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	<title>Algodão Hidrófilo &#187; educação</title>
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		<title>Blogos-Fera Critica</title>
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		<comments>http://algodao.algumlugar.net/2009/07/blogos-fera-critica/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 21 Jul 2009 23:42:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Flavia</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ideologia]]></category>
		<category><![CDATA[blogagem]]></category>
		<category><![CDATA[confecom]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<description><![CDATA[Este texto surgiu no espaço de comentários do post &#8220;Respostas a Algumas Perguntas Frequentes&#8221;, do Biscoito Fino e a Massa, em resposta a Alexandre Nodari,  que comentou eu.
Alexandre,
&#8220;Essa história de &#8220;formar uma rede&#8221; é totalmente equivocada, mesmo se for caso de ativismo. Formar uma rede é o que as empresas e instituições tentam fazer.&#8221;


Então me [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Este texto surgiu no espaço de comentários do post <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2009/07/respostas_a_algumas_perguntas_frequentes.php">&#8220;Respostas a Algumas Perguntas Frequentes&#8221;</a>, do Biscoito Fino e a Massa, em resposta a <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2009/07/respostas_a_algumas_perguntas_frequentes.php#c88676">Alexandre Nodari</a>,  que comentou <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2009/07/respostas_a_algumas_perguntas_frequentes.php#c88632">eu</a>.</p>
<p><strong>Alexandre,</strong></p>
<blockquote><p><em>&#8220;Essa história de &#8220;formar uma rede&#8221; é totalmente equivocada, mesmo se for caso de ativismo. Formar uma rede é o que as empresas e instituições tentam fazer.&#8221;</em></p></blockquote>
<p><em><br />
</em></p>
<p>Então me diga como ficam os &#8220;cidadãos&#8221; atomizados frente a um poder que ele desconhece, de entranhas burocráticas e de conchavos, um sistema muito acima e para além dele. O &#8220;cidadão&#8221; (coloco o cidadão entre aspas e explico depois) &#8230; o &#8220;cidadão&#8221; moderno me lembra o ser humano pintado por Benjamim na modernidade da guerra: seu frágil corpo nada pode frente à imensidão de uma máquina de guerra.</p>
<p>Assim também é a política. Ao &#8220;cidadão&#8221; se dá o poder de apertar os botõezinhos de quatro em quatro anos. Sujeito a uma máquina de propaganda, uma máquina de CPIs e de criação de discursos, uma máquina cujos entremeios Kafkanianos ele desconhece, ele vai com fé (?) de quem por fim, sabe das coisas, apertar botões a cada 4 anos.</p>
<p>Quando se pega um assunto de interesse cidadão (sem aspas) &#8211; pois<br />
não se está a tentar a fama por meio de uma discussão qualquer acerca da vida de Michael Jackson, mas de um processo que envolve um sem-número de brasileiros e que vai retornar -<br />
na forma de leis à todos os brasileiros como norma, à qual<br />
todos, mesmo que não rousseanamente envolvidos na feitura da lei que obedecemos, mas num momento posterior, no momento de sua<br />
aprovação, atinge a todos como suditos desta república, e é,<br />
portanto de <strong>qualidade</strong> diversa de qualquer outra discussão de blog, ou post.</p>
<p>Quando se deixa de ver que um post é <strong>qualitativamente</strong> diverso de outro, estamos num mercado de posts.</p>
<blockquote><p>&#8220;toda manhã, para ganhar meu pão<br />
vou ao mercado, onde se compram mentiras.<br />
cheio de esperança</p></blockquote>
<blockquote><p>alinho-me entre os vendedores.&#8221;</p></blockquote>
<blockquote><p>(Hollywood, Bertold Brecht, tradução de Aroldo de Campos)</p></blockquote>
<p>E como todo post, e assim, todo blog, é equivalente geral, passa-se a aplicar a ele as regras da troca como se fora um equivalente, uma<br />
mercadoria qualquer. &#8220;Michael Jackson&#8221;, &#8220;Madona&#8221; e &#8220;disputa entre movimentos sociais e empresariado pela democratização ou manutenção das coisas como estão&#8221; passam, no universo de blogs, que me parece um mercado, a estarem sujeitas às mesmas regras de troca, de propaganda indireta (já viu que a propaganda hodierna não é direta? ela não diz: compre isto para fazer X, ao contrario, ela diz &#8220;o produto Y é tããããão legaaaalll, e nem diz o porquê).</p>
<p>Por isso se aplica a mesma regra a tudo, assim como no mercado a mesa (primeiro capítulo de O Capital) feita com arte, que leve ao artesão a sua vida para compor, tem um preço e entra na mesma régua monetária que a mesa feita em dois segundos pela indústria. São mercadorias, e isso lhes rouba a qualidade, ou o espírito &#8211; têm cada qual apenas um valor de troca, que as torna comparáveis.</p>
<p>Portanto, o pedido de linkagem é todo &#8211; cada qual &#8211; todo comparavel por que denota cada um, sem diferenças, uma e só uma<br />
coisa, ou (será que?) a cabeça do blogueiro só pensa por meio de uma regra que reduz tudo ao mesmo mercado de trocas? E, dentre as moedas de troca estão as linkagens e dentre os prêmios a fama e os pêmios de melhor blog. A estas regras são submetidos todo e qualquer assunto (?), a partir da chamada &#8220;boa maneira blogueira&#8221;, como se os assuntos não fossem de qualidades e esferas distintas (tanto Michael Jackson quanto Confecom tem o mesmo valor de<br />
troca, como se do ponto de vista politico eles fossem a mesma coisa?)</p>
<p>Assim, toda a proposta de formação de rede aparece no mercado de posts como se fosse a formação de quadrilha visando a fama, ou o prêmio, pois o &#8220;blogueiro&#8221; já não vê diferença entre isto e um ativismo &#8220;saudável&#8221;, uma alternativa do &#8220;cidadão&#8221; atomizado frente à máquina politica, uma tentativa de invenção de um mecanismo político não tão novo, mas modernizado (todo sujeito político torna-se político não pelo isolamento, mas pela associação. que esta se faça por blogs é só usar o recém-existente para re-criar em novos termos o previamente existente).</p>
<p>Deixa-se escapar as brechas que existem como se fossem coisas &#8220;que só empresas e instituições fazem&#8221; (?). (a respeito de instituições, me lembro como se fosse ontem o momento em que deixei a minha infância conceitual e passei a entendê-las de outro ponto de vista: foi quando, num banho de água fria, uma professora de sociologia disse que não é porque as instituições tenham um mesmo nome &#8211; como &#8220;escola&#8221;, por exemplo &#8211; que elas representam a mesma coisa: passei a tentar enxergar para além do nome, cada instituição em particular &#8211; por ex, sabemos que PT e PSDB estão sujeitos às mesmas regras do jogo polítco, mas ao mesmo tempo são instituições diferentes, para além das regras que as moldam grosso-modo).</p>
<p>Mas voltando à essa ideia de que &#8220;redes&#8221; é o que empresas e instituições fazem: isso quer dizer que o recurso é eficiente, e por isso as esquerdas perdem campo em deixar de fazê-lo, pois abrem um vacuo ocupado pela direita e com isso abrem seu flanco, ou que é um recurso do mal? Não seria ingenuidade pensar dessa segunda<br />
maneira?</p>
<p><span id="more-611"></span></p>
<p>Partidos também caberiam nisso &#8211; é coisa de direita. Vamos abandonar os partidos então. Formação de opinião, através de textos tambem. Não é o que a Folha faz? Vamos também abandonar isto, pois deste ponto de vista, os blogs e a imprensa escrita não passam da mesma coisa. É coisa de direita. Vamos voluntariamente nos atomizar e vamos ver o que acontece. Pensar assim é um acerto ou um erro? Você me responde.</p>
<p>Entre os n projetos de estudo que faço, elaboro um método topologico para a análise da internet. É discurso comum que redes &#8220;brotam&#8221; &#8220;espontâneamente&#8221;. Do ponto de vista da análise dos discursos, essa ideologia se aparenta tanto à ideologia de mercado, onde a mão invisível trabalha para que a bonança se estabeleça, e segundo o qual os grandes oligopólios não são se não o fruto de um mérito &#8211; da capacidade de produção de produtos bons que são reconhecidos pelo mercado, que nesse segundo momento é o composto de consumidores atomizados que gostam da qualidade do produto, compram e assim &#8220;brota&#8221; &#8220;espontâneamente&#8221; uma marca forte. É também um discurso que bebe nas fontes de discurso biologico. &#8220;Brotar&#8221; e &#8220;espontâneo&#8221; são coisas que remetem ao crescimento vegetal.</p>
<p>Mas, invertamos a analise. Quais os limitadores de acesso de textos pela internet? O primeiro é o mais obvio: a linguagem. Para além disso, há mecanismos que enquadram a busca: O Google, por exemplo, tem um procurador. Quais os parâmetros deste procurador? São vegetativos e &#8220;espontâneos&#8221;, ocorrem ao sabor do acaso, ou eles têm, por um acaso um formato que impõe uma<br />
hierarquia aos textos? Agora, digamos que, finalmente, você achou<br />
um site. A partir deste site você tem links: eles abrem &#8220;espontâneamente&#8221; seu acesso para tudo o que existe, ou limitam seu acesso a links escolhidos por outros? Vamos pensar nos blogs, e<br />
tomemos como parâmetro as ferramentas comuns, o blogroll, por<br />
exemplo. Como é que você inicia as suas leituras? Por procuras por<br />
palavras-chaves diretamente no Google, ou por seu blogroll, onde<br />
você se utiliza de um mecanismo de restrição para abrir outras páginas, onde os links remetem a outros escolhidos por outrem? É espontâneo isso?</p>
<p>Ser sociologo é desconfiar de tudo: inclusive do mais &#8220;óbvio&#8221;, pois o<br />
óbvio é na maior das vezes, discurso ideológico. A pergunta acima é<br />
apenas isto: uma pergunta. Não é uma afirmação, não é uma conclusão. Se trata de uma pergunta de alteridade (pela qual o pesquisador assume uma postura antropológica de perguntar<br />
sobre as coisas mais óbvias para poder encontrar o que há de não-tão-óbvio, o que no caso tem cor e cheiro de uma super-estrutura condicionante). O mesmo ocorre com os Feeds: eles abrem ou limitam a leitura ao que sai nos Feeds assinados? Por conta disso eu dou precedência à procura pelo google, não assino Feeds, abro blogs de comentaristas, dou precedência ao espaço de comentário e não ao post, mas mesmo assim, retorno aos blogs que gosto, como este. Na verdade, nenhum procedimento é antítese<br />
completa às ferramentas de procura, pois o google tem suas regras e os comentaristas estão também seguindo links específicos.</p>
<p>Do ponto de vista da análise sociológica que procura como um objeto &#8220;grupos humanos&#8221;, esta restrição por mecanismos assumidamente &#8220;neutros&#8221; seria capaz de formar grupos? Como definir isto sociológicamente? A hipótese é que sim, há a formação de grupos, e por mais frouxos que eles sejam, pois admitem mais e mais leitores e assinantes, as ferramentas às quais cada um que entra no grupo (seja por meio de uma procura por interesses, seja por outras vias) se submetem não são &#8220;neutras&#8221; nem &#8220;espontâneas&#8221;. Aliás, Alexandre, me dê uma definição de &#8220;espontaneidade&#8221; que poderemos discutir isto melhor.</p>
<p>Estamos, por exemplo, em um blog (refiro-me ao Biscoito Fino), um<br />
dos muitos, que tem uma percepção de si como membro de um grupo: &#8220;blogosfera crítica&#8221;, por exemplo, é uma das auto-denominações espontâneas deste grupo humano que se comunica e se forma a partir das linkagens de seus blogs. Espontâneo quer dizer, aqui, a <strong>percepção</strong> (não informada metodologicamente, mas por se fazer parte de uma dada cultura) de que se faça parte de um grupo social. Por menos que se possa medi-lo e por menos que esse grupo seja fechado, a percepção espontânea pode estar informando algo ao sociólogo: que este suposto grupo tenha suas fronteiras (eu sou diferente dele, eu sou mais parecido com estes, sim, uma coisa tribal).</p>
<p>Como passar da percepção social do indivíduo em seu grupo à ferramentas sociológicas de analise? É por isso que uma das minhas<br />
inspirações neste projeto sai da geografia pós-moderna: a análise do<br />
espaço &#8211; que tento subverter para a análise do espaço virtual &#8211; segundo a qual, pela análise das vias de circulação no espaço se chega a um desenho do espaço distinto do mapa produzido a partir de uma medida métrica. Por meio desta geografia é possível evidenciar que, por exemplo, apesar de Paraisópolis estar metricamente muito perto aqui de casa (moro no Butantã), o Butantã está, na verdade, estudando-se a circulação dos grupos sociais, muito mais próximo da Avenida Paulista do que de Paraisópolis, e ambos, Butantã e Av. Paulista, estão muito mais próximos de Campinas, por exemplo, do que de Paraisópolis,<br />
apesar de que pelo mapa métrico possamos ter uma idéia distinta<br />
disto. Há mais distinções no espaço &#8211; e também no espaço virtual &#8211; do que supõe a nossa percepção métrica rudimentar.</p>
<p><em>&#8220;as redes se formam&#8221;</em>. Tá ai um bom mandamento de Deus, o novo deus que devemos inscrever na nova tábua dos mandamentos da &#8220;ética blogueira&#8221;, ou do &#8220;manual de bom-tom da internet&#8221;.</p>
<p>Não sou contra manuais de etiqueta. Eles normalmente explicitam regras de convivência que impõem uma ordem, e se o mundo não tivesse uma ordem, eu nem saberia o que fazer quando me levanto de manhã: andar de bike, trabalhar, tomar banho, comer macarronada, tudo isto ao mesmo tempo, ou numa ordem especifica? Meu senso informado culturalmente põe estas atividades em uma ordem compatível com a ordem do mundo, o<br />
que é, de certa forma, bom para mim.</p>
<p>No entanto, é preciso notar que o fato de comermos cereais e não feijão (bom, ele também é um cereal, do ponto de vista botânico) no café da manhã não é uma escolha meramente informada pela nossa vontade, ou pela &#8220;razão pura&#8221;, mas culturalmente ordenada.</p>
<p>Segundo, regras são produtos histórico-sociais que tendem a simplificar as coisas, e uma de suas benesses é tornar a vida mais simples (imagina, se a cada manhã, eu me pusesse a considerar todas as fontes possíveis de nutrição, o seu balanceamento, o que é ecologicamente correto consumir,etc). No entanto, é preciso lembrar que não é porque as regras tornem o mundo mais simples de lidar, que o mundo corresponda a estas regras e seja, por isso simples. Não é. O mundo é complicado.</p>
<p>Terceiro, é preciso lembrar (se quiser uma citação eu indico Norbert Elias, mas não é o único) que regras sociais &#8211; como a etiqueta &#8211; surgem em manuais escritos (como acima, mas existem<br />
outros) não só para elucidar aos que pertencem ou adentram um grupo social o que é de bom tom, e por isso torna-se a convivência harmoniosa dentro do grupo, mas em geral as regras de costumes viram obras escritas quando é preciso diferenciar os pertencentes ao grupo dos não-pertencentes ao grupo, e demandar que se alguém passe a pertencer a um grupo, deve agir segundo as regras<br />
prescritas. Nos séculos por volta de XVI, XVII, começam a surgir manuais de comportamento à mesa, de comportamento em ambiente público, não só por que as esferas público-privado começam a se diferenciar (em Elias lemos que não se deve dirigir<br />
a palavra a alguém, caso no momento ele esteja defecando), mas também por que começa a surgir uma classe de &#8220;novo nobre&#8221; (os burgueses que compram títulos de nobresa) de quem o nobre de sangue quer se diferenciar. Nestes tempos é possível vislumbrar o mesmo ocorrendo nos blogs. As regras de pertencimento ao grupo precisam ser explicitadas (e apesar de socióloga acreditei que uma racionalidade politica pudesse suplantá-las) para manter um padrão de convivência, mas também para ditar o que é de bom-tom e o que não é, e assim impor a diferenciação entre blogueiros (cujo ethos está ligado a um tipo de regras blogológicas) e o ativista (para dizer que este não é espaço de ativismo: o ativismo pertinente é so aquele que sai &#8220;espontaneamente&#8221; de blogs, e que diz respeito apenas ao que os blogs tenham em comum entre si &#8211; para dentro do grupo &#8211; e não com outros loci da sociedade &#8211; ou o que os blogs tenham em comum com os de fora. esta me parece ser uma das razões porque os blogs se movimentam em torno da Azeredo, mas não em torno das liberdades de expressão em geral).</p>
<p>Os movimentos em torno da Azeredo foram a inauguração da forma de ethos político que sai dos blogs. Foi legal, mas este modelo que saiu do não-à-ditabranda inaugurou também um modelo que vira um mito (é recorrentemente citado por blogueiros quando questiono suas formas de participação política) e constitui, atualmente o padrão, a norma de como deve ser a movimentação política partida de blogs. Mas por mais que um modelo seja legal, é sempre interessante questioná-lo e colocar novas perguntas a ele. Se é fato que há regras que delimitam, impelem e também limitam este jogo, por que não ser ciente delas, ao invés de ficar repetindo as palavras de ordem &#8220;espontâneo&#8221; e &#8220;brotamento&#8221;? Não seria legal, para além da ciência sobre as regras explícitas e não explícitas, passar a pensá-las, modificá-las, armar estratégias a partir dessa crítica e reformulá-las de maneira politicamente coerente? Se você deixa de fazêlo, serão, como você mesmo disse, as instituições e as empresas que o farão.</p>
<p>A denominada (auto-denominada ou denominada por outros) &#8220;blogosfera crítica&#8221; nasceu de um impulso muito consistente: usar uma nova tecnologia a partir da qual todos podem se tornar formadores de opinião para, exatamente, fazê-lo. Mas, mais do que isso, nasceu de um impulso re-ativo às besteiras ditas pelos Jornais. Outro detalhe, é que ela remete prioritariamente ao discurso escrito e tende a enxergar quase que necessariamente apenas ele (isso se deve, creio, ao fato de que a blogosfera se apoia no escrito, não na formação imagética das opiniões e nem à formação oitiva das opiniões, universo estranho a ela). Dessa forma, a blogosfera critica elegeu, numa ação reativa, a imprensa escrita como seu inimigo. Como cada grupo humano tende a acreditar que o seu grupo é o centro do mundo (nenhum ser humano jamais deixou sua tribalidade pra trás), e portanto, o seu inimigo também é o inimigo da humanidade, então a blogosfera crítica tende a se ver como o salvador do mundo por meio do texto escrito, numa batalha de Titãs, contra o inimigo público número um, que seria a imprensa escrita, denominada &#8220;grande midia&#8221;. Mas os números mostram que se de fato a mídia for o inimigo público número um (há, talvez outros inimigos a se adicionar a esta lista), a &#8220;grande mídia&#8221; não é a mídia impressa, pois TV e rádio atingem num fluxo muito mais ininterrupto e com poder de penetração muito maior, o conjunto de uma população.</p>
<p>Um exemplo foi <strong>o uso de imagens pela TV do que ocorreu em <span style="text-decoration: line-through;">8 de maio </span>9 de junho na USP</strong>. A questão do editoramento das imagens, a forma como elas são recortadas, colando-se a elas um discurso falado remete às técnicas de cinema e lembra um filme de Rambo: apareceram imagens colossais, tomadas por câmaras aereas, do poder do estado em forma de helicópteros. Talvez eles fossem 2 ou 3 (não contando o helicóptero de onde as imagens eram captadas, mas eles se transformaram, no nível da percepção num esquadrão de uns vinte. Isto devido não só à editoração, mas ao poder do campo-contra-campo, e lembravam-me a análise de Rovai (Livro chamado &#8220;Imagem, Tempo e Movimento: Afetos &#8220;Alegres&#8221; no Filme o Triunfo da Vontade&#8221;) de como o acontecimento (o Congresso Nazista de 30 e pouco) foi montado não para ser ele mesmo grandioso, mas para que a imagem deste fosse grandiosa (e assim deixar para a posteridade o que a cultura nazista denominava de ruína, o monumento ao qual a cultura remete como fundador de sua tradição). Voltando aos helicópteros sobrevoando os frágeis corpos de estudantes (estou traumatizada, hoje em dia basta ver um helicóptero para me sentir pequena e revoltada, isso é o poder destas imagens &#8211; elas dizem: cidadão, você não passa de um frágil corpo sob o poder de um estado moto-serra), o écrã os multiplica, pela coreografia de helicópteros que passavam sob o espaço aéreo da tomada da câmera, em 20 helicópteros, utilizando-se do fato de que a manobra de retorno do helicóptero está fora do campo (do écrã).</p>
<p><span style="color: #ab2bd3;">(o vídeo que vi não foi bem <a href="http://www.youtube.com/watch?v=F1TCuQTsvBk&amp;feature=related">este</a>, mas era parecido. do ponto  de vista da montagem era muito mais &#8220;artístico&#8221;. é possível que eu  ache que era Globo por tê-lo visto da Editora Globo?)</span></p>
<p>Nas tomadas próximas, apareciam explosões, talvez mais fumaça que fogo, mas ainda assim muito eficientes imageticamente, e corpos de estudantes saltando para longe da explosão )o que parecia, ou lembrava, da imagem cinematográfica da explosão como algo que produz um movimento de ar tão forte que lança os corpos centrifugamente. Mas, para além da própria forma como foram confabuladas as imagens do real, está o próprio fato de que tais imagens apareçam na mídia, e há ai um fenômeno muito mais perverso, de longa datação.</p>
<p>Quando as vi, além do meu estômago virar, passei a me perguntar: <strong>Que deu na Globo?</strong> Agora, será que a mídia passou de construtora de um discurso (imagem, fala e escrito) acerca do real, e passou a ser <strong>delatora</strong> de um estado perverso, ou será que há mais coisas entre a imagem e o real do que supõe nossa percepção socialmente emoldurada? Há algumas décadas os estudantes diziam que a mídia não mostra o que acontece: os movimentos estudantis somente apareciam em imagens como &#8220;impedimento de tráfego&#8221; (o que constitui um dos níveis deste discurso &#8211; perverte-se os ideais datados da revolução francesa num discurso de &#8220;liberdade do ir e vir&#8221;). Neste momento aparecem imagens do real desnorteadoras para mim, que não sou parte do grande público de Rambo, mas será que as mesmas desnortearam o grande público de Rambo? Ou será que por um (não tão longo) processo de educação dos sentidos este público está habituado a assistir as imagens (que me impactam como horror) como espetáculo, como entretenimento (a forma de transformação do tempo de não-trabalho em mercadoria a ser consumida), como lazer.</p>
<p>Para além disso, não está este público do Rambo acostumado a torcer por Rambo (que de um outro ponto-de-vista não seria mais que um covarde, detentor de todo o poder de fogo que um estado bélico e imperialista possa oferecer, e agindo em nome deste) como se ele fosse o mocinho, o &#8220;prince charm&#8221; que deve ganhar a batalha? Quem era o Rambo do filme da Globo sobre os ocorridos de <span style="text-decoration: line-through;">8 de maio</span> 9 de junho na USP? Os estudantes? Não. A polícia? Dias depois desmarquei aula para ir à manifestação que não saiu (dia 10) devido à chuva, e mais uns dias depois, meus estudantes disseram &#8220;esse povo da FFLCH gosta de apanhar, eles têm mesmo é que apanhar&#8221;. Vi este tipo de opinião em muitos outros que assistiram comento pipoca, às imagens na TV.</p>
<p>Retornando deste longo percurso, eu me pergunto: será mesmo que a Folha de São Paulo é o inimigo publico número um? Ou será que o inimigo público número um tem seus vários ramos, imersos nas mídias, nos institutos de pesquisa, nos discursos científicos, no cinema, atacando-nos na nossa hora de recreio, de lazer, e de leitura informativa, na forma de educação, de informação, de entretenimento, e como diz Clara Crocodilo, escondidos nos nossos cérebros, esperando o momento oportuno para nos atacar e aos nossos entes queridos?</p>
<p>A desconfiança com relação à quebra de uma regra: será ela apenas a manutenção de um ambiente em termos aceitáveis para todos os que façam parte dele, ou terá ela características mais perversas, mantenedoras de uma realidade social tal qual ela está?</p>
<p><strong>&#8220;A massa ainda comerá o Biscoito Fino que fabrico&#8221; </strong>(Oswald Andrade)</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Criança vê, Criança faz</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Jun 2009 13:43:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Flavia</dc:creator>
				<category><![CDATA[Para Mudar os rumos da Mídia]]></category>
		<category><![CDATA[criança]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[grande-mídia]]></category>
		<category><![CDATA[ilusão]]></category>
		<category><![CDATA[políticas públicas]]></category>
		<category><![CDATA[Pró-Conferência]]></category>

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		<description><![CDATA[Como professora eu sei bem que as coisas são assim.
Veja este vídeo, depois eu conto uma historinha que ocorreu comigo.

Dei aula numa Skill para um grupo de crianças (entre 10 e 13 anos) e lá havia um japinha que se deleitava com minhas micagens, de se jogar no chão segurando a barriga a soltar gargalhadas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como professora eu sei bem que as coisas são assim.<br />
Veja este vídeo, depois eu conto uma historinha que ocorreu comigo.<br />
<div style="float:left;margin-right: 10px;"><!-- Smart Youtube --><span class="youtube"><object type="application/x-shockwave-flash" width="300" height="250" data="http://www.youtube.com/v/80nL4KdamEw&amp;rel=1&amp;color1=d6d6d6&amp;color2=f0f0f0&amp;border=0&amp;fs=1&amp;hl=en&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;showsearch=0"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/80nL4KdamEw&amp;rel=1&amp;color1=d6d6d6&amp;color2=f0f0f0&amp;border=0&amp;fs=1&amp;hl=en&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;showsearch=0" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="wmode" value="transparent" /></object></span></div></p>
<p>Dei aula numa Skill para um grupo de crianças (entre 10 e 13 anos) e lá havia um japinha que se deleitava com minhas micagens, de se jogar no chão segurando a barriga a soltar gargalhadas hilárias (pena a gente não ter uma filmadora na mão nessas horas).<br />
É&#8230; acho que posso dizer que o guri amava aquelas aulas. Adorava as brincadeiras, do tipo jogo de memória, por exemplo. Crianças não são seres humanos imbecilizados como querem fazer entender alguns. São super-espertos, gostam de desafios. A gramática fazia parte das regras do jogo e todos eles queriam ganhar. Dessa forma eles absorviam a gramática da língua com um objetivo específico -- e agora vêm me falar de &#8220;task oriented methodology&#8221; como se isso fosse uma coisa nova (é só estratégia de marketing pra vender livros), mas deixa isso pra lá.<br />
O japinha estudava no grupo de crianças e a mãe dele estudava no mesmo horário com um grupo de adultos, com outra professora. O problema era que o japinha não fazia lição de casa, e eu, que começava a ficar preocupada, falei diretamente com a mãe dela depois de uma aula. Ela chamou o japinha e deu uma lição de moral, que no discurso estava perfeita: sem autoritarismo, na boa, uma mensagem perfeita sobre a necessidade de fazer lição de casa.<br />
Próxima aula, mandei todo mundo abrir o livro de exercício, como de prache, par ver se a lição fora feita. O livro do japinha (sem preconceitos, apenas não me lembro mais o nome do guri, que era daqueles japinhas super-fofos)&#8230; o livro do japinha em branco. Foi ai que me caiu uma ficha. Depois da aula, fui à sala dos professores falar com a professora da mãe dele. &#8220;Oi, professora, deixa eu te perguntar uma coisa: a fulana (mãe do japinha) como ela é como aluna? Ela faz lição de casa?&#8221;<br />
Ouvi, vendo a cara exasperada da professora dela: &#8220;Ah, a fulana é um problema, não faz uma lição&#8230;&#8221;</p>
<p>Quer dizer, discurso mesmo não adianta nada: criança não é imbecil. Eles vêem quem está falando. Em inglês se diz para o caso: &#8220;You talk the talk, but you don&#8217;t walk the walk&#8221;, que nem serve de similar para &#8220;faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço&#8221;, pois o provérbio em inglês não é um mandamento, mas uma constatação irônica (pensar em duas línguas às vezes ajuda a pensar melhor, ou talvez com mais astúcia, não sei).<br />
Só pra terminar a história, na aula seguinte, usei de uma didática sacana, cujo inventor deve ter se perdido no início dos tempos do ensino. Começei assim (imagina isso falado em inglês, pois eles já entendiam estes comandos): &#8220;Agora vamos jogar aquele jogo de memória&#8230;&#8221; e todos: &#8220;Êbá!!!&#8221; (era o jogo favorito do japinha) &#8220;&#8230; mas tem um porém, antes eu vou verificar quem fez a lição e&#8230;&#8221; (a cara do japinha mudava pruma espécie de troublesome) &#8220;&#8230; e vai ser a regra de hoje, quem por ventura não fez a lição, vai ficar no canto da sala completando a tarefa&#8221; (grunhidos vinham do japinha).<br />
Bom, ele ficou de castigo, mas só aquele dia. Tive a felicidade de constatar que a idéia funcionou e ele passou a trazer a tarefa sempre feita, pelo menos na minha aula, né?</p>
<hr />
<p>A questão do controle social da mídia tem a ver com o caso. Agora veja este vídeo -- estou trabalhando num texto para ele que tenha um cunho menos pessoal para o <a href="http://liberdadedeexpressao.net.br/">Liberdade de Expressão</a>. A qestão do controle social dos conteúdos televisivos nos atinge a todos, como pais, professores e cidadãos. Dar voz a mais que um Brasil, dar espaço à opiniões divergentes e no caso das crianças, promover a proteção da infância, é uma das metas das ONGs que se organizam em torno da Confecom.<br />
<div style="float:left;margin-right: 10px;"><!-- Smart Youtube --><span class="youtube"><object type="application/x-shockwave-flash" width="300" height="250" data="http://www.youtube.com/v/p8vTic7rrzY&amp;rel=1&amp;color1=d6d6d6&amp;color2=f0f0f0&amp;border=0&amp;fs=1&amp;hl=en&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;showsearch=0"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/p8vTic7rrzY&amp;rel=1&amp;color1=d6d6d6&amp;color2=f0f0f0&amp;border=0&amp;fs=1&amp;hl=en&amp;autoplay=0&amp;showinfo=0&amp;showsearch=0" /><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="wmode" value="transparent" /></object></span></div></p>
<p>Estou a procura de um documentário a respeito disso, sobre o qual li há dez mil anos atrás, e não lembro o nome (aceita-se ajuda de amigos)</p>
<p> <img src='http://algodao.algumlugar.net/wp-includes/images/smilies/icon_wink.gif' alt=';)' class='wp-smiley' /> </p>
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		<title>Educação é como a mesa para A Escada</title>
		<link>http://algodao.algumlugar.net/2009/04/educacao-e-como-a-mesa-para-a-escada/</link>
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		<pubDate>Sat, 18 Apr 2009 18:06:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Flavia</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ideologia]]></category>
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		<category><![CDATA[escravismo]]></category>
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Alguma vez você já parou para pensar que valores motivam ações? Não estou falando da campanha do Betinho não: estou falando da vida rotineira de qualquer um de nós &#8211; homo erectus, homo tortus, homo agrárius, homo criminosus, homo lattes, homo lavamaisbrancus&#8230;
Vejamos um exemplo mais próximo de mim: o homo lattes. É uma tribo interessante [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>.</p>
<p>Alguma vez você já parou para pensar que valores motivam ações? Não estou falando da campanha do Betinho não: estou falando da vida rotineira de qualquer um de nós &#8211; homo erectus, homo tortus, homo agrárius, homo criminosus, homo lattes, homo lavamaisbrancus&#8230;</p>
<div class="wp-caption alignleft" style="width: 327px"><img src="http://www.algumlugar.net/flavia/imagens/design-cartoon.gif" alt="olha o que você fez: mau designer, mau designer que cretino! Ô Bob, você nunca vai conseguir educar ele desse jeito. Você tem que pegar ele no ato!" width="317" height="412" /><p class="wp-caption-text">&quot;olha o que você fez: mau designer, mau designer&quot; &quot;que cretino! Ô Bob, você nunca vai conseguir educar ele desse jeito. Você tem que pegar ele no ato!&quot;</p></div>
<p>Vejamos um exemplo mais próximo de mim: o homo lattes. É uma tribo interessante de homo: pergunte o que ele faz e a resposta será “mestrado”, “doutorado”, “pós-doutorado” ou uma variação disso. No seu cérebro aquela pergunta se converte em algo como &#8220;Em qual degrau você está dA Escada?&#8221;. Quando a resposta vier do tipo &#8220;eu estudo os efeitos de x em&#8230;&#8221; ou &#8220;eu pesquiso as conexões entre y e&#8230;&#8221; com cenho franzido de quem tenta traduzir uma língua exótica, você pode ter certeza de que está em presença de um deslocado da comunidade dA Escada. O homo lattes é um homem de títulos.</p>
<p>O homo lattes olha com desdém os membros deslocados dA Escada. Alguns desses deslocados são dignos de pena: eles ficam por anos e aaaanos tentando subir os Degraus com uma manobra esquisita que só dificulta a subida – são um tipo demente de quem é melhor ficar longe. Mas alguns deslocados dA Escada alcançam os degraus mais altos muito rapidamente. Esses devem ser odiados, pois decerto vêm de uma família que está nA Escada por gerações, e com toda certeza, eles jogaram uma corda pra ele. Ou então esse deslocado vem de uma das poucas famílias com acesso a helicópteros: com certeza eles deram uma carona ao deslocado para o topo dA Escada.</p>
<p>O homo lattes não vê diferença entre títulos: são equivalentes gerais, como disse Marx sobre a moeda. Assim como uma mesa é uma mesa, igual a qualquer mesa por sua função, independente da arte que se use para fazê-la. Ele só vê função, e essa função é ao mesmo tempo seu valor de uso e seu valor de troca. De seu ponto de vista uma mesa cuja feitura usa tecnologias de materiais que demoraram séculos para serem desenvolvidas e conceitos de design que tem uma história bonita, ou uma mesa que é feita toda a partir de uma brilhante estratégia de engenharia desenvolvida por alguém brilhante que teve que esculpir demoradamente peça por peça é uma pura perda de tempo e recursos, pois não é diferente de uma mesa feita com uma tábua e 4 paus colados com pra quê prego: estando firme é funcional – é uma mesa como as outras.</p>
<p>Como dizia um outro motoqueiro <a href="#escada1">(1)</a>, um indivíduo só pode compreender sua própria experiência (e avaliar as possibilidades de seu próprio destino) entendendo sua posição na história, em sua cultura e em sua classe. O espírito dA Escada não surgiu do nada: suspeito que surgiu da FAPESP, uma entidade de uma só vez terrível e magnífica, como o Deus de Abraão <a href="#escada2">(2)</a>.</p>
<p>A ética lattes, é uma ética classe-média. Como qualquer outro homo classe média (mesmo os não lattes), o que ele quer na vida é continuar a ser classe média (diferente das várias tribos de homo miserabilis, que querem ser outra coisa). Educação é como a mesa – tem essa função: Por meio dela ele ganha as ferramentas para sua subsistência como membro da classe. Faz parte dessa ética a noção de self-made-man. Essas tribos de homo frequentemente não vêem  que a sua posição financeira e familiar classe média constituem um chão pelo qual é possível chegar À Escada. Mas eles são capazes de enxergar &#8211; e com um ressentimento de classe já suspeitado por Nietzsche <a href="#escada3">(3)</a> – que os membros dA Escada oriundos da tribo homo abastadus abastadíssimus trazem consigo  no mínimo um tênis ergonômico (daqueles feitos pra aumentar o seu impulso) quando chegam À Escada. Com que tecnologia eles construíram a sua mesa não importa: essas noções sucumbem frente ao ódio de classe.</p>
<p>Mas a minha preocupação é com o homo miserabilis. O espírito das discussões políticas de nossa época sai da tribo lattes, que é classe média. Há membros dessa tribo que ao invés de subirem A Escada, sobem A Folha (ou outra instituição dessa Árvore aos pés dA Escada: Veja, alguns dos pertencentes À Escada não deixam nunca de cuidar dela, Isto É, regá-la, colocar fertilizante e de jogar um pouco de sua luz nA Árvore, para alimentar aqueles homo que como lagartas crescem, e viram lindas borboletas, algumas vezes voando para o lindo Exterior).</p>
<p>E o homo miserabilis? O homo lattes realiza um supremo sacerdócio – sacrificado pra caramba – de tentar fazê-lo entender que ele é feio – feio mesmo, mas muitos miserabilis são cabeça-dura. Não se trata apenas de uma estética do visível (claro que muitos dos miserabilis não são zarcos, nem bem tratados, às vezes torcem pro Corinthians e faltam-lhes uns dentes <a href="#escada4">(4)</a> sua estética equivocada não é A Estética que aparece impressa nAs FolhaS). Mas, para além disso, trata-se de uma questão mais profunda: muitos deles não são dotados da capacidade que lhes permite ler A Árvore, e isso é por culpa deles mesmos, da forma que se portam nA Vida. A Vida é dura, e pra eles subirem nA Vida eles precisam penar, como penaram os que subiram nA Escada, e a via destes sacros suplícios é a educação, ou seja, conseguir galgar pelo menos a escadinha que chega no chão que leva À Escada.</p>
<p>A Vida é dura. E os membros da classe que subiu A Escada entendem que tanto a escadinha como A Escada são suplícios que justificam que os que passaram por elas com sucesso são uma espécie de santos e devem ganhar salários no mínimo umas vinte vezes maiores que aqueles que nem a escadinha conseguiram galgar <a href="#escada5">(5)</a>, como compensação justa por seus esforços nA Vida.</p>
<p>Mas o homo miserabilis, em especial o brasiliensis, apesar de muitas vezes concordar com o homo lattes, é um Macunaíma preguiçoso que tem que aprender uma lição dura: é nada mais nada menos que o justo que o homo classe média brasiliensis pague ao miserabilis por semana menos do que a metade do que o homo classe-média gasta no supermercado comprando fandango e barrinha de cereal por semana, para que ele limpe o chão da habitação do homo classe-média brasiliensis (e lave sua privada). Valores motivam ações e ele age assim todo dia. O homo médiaclasse brasiliensis sabe da existência do homo trabalhatoris europeu e canadensis, por exemplo, e que é diferente do miserabilis: é uma coisa briguenta, dada a passeatas, coisa que ele não compreende nem gosta. O homo classe-média brasiliensis é um pacifista de ocasião: Ele sabe que na sua tradição de pensamento brasiliensis, que é herdeira tanto de Aristóteles quanto de <a href="http://www.bvshistoria.coc.fiocruz.br/local/File/cidmrl.pdf">Miranda de Azevedo</a> (ver a partir de pag 89), o mundo é muito mais claro do que querem esses membros deslocados dA Escada, e que A Vida é pão pão, queijo queijo (apesar que o queijo não é considerado essencial por ele, pelo menos não como ingrediente necessário na mesa do miserabilis).</p>
<p>Notas:<br />
<a name="escada1"></a><strong>(1)</strong> Wright Mills, sociólogo deslocado. Em sua produção militante imaginava ser a Imaginação Sociológica a capacidade que traria ao homem forças e ferramentas para modificar suas condições de existência, um dos últimos e mais valiosos frutos do iluminismo, portanto, junto com os teóricos da escola de Frankfurt. Diz-se dele que era uma figura, andava de jaqueta de couro na sua Harley Davison, e foi impedido pelas estruturas da universidade de ter seguidores (orientandos). Seus livros, no entanto, (assim como sua audácia), foram um grande sucesso de público e inspiraram várias gerações de sociólogos. “Outro” motoqueiro, por que como motoqueira e socióloga, quando penso nele me sinto em boníssima companhia. Um dos meus amigos imaginários mais queridos.<br />
<a name="escada2"></a><strong>(2)</strong> O Deus de Abraão pediu-lhe que oferecesse seu único filho em holocausto como prova de amor (ao Deus, não ao filho). Mais sobre os desenvolvimentos disso, sugiro “Temor e Tremor” de Kierkegaard, que é leitura apaixonante. Nada me tira da cabeça que, impedido pelo anjo de sacrificar seu filho, Abraão não deixa de ser um assassino.<br />
<a name="escada3"></a><strong>(3)</strong> Pela idéia da transvaloração dos valores, Nietzsche procura desvendar o alicerce do interesse material e de classe, poderia-se dizer, que está na base dos valores passados às verdades da filosofia. É o primeiro filósofo anti-filósofo a inaugurar em sua própria disciplina estudos críticos sobre a mesma. Segundo ele, a transformação de conceitos políticos da prominência (e, portanto, podemos ler, de dominação) num conceito psicológico é regra. É assim que ele analisa o surgimento, desde sua etmologia, dos conceitos de bem e mal. Assim como ocorre com sua análise da moral de raiz judaica – que contém elementos de uma vingança simbólica de um povo vencido – creio que é possível olhar da mesma forma para a noção da classe média acerca de educação como um bem (tanto como justificadora de seu status, e como remédio para a pobreza brasileira, que parece querer dizer que quando todos os pobres tiverem estudado deixarão de ser o que são para se tornarem como eles – classe média – não levando em conta e mesmo sendo contrários às políticas distributivas que visam atingir o que poderíamos chamar de estruturas sociais da pobreza). A noção de educação que vem da classe média é vingativa tanto contra as classes mais baixas quanto contra as classes mais altas, onde é possível perceber o seu ressentimento contra aqueles mais poderosos que triunfam justo em seu bosque, que é a academia.<br />
<a name="escada4"></a><strong>(4)</strong> Circulava nos anos 90 um questionário que um povo achava muito muito engraçado pra ver se você é mesmo corintiano. Uma das questões era se lhe faltavam dentes. Fui vítima do mesmo questionário, aplicado por alguém de quem deixei de ser amiga na mesma data, para saber se eu era mesmo petista. A mesma pergunta constava, Mas não consigo recordar, tanta a emoção, se me perguntava também se algum dedo me faltava.<br />
<a name="escada5"></a><strong>(5)</strong> A educação pela dureza, na análise de Adorno em “Educação após Auschwitz”, aponta para a tendência de os duros consigo mesmos se acharem no direito de serem duros contra os outros e de se vingar dos outros pelos sacrifícios pelo qual passou. A análise de Adorno acerca do totalitarismo também não caberia ao caso brasileiro? Para muitos membros da classe média educação é vista como sacrifício necessário (e raramente como gozo), capaz de justificar a diferença entre aqueles que foram capazes de se submeter a ela (e duros consigo mesmos, perseveraram) dos macunaímas que “fugiram” a ela (não o bastante duros consigo mesmos, são seres humanos menos merecedores dos louros).</p>
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		<title>Cesta Básica do Livro</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Apr 2009 12:12:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Flavia</dc:creator>
				<category><![CDATA[Luzes no fim do Túnel]]></category>
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		<category><![CDATA[inclusão]]></category>

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		<description><![CDATA[O projeto de lei que cria o Programa Cesta Básica do Livro para garantir um acervo mínimo (8 por ano) de livros para estudantes da rede pública foi aprovado pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal. O projeto é de autoria do senador Cristóvam Buarque.
Agora esperamos que o projeto seja aprovado (ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://www.algumlugar.net/flavia/imagens/jovem-livro.jpeg" alt="" width="118" height="133" />O projeto de lei que cria o Programa Cesta Básica do Livro para garantir um acervo mínimo (8 por ano) de livros para estudantes da rede pública foi aprovado pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal. O projeto é de autoria do senador Cristóvam Buarque.</p>
<p>Agora esperamos que o projeto seja aprovado (ao invés de arquivado) na Câmara. <a href="http://www.sidneyrezende.com/noticia/35592+aprovado+o+programa+cesta+basica+do+livro" target="_blank">Leia mais</a></p>
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