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A Matéria na Folha sobre o Confecom, com meus comentários
Postado por Flavia em Para Mudar os rumos da Mídia no dia 14 de May de 2009 às 14:24
*Folha de São Paulo – 17/03
Caderno Brasil
União prevê R$ 8,2 mi para debater comunicação * *ANDREZA MATAIS*
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
“O governo reservou R$ 8,2 milhões para realizar uma conferência nacional que irá discutir a comunicação social no país. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já determinou a três ministros a realização do evento ainda neste ano para discutir temas como concessão de rádio e TV e convergência tecnológica. O foco do evento, segundo a Folha apurou, estará voltado para as novas mídias, como internet, TV a cabo e celular” (mentira deslavada ou êrro da Folha? Que eu saiba, a Confecom vai discutir todas as mídias – é uma conferência para a criação de novas leis que darão mais espaço a canais de relevância social, e comunitários, no rádio e na TV, as liberdades na internet, o controle de propriedades cruzadas em grandes grupos midiáticos, entre outras coisas)
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“O governo está definindo os detalhes do decreto que irá convocar a conferência, prevista para dezembro.” (na verdade o presidente já assinou o tal decreto, no último Fórum Social, que eu saiba) “O valor do evento foi incluído no Orçamento de 2009 pelo Congresso e, segundo o deputado Walter Pinheiro (PT-BA), preservado dos cortes do início do ano. O montante supera o valor gasto com o encontro nacional dos prefeitos, que reuniu 15 mil pessoas, e teria custado mais de R$ 2 milhões. O governo ainda não tem o valor exato do custo, nem a definição de quantos serão os
participantes da conferência. Porém, as realizadas pelos ministérios da
Saúde e Cidades, por exemplo, reuniram em média 2.000 pessoas.” (além do fato de ser tudo gasto do governo, o que tem uma coisa a ver com a outra? Será mais um daqueles argumentos Folha do tipo “olha que absurdo, como o governo Lula gasta com um monte de inutilidades?)
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“Auxiliares de Lula dizem que ele decidiu convocar a conferência neste ano
para evitar a discussão em 2010, ano eleitoral. Será a primeira vez que um
governo realiza conferência sobre o assunto. A pressão partiu de movimentos sociais e do PT, mas a realização da conferência também agrada o setor. “(como assim? agrada que setor? Vai se tratar de uma batalha pra ver se as coisas ficam como estão ou se mudam. Vi que há gente do PT envolvido com a coisa, por estarem envolvidos com questões em torno de comunicações e direitos humanos, mas será que dá pra realmente reduzir um movimento que vem se construindo há anos – em 2007 a coisa já estava sendo construída – e que partiu de ONGs de direitos humanos, Ongs de rádios comunitárias, ONGinhas e ONGuetas pelo Brazil a fora e que recebeu o apoio de gente como a Luíza Erundina – acho que faz tempo que ela não é do PT – e gente do PT, mas que não foi um movimento que se iniciou em partido nenhum, mas da garra e da luta dessas ONGinhas que tem uma estrutura muito menor, e movimentos culturais, e movimentos de igrejinhas locais, tudo com um esforço voluntário de formiguinhas pode ser assim qualificado, como a Folha o fez?)
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“Segundo o ministro Franklin Martins (Comunicação Social)” (já que a Folha gosta de falar de partidos, de que partido ele é? isso eu não sei, mas sei que ele trabalhou para a Globo e no passado pertenceu à ALN e MR8 – é isso que está na wikipédia), “concessão de radiodifusão, propriedade cruzada dos meios de comunicação, fortalecimento da imprensa regional e concentração de veículos nas mãos de um mesmo grupo devem ser debatidos. Esses pontos são similares aos defendidos pelo PT, que discutiu o tema em conferência, em 2008.”
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” “O objetivo é que o país debata as questões de comunicação de forma plural. Há muito tempo que não discute o assunto”, disse Franklin. O marco
regulatório da radiodifusão é de 1962, e o das telecomunicações, de 1995. Os ministros Hélio Costa (Comunicações) e Luiz Dulci (Secretaria Geral) também estão envolvidos no debate.” (não foi o próprio Hélio Costa que quase pôs tudo a perder, quando em 2007 quiz que a Conferência se realizasse, quando só os “representantes da sociedade civil empresarial” estavam organizados? Naquela época Erundina disse que era de se considerar estranho que houvesse pressão para que a Conferência fosse realizada naquele momento)
“Para Paulo Tonet, da Associação Nacional de Jornais, discutir monopólio e
propriedade cruzada é um retrocesso. “O tema tem que ser conteúdo nacional e igualdade de tratamento regulatório”, disse.” (Associação Nacional de Jornais… deve ser um desses do setor, que a Folha disse que estão muito agradados)
“O presidente da Abert (Associação Brasileira de Rádio e Televisão), Daniel
Pimentel Slaviero, também defende que a conferência seja ampla, incluindo
discussões sobre jornais e revistas. Antes do evento nacional, haverá discussões nos Estados.”
(é, então: estou bisbilhotando as páginas de algumas ONGs, fazendo contatos por e-mails, fui inscrita em listas regionais e é claro que não consigo acompanhar tudo, que é muita coisa, mas o que dá pra ver é que a organização dos estados depende da organização voluntária das pessoas, há muita gente perdida sem saber o que fazer – é enorme o número de e-mails com perguntas do tipo, com quem falo, onde vou, o que faço…- o Maranhão tinha começado bem, talvez por que houve apoio do governo, mas após os sucedidos com Jackson Lago e a menina Sarney, sabe-se lá. Estou há tempos sem notícias deles. Aqui em Sampa, não há esperança de conseguir apoio de Kassab e Serra. Os gastos que isso comporta devem ser comparados ao gasto de eleições ou de encontros de prefeitos e ministérios? Que eu saiba, muita gente está dando seu tempo e esforço de graça, e botando a mão no bolso para arcar com custos de transporte e hospedagem dos encontros locais – como percebi pelas mail-list do povo de Santa Catarina, fazendo páginas na net, chamando reuniões nas suas associações de bairro, igrejinhas, etc)
A “nova” lei Rouanet nos faz de Burros
Postado por Flavia em Políticas Públicas no dia 20 de April de 2009 às 13:20
O Maurício Caleiro escreveu um post porreta sobre a nova lei Rouanet. Vai lá e voltaquí.
Ele, o Paulo (meu marido) e o Dória me fizeram pensar muito. É interessante a forma como a ideologia nos pega pelo rabo. No começo, quando vi a nova lei confesso que achei boa. Parecia que a intenção era das mais santas, mas como todos sabemos de boas intenções o inferno está cheio.
Quantas vezes o ministério quer que o cidadão pague para não consumir os produtos da lei? Ele paga por abrir mão de recursos fiscais que de outra forma, pelo menos se espera, iriam para outras àreas dos falidos sistemas de educação, saúde etc, depois ele paga compulsoriamente 50% de um vale cultura, para ir assistir o rambo (pois os filmes produzidos por estes incentivos não vão aos cinemas – considerar que ir ao cinema do espaço unibanco e do frei caneca por uma temporada curta e para uma amostra de cinema em duas exibições cada, só nas grandes capitais e só os que forem, dentre os tantos produzidos, é desconsiderar grande parte do brasil, dos filmes e dos recursos).
Estou agora achando que essa história toda está mais é funcionando como a cenoura que se pendura na frente do burro para que ele ande (e o burro somos nós, os cidadãos brasileiros, que continuaremos a dar nossos recursos para o circo de solé, o fernandinho e a globo filmes).
De início fiquei deslumbrada e iludida com essas comissões que a nova lei pretende criar, com “ampla” participação de profissionais envolvidos nas áreas artísticas e dos cidadãos. Como eu disse, a ideologia nos morde pelo rabo, nos transforma naquela cobra que se engole a si própria. Já faz décadas que somos expostos à ideologia neo-liberal e percebo (com espanto e horror) que não é fácil fugir dela. Ela nos ensina a desconfiar do estado (que seria “centralizador”, “dirigista”) e a entregarmos aliviados nossas esperanças (e recursos) a esses esquemas que só tem de “democráticos” a aparência.
“Democrático” é o cacete. Que democracia é essa que pretensamente oferece com as mais santas intenções canais “de participação” a um povo que não tem uma discussão acumulada, associações que se apossem desses canais, uma coisa que não é demanda popular. Isso me cheira estranho. Há algo de podre e não é só no reino da dinamarca. Pois não seriam os funcionários e atores da própria globo representantes legítimos dos profissionais? E me pergunto em seguida, o que seria mais fácil: o cidadão desmobilizado, que nem conhece os meandros da área entrar nessa de gaiato e ser facilmente cooptado por quem “conhece mais” que também estará nessas comissões, ou quem sabe advogados da globo sendo pagos para participar em tempo integral dessas tramitações. Não seriam eles legítimos cidadões do nosso estado? O que é melhor? Confiar que o ministério pegue isso em suas mãos, pois como representantes legítimos do povo e como órgão centralizado, com cara e com nome pode ser devidamente cobrado pelo cidadão (ainda é possível mandar e-mails, fazer abaixo-assinados e acampar em frente aos seus escritórios) ou a comissões que parecerão democráticas (vamos nos cadastrar no seu site e receber clippings informativos e achar que estamos participando?)

as cenouras pararam de funcionar e eu mudei pra chocolates
São algumas das perguntas que me faço neste momento, e creio que se meus temores tiverem base, o momento é de crise e urgente, pois todos sabemos que é muito mais difícil desmontar uma burocracia depois que ela está formada, em pleno funcionamento e recebendo recursos públicos. Depois que essa máquina se formar o cidadão desmobilizado e envolto na sua vida de trabalho, compromissos e contas será muito mais impotente do que já é neste momento.
Já deu pra perceber que sou contra a “nova” lei rouanet. O que fazer agora? Creio que há pouco a se fazer, pois as propagandas pela lei já pegaram, o circo já está armado, e provavelmente esse arremedo de “democracia” que é esse endereço de e-mail para coletar nossas opiniões não vai servir para nada. Neste contexto creio que a última e única chance que temos é de tentar esvaziar o poder desse esquema pela concentração dos ataques a um ponto específico da lei, que tiraria o picolé das mãos da globo: o recurso público aos filmes produzidos deve ser vinculado à obrigação de produzir no final do processo um arquivo (em avi, ou equivalente) contendo o filme, obrigação cujo não cumprimento implicaria em multa (no valor do mesmo serviço). Os arquivos produzidos devem ser colocados à disposição do público com download gratuíto pelo site do ministério da cultura. E os recebedores dos recursos públicos abrem mão dos direitos de reprodução. A isto eu vincularia que os filmes podem ser reproduzidos em qualquer lugar, público ou privado, com ou sem a cobrança de ingressos pelo serviço (o que possibilitaria que as salas de cinema e associações pelo brasilzão possam disponibilizar os filmes ao público).
Você pode até dizer que essa é uma medida desesperada (e é mesmo).Mas é a única forma que eu vejo de esvaziar o interesse das corporações – a globo entre elas – em ter qualquer participação nesses esquemas (pois ela não teria lucros). E é claro que há ainda a mais que possível possibilidade de que se fizermos disso um grande abaixo assinado as autoridades façam de conta que nem ouviram falar disso. No entanto, considero que é bom fazê-lo, pois por menos efetivo que um abaixo assinado seja, ele pode levantar uma discussão que não está sendo feita, pois como o burro que vai atrás da cenoura, confiamos na boa intenção do Ministério da Cultura.
Eu seria, além disso, contra a criação do vale-cultura. O cidadão não deve pagar duas vezes pelo produto (ou três vezes, pois 20% vem do empregador, não é mesmo? os outros 30% vem do governo, e portanto, da bolsa pública do cidadão aberta aos urubús)
Tal medida não teria o resultado de desincentivar a produção nacional, pois os custos de produção continuariam sendo pagos pelos cofres públicos aos projetos selecionados (mas desta vez, duvido que o FH tivesse interesse em ser incentivado, pois teria que cumprir com o contrato e deixar seus arquivos abertos – imagina quanta coisa interessante não teríamos para ler e gastar parte de seus recursos com isso). Já a produção teatral e de dança teriam apenas que filmar uma apresentação, pois como disse acima, os direitos de exploração comercial do produto estariam abertos.
Outro texto de Carlos A. Dória para pensarmos a lei Rouanet
Postado por Flavia em Políticas Públicas no dia 18 de April de 2009 às 18:49
baixe o PDF do texto Contra o Cinema Nacional. Na minha opinião ele conté3m elementos interessantes para se pensar essa situação atual do Cinema Brasileiro.
No mínimo a situação atual, que privilegia a doação dos recursos públicos para que corporações façam bonito requer uma certa estratégia: tudo isso é dinheiro público, as latas de filme vão se empilhando, não chegam ao público que paga pelos filmes e este é o absurdo do qual parto. É preciso botar estes filmes à disposição. É preciso fazer com que eles saiam da lata.
Está surgindo na minha cachola a idéia – não sei, gostaria de receber comentários a respeito, que tal? – de que se estes filmes são feitos com recursos públicos – não me importa se 100%, 80%, 50%, 30%… eles devem estar à disposição do público.
Estamos na era do dowload e, como o professor Dória bem diz no seu texto, “O desaparecimento do custo de copiagem, a possibilidade de distribuição direta pela internet para as salas de exibição, a própria exibição em espaços não exclusivos para filmes, a ampliação do consumo doméstico, tudo embaralha as cartas e promove a reestruturação dos negócios. Assim, a fissura no contrato histórico entre os realizadores e o Estado cria uma nova oportunidade para a afirmação dos interesses públicos, o que implicará em cortar a dependência improdutiva do cinema e abrir novas frentes de investimento que incorporem ao mercado as camadas populares cuja fruição cultural não se aninha no mundo dos shopping-centers.”
Aproveitando a inspiração do professor Dória, e juntando 2+2… eu gostaria de propor que
É necessário que a dotação desses recursos vindos dos cofres públicos esteja vinculado, por contrato, ao compromisso de transformar estes filmes em arquivos para computador, e que o Estado abra um domínio na net de onde será possível baixar estes filmes que poderão ser exibidos sem direitos ou reservas por qualquer cinema, casa, associação comunitária, igreja, ou domicílio familiar no Brasil.
Que acham? é sério, não é piada não. Está só me faltando o conhecimento de como abrir uma página para recolher abaixo-assinados e mandá-los ao ministério da cultura (se alguém sabe como, por favor me ajude)
Educação é como a mesa para A Escada
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Alguma vez você já parou para pensar que valores motivam ações? Não estou falando da campanha do Betinho não: estou falando da vida rotineira de qualquer um de nós – homo erectus, homo tortus, homo agrárius, homo criminosus, homo lattes, homo lavamaisbrancus…

"olha o que você fez: mau designer, mau designer" "que cretino! Ô Bob, você nunca vai conseguir educar ele desse jeito. Você tem que pegar ele no ato!"
Vejamos um exemplo mais próximo de mim: o homo lattes. É uma tribo interessante de homo: pergunte o que ele faz e a resposta será “mestrado”, “doutorado”, “pós-doutorado” ou uma variação disso. No seu cérebro aquela pergunta se converte em algo como “Em qual degrau você está dA Escada?”. Quando a resposta vier do tipo “eu estudo os efeitos de x em…” ou “eu pesquiso as conexões entre y e…” com cenho franzido de quem tenta traduzir uma língua exótica, você pode ter certeza de que está em presença de um deslocado da comunidade dA Escada. O homo lattes é um homem de títulos.
O homo lattes olha com desdém os membros deslocados dA Escada. Alguns desses deslocados são dignos de pena: eles ficam por anos e aaaanos tentando subir os Degraus com uma manobra esquisita que só dificulta a subida – são um tipo demente de quem é melhor ficar longe. Mas alguns deslocados dA Escada alcançam os degraus mais altos muito rapidamente. Esses devem ser odiados, pois decerto vêm de uma família que está nA Escada por gerações, e com toda certeza, eles jogaram uma corda pra ele. Ou então esse deslocado vem de uma das poucas famílias com acesso a helicópteros: com certeza eles deram uma carona ao deslocado para o topo dA Escada.
O homo lattes não vê diferença entre títulos: são equivalentes gerais, como disse Marx sobre a moeda. Assim como uma mesa é uma mesa, igual a qualquer mesa por sua função, independente da arte que se use para fazê-la. Ele só vê função, e essa função é ao mesmo tempo seu valor de uso e seu valor de troca. De seu ponto de vista uma mesa cuja feitura usa tecnologias de materiais que demoraram séculos para serem desenvolvidas e conceitos de design que tem uma história bonita, ou uma mesa que é feita toda a partir de uma brilhante estratégia de engenharia desenvolvida por alguém brilhante que teve que esculpir demoradamente peça por peça é uma pura perda de tempo e recursos, pois não é diferente de uma mesa feita com uma tábua e 4 paus colados com pra quê prego: estando firme é funcional – é uma mesa como as outras.
Como dizia um outro motoqueiro (1), um indivíduo só pode compreender sua própria experiência (e avaliar as possibilidades de seu próprio destino) entendendo sua posição na história, em sua cultura e em sua classe. O espírito dA Escada não surgiu do nada: suspeito que surgiu da FAPESP, uma entidade de uma só vez terrível e magnífica, como o Deus de Abraão (2).
A ética lattes, é uma ética classe-média. Como qualquer outro homo classe média (mesmo os não lattes), o que ele quer na vida é continuar a ser classe média (diferente das várias tribos de homo miserabilis, que querem ser outra coisa). Educação é como a mesa – tem essa função: Por meio dela ele ganha as ferramentas para sua subsistência como membro da classe. Faz parte dessa ética a noção de self-made-man. Essas tribos de homo frequentemente não vêem que a sua posição financeira e familiar classe média constituem um chão pelo qual é possível chegar À Escada. Mas eles são capazes de enxergar – e com um ressentimento de classe já suspeitado por Nietzsche (3) – que os membros dA Escada oriundos da tribo homo abastadus abastadíssimus trazem consigo no mínimo um tênis ergonômico (daqueles feitos pra aumentar o seu impulso) quando chegam À Escada. Com que tecnologia eles construíram a sua mesa não importa: essas noções sucumbem frente ao ódio de classe.
Mas a minha preocupação é com o homo miserabilis. O espírito das discussões políticas de nossa época sai da tribo lattes, que é classe média. Há membros dessa tribo que ao invés de subirem A Escada, sobem A Folha (ou outra instituição dessa Árvore aos pés dA Escada: Veja, alguns dos pertencentes À Escada não deixam nunca de cuidar dela, Isto É, regá-la, colocar fertilizante e de jogar um pouco de sua luz nA Árvore, para alimentar aqueles homo que como lagartas crescem, e viram lindas borboletas, algumas vezes voando para o lindo Exterior).
E o homo miserabilis? O homo lattes realiza um supremo sacerdócio – sacrificado pra caramba – de tentar fazê-lo entender que ele é feio – feio mesmo, mas muitos miserabilis são cabeça-dura. Não se trata apenas de uma estética do visível (claro que muitos dos miserabilis não são zarcos, nem bem tratados, às vezes torcem pro Corinthians e faltam-lhes uns dentes (4) sua estética equivocada não é A Estética que aparece impressa nAs FolhaS). Mas, para além disso, trata-se de uma questão mais profunda: muitos deles não são dotados da capacidade que lhes permite ler A Árvore, e isso é por culpa deles mesmos, da forma que se portam nA Vida. A Vida é dura, e pra eles subirem nA Vida eles precisam penar, como penaram os que subiram nA Escada, e a via destes sacros suplícios é a educação, ou seja, conseguir galgar pelo menos a escadinha que chega no chão que leva À Escada.
A Vida é dura. E os membros da classe que subiu A Escada entendem que tanto a escadinha como A Escada são suplícios que justificam que os que passaram por elas com sucesso são uma espécie de santos e devem ganhar salários no mínimo umas vinte vezes maiores que aqueles que nem a escadinha conseguiram galgar (5), como compensação justa por seus esforços nA Vida.
Mas o homo miserabilis, em especial o brasiliensis, apesar de muitas vezes concordar com o homo lattes, é um Macunaíma preguiçoso que tem que aprender uma lição dura: é nada mais nada menos que o justo que o homo classe média brasiliensis pague ao miserabilis por semana menos do que a metade do que o homo classe-média gasta no supermercado comprando fandango e barrinha de cereal por semana, para que ele limpe o chão da habitação do homo classe-média brasiliensis (e lave sua privada). Valores motivam ações e ele age assim todo dia. O homo médiaclasse brasiliensis sabe da existência do homo trabalhatoris europeu e canadensis, por exemplo, e que é diferente do miserabilis: é uma coisa briguenta, dada a passeatas, coisa que ele não compreende nem gosta. O homo classe-média brasiliensis é um pacifista de ocasião: Ele sabe que na sua tradição de pensamento brasiliensis, que é herdeira tanto de Aristóteles quanto de Miranda de Azevedo (ver a partir de pag 89), o mundo é muito mais claro do que querem esses membros deslocados dA Escada, e que A Vida é pão pão, queijo queijo (apesar que o queijo não é considerado essencial por ele, pelo menos não como ingrediente necessário na mesa do miserabilis).
Notas:
(1) Wright Mills, sociólogo deslocado. Em sua produção militante imaginava ser a Imaginação Sociológica a capacidade que traria ao homem forças e ferramentas para modificar suas condições de existência, um dos últimos e mais valiosos frutos do iluminismo, portanto, junto com os teóricos da escola de Frankfurt. Diz-se dele que era uma figura, andava de jaqueta de couro na sua Harley Davison, e foi impedido pelas estruturas da universidade de ter seguidores (orientandos). Seus livros, no entanto, (assim como sua audácia), foram um grande sucesso de público e inspiraram várias gerações de sociólogos. “Outro” motoqueiro, por que como motoqueira e socióloga, quando penso nele me sinto em boníssima companhia. Um dos meus amigos imaginários mais queridos.
(2) O Deus de Abraão pediu-lhe que oferecesse seu único filho em holocausto como prova de amor (ao Deus, não ao filho). Mais sobre os desenvolvimentos disso, sugiro “Temor e Tremor” de Kierkegaard, que é leitura apaixonante. Nada me tira da cabeça que, impedido pelo anjo de sacrificar seu filho, Abraão não deixa de ser um assassino.
(3) Pela idéia da transvaloração dos valores, Nietzsche procura desvendar o alicerce do interesse material e de classe, poderia-se dizer, que está na base dos valores passados às verdades da filosofia. É o primeiro filósofo anti-filósofo a inaugurar em sua própria disciplina estudos críticos sobre a mesma. Segundo ele, a transformação de conceitos políticos da prominência (e, portanto, podemos ler, de dominação) num conceito psicológico é regra. É assim que ele analisa o surgimento, desde sua etmologia, dos conceitos de bem e mal. Assim como ocorre com sua análise da moral de raiz judaica – que contém elementos de uma vingança simbólica de um povo vencido – creio que é possível olhar da mesma forma para a noção da classe média acerca de educação como um bem (tanto como justificadora de seu status, e como remédio para a pobreza brasileira, que parece querer dizer que quando todos os pobres tiverem estudado deixarão de ser o que são para se tornarem como eles – classe média – não levando em conta e mesmo sendo contrários às políticas distributivas que visam atingir o que poderíamos chamar de estruturas sociais da pobreza). A noção de educação que vem da classe média é vingativa tanto contra as classes mais baixas quanto contra as classes mais altas, onde é possível perceber o seu ressentimento contra aqueles mais poderosos que triunfam justo em seu bosque, que é a academia.
(4) Circulava nos anos 90 um questionário que um povo achava muito muito engraçado pra ver se você é mesmo corintiano. Uma das questões era se lhe faltavam dentes. Fui vítima do mesmo questionário, aplicado por alguém de quem deixei de ser amiga na mesma data, para saber se eu era mesmo petista. A mesma pergunta constava, Mas não consigo recordar, tanta a emoção, se me perguntava também se algum dedo me faltava.
(5) A educação pela dureza, na análise de Adorno em “Educação após Auschwitz”, aponta para a tendência de os duros consigo mesmos se acharem no direito de serem duros contra os outros e de se vingar dos outros pelos sacrifícios pelo qual passou. A análise de Adorno acerca do totalitarismo também não caberia ao caso brasileiro? Para muitos membros da classe média educação é vista como sacrifício necessário (e raramente como gozo), capaz de justificar a diferença entre aqueles que foram capazes de se submeter a ela (e duros consigo mesmos, perseveraram) dos macunaímas que “fugiram” a ela (não o bastante duros consigo mesmos, são seres humanos menos merecedores dos louros).
Lei Rouanet no país do Artesanato Cultural
Postado por Flavia em Políticas Públicas no dia 15 de April de 2009 às 10:27
Como assim, o Circo de Solei e o instituto Fernando Henrique recebem apoio da lei Rouanet? (ver post anterior). Há algo de podre no reino da dinamarca e creio que as propostas de mudança são necessárias e são para melhor, mas ainda tenho muitas dúvidas a respeito e ainda acho que a prioridade dada à produção e (quase?) nenhuma prioridade dada ao acesso é muito preocupante.
Analisemos a produção fílmica, por exemplo. Eu sou estudante
de sociologia do cinema, mas de maneira nenhuma sou especialista em leis de fomento, sistemas de produção, ou cinema brasileiro (analiso imagem na ficção científica americana de um grupo minúsculo de filmes), então caso eu esteja falando bobeira, ela está aqui para ser criticada:
A minha impressão é que a produção fílmica brasileira se destina a um público estrangeiro – excetuando-se produções como xuxa e os trapalhões e algumas outras que são sim feitas para o mercado interno, visando sucesso de bilheteria aqui, a maior parte da produção fílmica do brasil é feita para o público estrangeiro.
Me explico: a grande porção destes filmes são feitos, me parece, visando a participação em festivais internacionais (o que
não é por si mau) e são, portanto, feitas tendo em vista não só um público estrangeiro, como majoritariamente especializado – o público dos pares, outros profissionais envolvidos com a produção e crítica fílmica nos grandes centros de produção artística mundial. Com certeza isso traz coisas boas, mas traz algumas conseqüências que considero
indesejadas, pois se a tendência a ter este público não é parte de um processo produtivo, mas como suspeito, constitui o processo inteiro, ela acaba não fazendo o papel de trazer de volta a uma produção para o público interno um acúmulo de elementos artísticos em desenvolvimento pelo simples fato dessa produção para o público interno, como suspeito, não existir.
Estes filmes não vão para os cinemas no brasil (excetuando-se certas salas de cinema com um público cult, como as do espaço unibanco aqui em são paulo e alguns filmes que são honrosas
excessões), e muitos destes filmes, mesmo nestas salas tem uma exibição curta, ou somente em festivais ou nunca alcançam a exibição nas salas de cinema. Isso quer dizer que a imensamente maior porção de dotação de recursos públicos ao cinema (que é no seu total pequena, mas sai do bolso do contribuinte) é feita a uma espécie de fundo perdido, sei lá como chamar isso, pois nunca chega a ser consumida (pelos 99,99% da população, imagino).
Por isso dou tanta importância ao texto do sociólogo Carlos Alberto Dória. Pois continuo achando que qualquer discussão será inócua
se não passar prioritariamente por ai. Não tenho comigo o texto do Sorlin, estudioso do cinema Italiano, mas no seu livro “Sociologia do Cinema” ele faz uma análise de todo o processo de produção do cinema italiano à época do cinema realista. O tipo de análise da indústria fílmica que se encontra nesse texto é de bastante proveito para a discussão do cinema brasileiro. Então vamos a ela:
O cinema italiano – pelo menos naquela época – tinha forte participação estatal e nem por isso deixava de visar um sucesso comercial, pelo contrário. A negociação financeira de uma produção, pelo que me lembro, começava com a dotação de uma verba do estado que deveria corresponder assim, digamos à um terço ou metade do necessário para realizar a produção. De posse
dessa carta de dotação, o produtor ia a empresas e conseguia a participação destas (o fato do empreendimento possuir já uma larga dotação de recursos incentivava a participação no evento comercial visando obter lucros de bilheteria no final do processo). A negociação toda já envolvia as empresas distribuidoras – responsáveis por negociar a exposição dessas películas nas salas de cinema – desde muito cedo, no processo de angariação de recursos. Era comum que uma porcentagem relativamente grande dessa produção – que era massiva – não conseguisse chegar ao fim de seu processo de produção ou, terminados, uma porcentagem desses filmes não seria exibido (o que era normal e é normal em Hollywood).
O insucesso das produções não ficava como prejuízo ao contribuinte, pois todo esse dinheiro dotado pelo estado era um empréstimo, não uma doação. Produtores que ficavam com esse abacaxi na mão (o prejuízo do empreendimento) simplesmente
iniciavam novas produções cujo sucesso compensaria estes prejuízos, mas era tudo um negócio de risco cujo sucesso na média (entre produções fracassadas e produções de sucesso) trazia bons lucros, pois uma boa porção desses filmes era completada, atingia uma grande percentagem de salas de cinema (competindo com produções internacionais) e tinha sucesso de bilheteria, gerando lucros compensadores.
Enfim, era uma indústria, não tão forte quanto a americana, mas que abocanhava uma porção do mercado nacional de venda de ingressos e realizava produções ítalo-francesas franco-italo-seimaisoquê… de alto valor cultural, mas também fazia seus “westerns italianos”. A minha impressão (não tenho os dados na mão _1_) é que para o cinema brasileiro falta uma porção de coisas. Evidência disto é que poucos filmes são exibidos em poucas salas de cinema.
Eu gostaria de saber qual é o problema: será que o processo da produção ($$$) de filmes nem se dá como negócio? Não visa retorno a investidores? Não há um mercado de ações fílmico? O estado faz doações a fundo perdido? O contribuinte paga por algo
que ele nem consome? (olha que os dados do ipea – segundo os quais as classes A, B, C e D consomem na média 3% de seu orçamento em cultura são muito relevantes, pois demonstram que há mercado para o consumo de filmes, mas se o estado em uma ponta financia o filme e na ponta de consumo dá vale cultura, e no entanto não há maior cuidado com relação às possibilidades de
distribuição e disponibilidade de salas – não em são paulo e no rio, mas pelo brasil a fora – uma ponta nunca vai se encontrar com a outra: o contribuinte gasta compulsoriamente com a produção do filme que fica na latinha enquanto o consumidor usa seu vale cultura para assistir o último filme de van dame).
São essas algumas questões que me ocorrem. Quanto às possibilidades de controle por comissões envolvendo profissionais da área, representantes do governo e membros da “sociedade civil” (estes poderão ser qualquer um, ou uns, incluindo a possibilidade da Globo botar vários de seus advogados nessas comissões), acredito que se o processo de escolha desses membros for democrático e transparente há chances de que haja chances para uma distribuição mais justa de recursos. Há uma brecha que se fecha no dia 8 de maio do ano do senhor de 2009. Não creio em grandes mudanças repentinas, mas gostaria de aproveitar a deixa
para iniciar uma discussão. Quem sabe, lá pelo ano de 30078, se ainda houver seres humanos mutantes que respirem gás carbônico e ácido sulfúrico (seres humanos tipo bi-motor) no brasil, é possível haver uma indústria fílmica brasileira consumida pelo mundo todo, inclusive por brasileiros, com uma produção relevante no cenário da cultura mundial. Também não quero desanimar aqueles que como eu acham que toda e qualquer brecha de participação democrática, por mais que pequena, deva ser aproveitada com otimismo e entusiasmo: a cultura humana já teria perecido há muitos séculos se não fosse pelo entusiasmo dos que querem muito mais e muito além daquilo que é defendido como a política do possível, a realpolitik do pensamento neocon.
1. Dados necessários para uma análise mais precisa são números: quanto é gasto, pago por quem, número de cinemas que exibem as produções brasileiras, lucros advindos da exibição dos filmes, tanto para as salas de cinema, como para as companhias distribuidoras, investidores e os lucros que retornam aos produtores (imagino que esses números todos talvez nem existam, pela própria forma como se configura o artesanato fílmico brasileiro, mas para a indústria fílmica americana sugiro só por curiosidade tentar pesquisas utilizando as palavras-chaves “box office” e talvez cruzadas com “market share” ou “grosses”; você irá cair em páginas que avaliam o sucesso de bilhereria de tudo quanto é filme produzido por essa indústria, além de análises de setor, como do sucesso de bilhereria alcançado na média dos gêneros, como “ficção científica” e “terror” e você irá perceber que estes sites tem como público alvo o empreendedor – o cara que bota grana nos filmes e para quem é preciso avaliar riscos e lucros, como se ele estivesse comprando ações no mercado futuro, pois para ele é isso mesmo: se trata de escolher qual o melhor investimento: milho, arroz, ou arriscar num filme). Além desses dados, seria necessário um melhor entendimento do processo que se inicia com a produção de um filme (produção no sentido de angariamento de recursos, não da arte de feitura do filme), a relação destes com as diversas possibilidades de financiamento (investidores que investem em “ações”, shares do filme, companhias que utilizam a lei rouanet, financiamento do estado, das distribuidoras e o que mais houver disponível) e de qual o retorno esperado por estes investidores, imagino, só pra começar.
PM despeja comunidade auto-suficiente de terras de escravagista
Postado por Flavia em Notícias de outros Blogs no dia 9 de April de 2009 às 14:26
Horrível. Leia no Blog do Sakamoto
Aliás, o Blog do Leonardo Sakamoto contém esta e mais muitas histórias relacionadas ao escravismo no Brasil, nas suas mais diversas formas. Sugiro ler de alto a baixo.

