia distinta<br />
disto. Há mais distinções no espaço &#8211; e também no espaço virtual &#8211; do que supõe a nossa percepção métrica rudimentar.</p>
<p><em>&#8220;as redes se formam&#8221;</em>. Tá ai um bom mandamento de Deus, o novo deus que devemos inscrever na nova tábua dos mandamentos da &#8220;ética blogueira&#8221;, ou do &#8220;manual de bom-tom da internet&#8221;.</p>
<p>Não sou contra manuais de etiqueta. Eles normalmente explicitam regras de convivência que impõem uma ordem, e se o mundo não tivesse uma ordem, eu nem saberia o que fazer quando me levanto de manhã: andar de bike, trabalhar, tomar banho, comer macarronada, tudo isto ao mesmo tempo, ou numa ordem especifica? Meu senso informado culturalmente põe estas atividades em uma ordem compatível com a ordem do mundo, o<br />
que é, de certa forma, bom para mim.</p>
<p>No entanto, é preciso notar que o fato de comermos cereais e não feijão (bom, ele também é um cereal, do ponto de vista botânico) no café da manhã não é uma escolha meramente informada pela nossa vontade, ou pela &#8220;razão pura&#8221;, mas culturalmente ordenada.</p>
<p>Segundo, regras são produtos histórico-sociais que tendem a simplificar as coisas, e uma de suas benesses é tornar a vida mais simples (imagina, se a cada manhã, eu me pusesse a considerar todas as fontes possíveis de nutrição, o seu balanceamento, o que é ecologicamente correto consumir,etc). No entanto, é preciso lembrar que não é porque as regras tornem o mundo mais simples de lidar, que o mundo corresponda a estas regras e seja, por isso simples. Não é. O mundo é complicado.</p>
<p>Terceiro, é preciso lembrar (se quiser uma citação eu indico Norbert Elias, mas não é o único) que regras sociais &#8211; como a etiqueta &#8211; surgem em manuais escritos (como acima, mas existem<br />
outros) não só para elucidar aos que pertencem ou adentram um grupo social o que é de bom tom, e por isso torna-se a convivência harmoniosa dentro do grupo, mas em geral as regras de costumes viram obras escritas quando é preciso diferenciar os pertencentes ao grupo dos não-pertencentes ao grupo, e demandar que se alguém passe a pertencer a um grupo, deve agir segundo as regras<br />
prescritas. Nos séculos por volta de XVI, XVII, começam a surgir manuais de comportamento à mesa, de comportamento em ambiente público, não só por que as esferas público-privado começam a se diferenciar (em Elias lemos que não se deve dirigir<br />
a palavra a alguém, caso no momento ele esteja defecando), mas também por que começa a surgir uma classe de &#8220;novo nobre&#8221; (os burgueses que compram títulos de nobresa) de quem o nobre de sangue quer se diferenciar. Nestes tempos é possível vislumbrar o mesmo ocorrendo nos blogs. As regras de pertencimento ao grupo precisam ser explicitadas (e apesar de socióloga acreditei que uma racionalidade politica pudesse suplantá-las) para manter um padrão de convivência, mas também para ditar o que é de bom-tom e o que não é, e assim impor a diferenciação entre blogueiros (cujo ethos está ligado a um tipo de regras blogológicas) e o ativista (para dizer que este não é espaço de ativismo: o ativismo pertinente é so aquele que sai &#8220;espontaneamente&#8221; de blogs, e que diz respeito apenas ao que os blogs tenham em comum entre si &#8211; para dentro do grupo &#8211; e não com outros loci da sociedade &#8211; ou o que os blogs tenham em comum com os de fora. esta me parece ser uma das razões porque os blogs se movimentam em torno da Azeredo, mas não em torno das liberdades de expressão em geral).</p>
<p>Os movimentos em torno da Azeredo foram a inauguração da forma de ethos político que sai dos blogs. Foi legal, mas este modelo que saiu do não-à-ditabranda inaugurou também um modelo que vira um mito (é recorrentemente citado por blogueiros quando questiono suas formas de participação política) e constitui, atualmente o padrão, a norma de como deve ser a movimentação política partida de blogs. Mas por mais que um modelo seja legal, é sempre interessante questioná-lo e colocar novas perguntas a ele. Se é fato que há regras que delimitam, impelem e também limitam este jogo, por que não ser ciente delas, ao invés de ficar repetindo as palavras de ordem &#8220;espontâneo&#8221; e &#8220;brotamento&#8221;? Não seria legal, para além da ciência sobre as regras explícitas e não explícitas, passar a pensá-las, modificá-las, armar estratégias a partir dessa crítica e reformulá-las de maneira politicamente coerente? Se você deixa de fazêlo, serão, como você mesmo disse, as instituições e as empresas que o farão.</p>
<p>A denominada (auto-denominada ou denominada por outros) &#8220;blogosfera crítica&#8221; nasceu de um impulso muito consistente: usar uma nova tecnologia a partir da qual todos podem se tornar formadores de opinião para, exatamente, fazê-lo. Mas, mais do que isso, nasceu de um impulso re-ativo às besteiras ditas pelos Jornais. Outro detalhe, é que ela remete prioritariamente ao discurso escrito e tende a enxergar quase que necessariamente apenas ele (isso se deve, creio, ao fato de que a blogosfera se apoia no escrito, não na formação imagética das opiniões e nem à formação oitiva das opiniões, universo estranho a ela). Dessa forma, a blogosfera critica elegeu, numa ação reativa, a imprensa escrita como seu inimigo. Como cada grupo humano tende a acreditar que o seu grupo é o centro do mundo (nenhum ser humano jamais deixou sua tribalidade pra trás), e portanto, o seu inimigo também é o inimigo da humanidade, então a blogosfera crítica tende a se ver como o salvador do mundo por meio do texto escrito, numa batalha de Titãs, contra o inimigo público número um, que seria a imprensa escrita, denominada &#8220;grande midia&#8221;. Mas os números mostram que se de fato a mídia for o inimigo público número um (há, talvez outros inimigos a se adicionar a esta lista), a &#8220;grande mídia&#8221; não é a mídia impressa, pois TV e rádio atingem num fluxo muito mais ininterrupto e com poder de penetração muito maior, o conjunto de uma população.</p>
<p>Um exemplo foi <strong>o uso de imagens pela TV do que ocorreu em <span style="text-decoration: line-through;">8 de maio </span>9 de junho na USP</strong>. A questão do editoramento das imagens, a forma como elas são recortadas, colando-se a elas um discurso falado remete às técnicas de cinema e lembra um filme de Rambo: apareceram imagens colossais, tomadas por câmaras aereas, do poder do estado em forma de helicópteros. Talvez eles fossem 2 ou 3 (não contando o helicóptero de onde as imagens eram captadas, mas eles se transformaram, no nível da percepção num esquadrão de uns vinte. Isto devido não só à editoração, mas ao poder do campo-contra-campo, e lembravam-me a análise de Rovai (Livro chamado &#8220;Imagem, Tempo e Movimento: Afetos &#8220;Alegres&#8221; no Filme o Triunfo da Vontade&#8221;) de como o acontecimento (o Congresso Nazista de 30 e pouco) foi montado não para ser ele mesmo grandioso, mas para que a imagem deste fosse grandiosa (e assim deixar para a posteridade o que a cultura nazista denominava de ruína, o monumento ao qual a cultura remete como fundador de sua tradição). Voltando aos helicópteros sobrevoando os frágeis corpos de estudantes (estou traumatizada, hoje em dia basta ver um helicóptero para me sentir pequena e revoltada, isso é o poder destas imagens &#8211; elas dizem: cidadão, você não passa de um frágil corpo sob o poder de um estado moto-serra), o écrã os multiplica, pela coreografia de helicópteros que passavam sob o espaço aéreo da tomada da câmera, em 20 helicópteros, utilizando-se do fato de que a manobra de retorno do helicóptero está fora do campo (do écrã).</p>
<p><span style="color: #ab2bd3;">(o vídeo que vi não foi bem <a href="http://www.youtube.com/watch?v=F1TCuQTsvBk&amp;feature=related">este</a>, mas era parecido. do ponto  de vista da montagem era muito mais &#8220;artístico&#8221;. é possível que eu  ache que era Globo por tê-lo visto da Editora Globo?)</span></p>
<p>Nas tomadas próximas, apareciam explosões, talvez mais fumaça que fogo, mas ainda assim muito eficientes imageticamente, e corpos de estudantes saltando para longe da explosão )o que parecia, ou lembrava, da imagem cinematográfica da explosão como algo que produz um movimento de ar tão forte que lança os corpos centrifugamente. Mas, para além da própria forma como foram confabuladas as imagens do real, está o próprio fato de que tais imagens apareçam na mídia, e há ai um fenômeno muito mais perverso, de longa datação.</p>
<p>Quando as vi, além do meu estômago virar, passei a me perguntar: <strong>Que deu na Globo?</strong> Agora, será que a mídia passou de construtora de um discurso (imagem, fala e escrito) acerca do real, e passou a ser <strong>delatora</strong> de um estado perverso, ou será que há mais coisas entre a imagem e o real do que supõe nossa percepção socialmente emoldurada? Há algumas décadas os estudantes diziam que a mídia não mostra o que acontece: os movimentos estudantis somente apareciam em imagens como &#8220;impedimento de tráfego&#8221; (o que constitui um dos níveis deste discurso &#8211; perverte-se os ideais datados da revolução francesa num discurso de &#8220;liberdade do ir e vir&#8221;). Neste momento aparecem imagens do real desnorteadoras para mim, que não sou parte do grande público de Rambo, mas será que as mesmas desnortearam o grande público de Rambo? Ou será que por um (não tão longo) processo de educação dos sentidos este público está habituado a assistir as imagens (que me impactam como horror) como espetáculo, como entretenimento (a forma de transformação do tempo de não-trabalho em mercadoria a ser consumida), como lazer.</p>
<p>Para além disso, não está este público do Rambo acostumado a torcer por Rambo (que de um outro ponto-de-vista não seria mais que um covarde, detentor de todo o poder de fogo que um estado bélico e imperialista possa oferecer, e agindo em nome deste) como se ele fosse o mocinho, o &#8220;prince charm&#8221; que deve ganhar a batalha? Quem era o Rambo do filme da Globo sobre os ocorridos de <span style="text-decoration: line-through;">8 de maio</span> 9 de junho na USP? Os estudantes? Não. A polícia? Dias depois desmarquei aula para ir à manifestação que não saiu (dia 10) devido à chuva, e mais uns dias depois, meus estudantes disseram &#8220;esse povo da FFLCH gosta de apanhar, eles têm mesmo é que apanhar&#8221;. Vi este tipo de opinião em muitos outros que assistiram comento pipoca, às imagens na TV.</p>
<p>Retornando deste longo percurso, eu me pergunto: será mesmo que a Folha de São Paulo é o inimigo publico número um? Ou será que o inimigo público número um tem seus vários ramos, imersos nas mídias, nos institutos de pesquisa, nos discursos científicos, no cinema, atacando-nos na nossa hora de recreio, de lazer, e de leitura informativa, na forma de educação, de informação, de entretenimento, e como diz Clara Crocodilo, escondidos nos nossos cérebros, esperando o momento oportuno para nos atacar e aos nossos entes queridos?</p>
<p>A desconfiança com relação à quebra de uma regra: será ela apenas a manutenção de um ambiente em termos aceitáveis para todos os que façam parte dele, ou terá ela características mais perversas, mantenedoras de uma realidade social tal qual ela está?</p>
<p><strong>&#8220;A massa ainda comerá o Biscoito Fino que fabrico&#8221; </strong>(Oswald Andrade)</p>
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		<title>Cadeiras, cadeiras</title>
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		<pubDate>Wed, 13 May 2009 13:20:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Flavia</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[design]]></category>
		<category><![CDATA[ilusão]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade e criação]]></category>

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		<description><![CDATA[Bom, o começo do texto é sobre arte moderna&#8230; bem, talvez sobre design de móveis.
.
.
Tenho uma fascinação com cadeiras. É que dentro do esquema moderno entre Forma e Função, elas são, pra mim, os objetos que mais podem ter a forma alterada, preservando a função. Você pode até ter formas que dificultam a sua identificação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Bom, o começo do texto é sobre arte moderna&#8230; bem, talvez sobre design de móveis.<br />
<span style="color: #ffffff;">.<br />
.<br />
</span>Tenho uma fascinação com cadeiras. É que dentro do esquema moderno entre Forma e Função, elas são, pra mim, os objetos que mais podem ter a forma alterada, preservando a função. Você pode até ter formas que dificultam a sua identificação como cadeira – confundem a tua cabeça por momentos (e justamente isso eu acho genial na cadeira). Mas só até que você re-descubra, no formato fora do convencional, a função cadeira.</p>
<p><strong>Arte Moderna e Design</strong></p>
<p>É possível entender o design moderno nesse mesmo movimento em que a arte se modernizou, deixando de lado o figurativismo e o realismo, e passou a falar sobre si mesma diretamente. Segundo Clement Greenberg &#8211; um dos primeiros teóricos da pintura modernista – a pintura naturalista dos velhos mestres usava arte para esconder a arte. O que isso significa?</p>
<p><strong>Grandes Mestres da Pintura</strong></p>
<p>Estará mais claro se olharmos, por exemplo,  para o quadro de Velázquez – o Las Meninas: O que você vê no quadro?</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p>Um salão, pé alto, cheio de quadros nas paredes, e um espelho<br />
Uma princesa com seu cortejo em primeiro plano<br />
O auto-retrato de Velásquez, na figura do  pintor em frente a uma tela<br />
<img class="alignnone" src=" http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/a4/Velazquez-Meninas.jpg" alt="" width="865" height="985" /> <span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">Não vou tentar copiar Foucault aqui. Qualquer aproximação seria redutora, com um texto tão magnífico. Mas há muito mais coisas neste quadro que supõe a olhada desleixada.</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">Há por exemplo, a presença de ausências. O pintor, que aparece em auto-retrato no quadro, pinta um outro quadro cuja superfície nos é negada aos olhos. Ao fundo um espelho mostra o reflexo do casal real, mas onde está o rei? (se você for adotar um ponto de vista naturalista, o rei e a rainha deviam estar no meio do quadro). Se o pintor do quadro está olhando pra o ponto em que o espectador se coloca para olhar o quadro, e se ele está na corte, ele estaria fazendo o retrato do Rei? Mas é o espectador que está nessa posição e o Rei está ausente do quadro. Se este é um retrato da princesa, por que ela, colocada numa posição lateral, com sua corte, também nos olha, assim como o Velásquez do quadro?</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">Isto só pra dar um gostinho (vai ler o texto do Foucault). Mas onde eu quero chegar é que o quadro de Velázquez que pode parecer, num primeiro momento, se entregar completamente aos olhos do espectador, assim direto, sem segundas nem terceiras intenções, sem camadas de interpretação, está na verdade a nos jogar nesse alçapão, essa armadilha antiga da arte, para a qual nos voltamos quando do não entendimento da arte moderna.</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">Ao renegarmos as artes abstratas por incompreensíveis, nos voltamos para os quadros representativos da arte dos grandes mestres antigos – de Da Vinci a Velázquez – e temos a sensação de que os conhecemos de uma só olhada – por serem figurativos. Reconhecemos a figura da princesa e sua corte, do pintor, do cachorro, do salão e temos a impressão de estarmos no terreno cognitivo cuja cognição seria direta, ao contrário das manchas e quadrados, borrões que não representam qualquer figura que possa ser traduzida, que gera todo o nosso desconforto com a arte moderna.</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"> A traição das Imagens de René Magritte.&#8221;]<img src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/thumb/b/b9/MagrittePipe.jpg/300px-MagrittePipe.jpg" alt="[isto não é um cachimbo] A traição das Imagens de René Magritte." width="300" height="230" /><p class="wp-caption-text">[isto não é um cachimbo</p></div><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">Todos esses elementos estão também colocando muitos questionamentos sobre a arte, só que isso está de certa forma “escondido” no quadro, por trás de uma roupagem (as figuras) que reconhecemos. Nesse sentido que entendo o que Greenberg dizia sobre a arte anterior à moderna, que ela &#8220;usa a arte para esconder a arte&#8221;. A arte moderna se livra das camadas figurativas e coloca o discurso da arte sobre a arte em primeiro plano.</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal"><strong>A arte moderna é incompreensível?</strong></p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">Como você mesmo pede concluir, ela é sim, difícil de compreender; tanto quanto a arte dos mestres antigos, mas sem a ilusão das figuras.</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal"><strong>E as cadeiras?</strong></p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">Já chegamos nelas. Mas antes é preciso uma outra peripécia. O que ocorre então, a partir da modernidade, com o design?</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">O design, não só de móveis, como de paredes e o teto acima delas, e de muitos tetos, compondo edifícios começa a perder alguns elementos e ganhar outros (veja, por exemplo, a mudança da art déco para o streamline moderne – a reforma ortográfica tirou o último ‘e’ de moderne, mas era assim que se escrevia na época). Um arquiteto evolucionista diz que “decoração é crime”. Outros arquitetos deixam de lado a bobagem do evolucionismo do cara e concordam – vamos matar a decoração. A arte do arquiteto deve deixar de lado a decoração e se concentrar no binômio Forma e Função (ou seja, elas devem ser trabalhadas juntas).</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">Olhe, por exemplo, para esta figura: <img class="alignnone" src="http://l.yimg.com/g/images/spaceball.gif" alt="" width="1" height="1" /><img class="alignnone" src="http://www.algumlugar.net/flavia/imagens/vitoriana.jpg" alt="" width="500" height="444" /><img class="aligncenter" src="http://l.yimg.com/g/images/spaceball.gif" alt="" width="1" height="1" /></p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">Você vai reconhecer que as formas das funções (a forma da mesa, da cadeira, do tapete, do sofá, da lareira, das janelas, das cortinas) nunca mudou muito. A forma da função sempre foi mais ou menos a mesma – fixada. Podemos reconhecer, por exemplo, a cadeira, sempre como algo assim:</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal"><a href="http://tbn3.google.com/images?q=tbn:qQ9L_8Tv7_3I4M:http://critica.us/wp-content/files/gulliver-chair-grab.jpg"><img class="alignnone" src="http://tbn3.google.com/images?q=tbn:qQ9L_8Tv7_3I4M:http://critica.us/wp-content/files/gulliver-chair-grab.jpg" alt="" width="107" height="150" /><br />
</a></p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">Sobre ela se põe a decoração, que podemos reconhecer como o estilo vitoriano na penúltima foto &#8211; que é a presença de muitos aveludados, os desenhos em padrões grandes que se repetem, uma coisa bastante sensual até (nas literaturas mais recentes sobre o período vitoriano, os autores tentam desfazer a noção de que essa fosse uma era castrada – é o contrário, é uma era em que se multiplicam os discursos acerca do sexo – por nos parecerem antiquados, parecem castrados, mas é o contrário, é uma era sensual, e podemos percebê-lo na decoração).</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">..</span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">
<p><div class="wp-caption alignnone" style="width: 390px"><img src="http://www.objetosdedesejo.com/wp-content/uploads/2007/07/chair_pad1.jpg" alt="A decoração se sobrepõe a uma forma mais ou menos fixa." width="380" height="506" /><p class="wp-caption-text">A decoração se sobrepõe a uma forma mais ou menos fixa.</p></div>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">Agora vai começar o bombardeio: este blog é pequeno para tudo o que eu tenho pra mostrar, mas a internet é grande. Dê você mesmo uma procurada básica – vai se surpreender com um objeto tão quotidiano e trivial.</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">Toma isto:</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.<img class="alignleft" src="http://hypedesire.blogtv.com.pt/img/Image/HypeDesire/garfo_cadeira.jpg" alt="" width="350" height="366" /></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal"><img class="alignnone" src="http://blog.uncovering.org/archives/uploads/2008/08040502_blog.uncovering.org_cadeira.jpg" alt="" width="600" height="550" />E mais isto:</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.<img class="alignnone" src="http://mesquita.blog.br/wp-content/uploads/2008/05/bl-pl-design-mobiliario-cadeira-fishbol-lobster-trap-chair.jpg" alt="" width="330" height="365" /><img class="alignnone" src="http://tecnotrekos.blogtv.com.pt/img/Image/Tecnotrekos/2007/Agosto/cadeira_som.jpg" alt="" width="400" height="358" /><img class="alignnone" src="http://hypedesire.blogtv.com.pt/img/Image/HypeDesire/2008/marco/Cadeira.jpg" alt="" width="343" height="341" /><img class="alignnone" src="http://www.murilocardoso.com.br/images//2008/10/cadeira_placentero01.jpg" alt="" width="432" height="413" /></span></p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal"><img class="alignnone" src="http://www.digitaldrops.com.br/drops/imagens/cadeira_eliptica.jpg" alt="" width="468" height="306" /><img class="alignnone" src="http://www.caiunateia.com/wp-content/uploads/2008/04/cadeira.jpg" alt="" width="468" height="273" /><img class="alignnone" src="http://eudecoro.com/files/imagecache/artigos_full/artigos/cadeira-Amoebe-Highback.jpg" alt="" width="292" height="329" /><img class="alignnone" src="http://www.joaobem.biz/blog/wp-content/gallery/fotos-4/cadeira.jpg" alt="" width="400" height="300" /><img class="alignnone" src="http://jaeh.files.wordpress.com/2009/04/cadeira-splash.jpg" alt="" width="489" height="398" /><img class="alignnone" src="http://www.geekologie.com/2007/11/01/cool-chair.jpg" alt="" width="450" height="299" /></p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">Por enquanto é só, mas não percam as cenas dos próximos capítulos:</p>
<p class="MsoNormal">- como é que tudo isso começou, e mais sobre cadeiras</p>
<p class="MsoNormal">- o estereótipo do design moderno como algo “clean demais”, impessoal – será?</p>
<p class="MsoNormal">- Cadeiras: de Arne Jacobsen a Verner Panton (todos nós temos os nossos preferidos)</p>
<p class="MsoNormal">- O ideário Modernista: industrialismo imaginado como acessível a todas as classes. (e sua corrupção – hoje uma ant chair de verdade custa no mínimo R$700,oo cada, mas a sua mãe já teve estas cadeiras por preço popular)</p>
<p class="MsoNormal"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p class="MsoNormal">=)</p>
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