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Blogos-Fera Critica
Este texto surgiu no espaço de comentários do post “Respostas a Algumas Perguntas Frequentes”, do Biscoito Fino e a Massa, em resposta a Alexandre Nodari, que comentou eu.
Alexandre,
“Essa história de “formar uma rede” é totalmente equivocada, mesmo se for caso de ativismo. Formar uma rede é o que as empresas e instituições tentam fazer.”
Então me diga como ficam os “cidadãos” atomizados frente a um poder que ele desconhece, de entranhas burocráticas e de conchavos, um sistema muito acima e para além dele. O “cidadão” (coloco o cidadão entre aspas e explico depois) … o “cidadão” moderno me lembra o ser humano pintado por Benjamim na modernidade da guerra: seu frágil corpo nada pode frente à imensidão de uma máquina de guerra.
Assim também é a política. Ao “cidadão” se dá o poder de apertar os botõezinhos de quatro em quatro anos. Sujeito a uma máquina de propaganda, uma máquina de CPIs e de criação de discursos, uma máquina cujos entremeios Kafkanianos ele desconhece, ele vai com fé (?) de quem por fim, sabe das coisas, apertar botões a cada 4 anos.
Quando se pega um assunto de interesse cidadão (sem aspas) – pois
não se está a tentar a fama por meio de uma discussão qualquer acerca da vida de Michael Jackson, mas de um processo que envolve um sem-número de brasileiros e que vai retornar -
na forma de leis à todos os brasileiros como norma, à qual
todos, mesmo que não rousseanamente envolvidos na feitura da lei que obedecemos, mas num momento posterior, no momento de sua
aprovação, atinge a todos como suditos desta república, e é,
portanto de qualidade diversa de qualquer outra discussão de blog, ou post.
Quando se deixa de ver que um post é qualitativamente diverso de outro, estamos num mercado de posts.
“toda manhã, para ganhar meu pão
vou ao mercado, onde se compram mentiras.
cheio de esperança
alinho-me entre os vendedores.”
(Hollywood, Bertold Brecht, tradução de Aroldo de Campos)
E como todo post, e assim, todo blog, é equivalente geral, passa-se a aplicar a ele as regras da troca como se fora um equivalente, uma
mercadoria qualquer. “Michael Jackson”, “Madona” e “disputa entre movimentos sociais e empresariado pela democratização ou manutenção das coisas como estão” passam, no universo de blogs, que me parece um mercado, a estarem sujeitas às mesmas regras de troca, de propaganda indireta (já viu que a propaganda hodierna não é direta? ela não diz: compre isto para fazer X, ao contrario, ela diz “o produto Y é tããããão legaaaalll, e nem diz o porquê).
Por isso se aplica a mesma regra a tudo, assim como no mercado a mesa (primeiro capítulo de O Capital) feita com arte, que leve ao artesão a sua vida para compor, tem um preço e entra na mesma régua monetária que a mesa feita em dois segundos pela indústria. São mercadorias, e isso lhes rouba a qualidade, ou o espírito – têm cada qual apenas um valor de troca, que as torna comparáveis.
Portanto, o pedido de linkagem é todo – cada qual – todo comparavel por que denota cada um, sem diferenças, uma e só uma
coisa, ou (será que?) a cabeça do blogueiro só pensa por meio de uma regra que reduz tudo ao mesmo mercado de trocas? E, dentre as moedas de troca estão as linkagens e dentre os prêmios a fama e os pêmios de melhor blog. A estas regras são submetidos todo e qualquer assunto (?), a partir da chamada “boa maneira blogueira”, como se os assuntos não fossem de qualidades e esferas distintas (tanto Michael Jackson quanto Confecom tem o mesmo valor de
troca, como se do ponto de vista politico eles fossem a mesma coisa?)
Assim, toda a proposta de formação de rede aparece no mercado de posts como se fosse a formação de quadrilha visando a fama, ou o prêmio, pois o “blogueiro” já não vê diferença entre isto e um ativismo “saudável”, uma alternativa do “cidadão” atomizado frente à máquina politica, uma tentativa de invenção de um mecanismo político não tão novo, mas modernizado (todo sujeito político torna-se político não pelo isolamento, mas pela associação. que esta se faça por blogs é só usar o recém-existente para re-criar em novos termos o previamente existente).
Deixa-se escapar as brechas que existem como se fossem coisas “que só empresas e instituições fazem” (?). (a respeito de instituições, me lembro como se fosse ontem o momento em que deixei a minha infância conceitual e passei a entendê-las de outro ponto de vista: foi quando, num banho de água fria, uma professora de sociologia disse que não é porque as instituições tenham um mesmo nome – como “escola”, por exemplo – que elas representam a mesma coisa: passei a tentar enxergar para além do nome, cada instituição em particular – por ex, sabemos que PT e PSDB estão sujeitos às mesmas regras do jogo polítco, mas ao mesmo tempo são instituições diferentes, para além das regras que as moldam grosso-modo).
Mas voltando à essa ideia de que “redes” é o que empresas e instituições fazem: isso quer dizer que o recurso é eficiente, e por isso as esquerdas perdem campo em deixar de fazê-lo, pois abrem um vacuo ocupado pela direita e com isso abrem seu flanco, ou que é um recurso do mal? Não seria ingenuidade pensar dessa segunda
maneira?
Eu juro que é melhor não ser o normal
Postado por Flavia em Coisas da Vida no dia 14 de April de 2009 às 19:51
O Emir tem razão: Quem está doente: Adriano ou os outros? O engravatado que morre devido a stress junto com cigarro e tem um colapso cardíaco com uma conta polpuda no banco, ou o cara que singelamente admite que o que ele queria era estar junto da família e amigos e ganhar só o bastante pra isso?
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Eu sou do time do Adriano. Pode chamar de louco, mas sou feliz. Em homenagem a Adriano e todos os que optam por viver mais mesmo que isso signifique andar de fusquinha ao invés de ferrari:
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E praqueles que tem “a cabeça no lugar”, trabalham 29 horas por dia, nem sabem direito o nome de suas crianças, aqueles normais que não tem tempo de curtir os amigos, ir jantar na casa da mãe e assistir novela com o vô só pra ver ele comentar injuriado que “aquela menina não presta” e perguntar “por quê vô?” pra ouvir a resposta que já conhece “é que essa está com o outro, mas dá em cima desse ai…”. Pra estes normais eu dedico a seguinte canção
Nós éramos muito diferentes…
Postado por Flavia em Coisas da Vida no dia 4 de April de 2009 às 14:00
Quantas pessoas não põem nestas palavras a razão para o rompimento amoroso?
Claro que não é fácil ter que se explicar quando a ferida da separação ainda dói e um amigo ou amiga tem a infeliz idéia de perguntar o “Porquê”.
É de uma falta de sensibilidade fora do comum, apesar de amplamente adotada para expressar surpresa e preocupação. Eu normalmente prefiro dizer que entendo, e perguntar “E você está bem?” ou “E como você está?” e deixar que a pessoa fale e me conte o que quizer e se quizer. Na verdade acho que o mais importante é conversar sobre outros assuntos, tentar, como amigo, refazer a ponte da pessoa com o mundo, pois uma das coisas que mais dói no fim de um relacionamento é que a maior conexão que temos com o mundo é pela pessoa que amamos.
Mas gostaria de me deter um pouco nessa resposta à infeliz pergunta: “Não podia dar certo… Éramos muito diferentes”. Apesar de ser resposta pronta que põe de lado rapidamente a incômoda pergunta sem-noção, o frequente recurso a ela demonstra que é idéia compartilhada, compreendida e aceita como resposta pertinente. Aponta, portanto, que é uma noção a respeito de relacionamentos que é muito forte na nossa sociedade. Pode até ser mentira, mas as pessoas aceitam.
Você consegue imaginar as pessoas aceitarem sem mais, sem a necessidade de explicações pormenorizadas, a resposta “É que nós éramos iguais demais”? É totalmente contrária à noção de “almas gêmeas”, da “outra metade da maçã” que está no lugar comum do nosso pensamento sobre relacionamentos amorosos.
Ontem li um texto realmente liberador e revelador a respeito dessa noção, de Marcos Donizetti. Sugiro a leitura!
Sobre a noção de Fetiche, e o que isso tem a ver com o amor narcisista
Fetiche é uma noção ligada à psique e à sociologia marxista. É a idéia de que o ser humano é capaz de projetar elementos da sua psique e “dar vida” a um objeto inanimado. Quando temos tesão por roupas e sapatos estamos a dar vida a estes objetos com o sentido que a eles imputamos. Na sociologia marxista, quando dizemos que é o dinheiro que faz o mundo girar estamos também dando vida a um objeto inanimado e incapaz de agir, botando à sombra as relações de dominação entre os homens que realmente fazem o mundo funcionar da maneira que funciona.
Após a leitura do texto de Donizetti é possível que fique mais claro o entendimento da idéia de narcisismo como fetiche: ela sugere que ao procurarmos nós mesmos no outro estamos projetando nossa psiquê no outro, que é tomado não como pessoa, mas como objeto.

