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Criança vê, Criança faz

Como professora eu sei bem que as coisas são assim.
Veja este vídeo, depois eu conto uma historinha que ocorreu comigo.

Dei aula numa Skill para um grupo de crianças (entre 10 e 13 anos) e lá havia um japinha que se deleitava com minhas micagens, de se jogar no chão segurando a barriga a soltar gargalhadas hilárias (pena a gente não ter uma filmadora na mão nessas horas).
É… acho que posso dizer que o guri amava aquelas aulas. Adorava as brincadeiras, do tipo jogo de memória, por exemplo. Crianças não são seres humanos imbecilizados como querem fazer entender alguns. São super-espertos, gostam de desafios. A gramática fazia parte das regras do jogo e todos eles queriam ganhar. Dessa forma eles absorviam a gramática da língua com um objetivo específico -- e agora vêm me falar de “task oriented methodology” como se isso fosse uma coisa nova (é só estratégia de marketing pra vender livros), mas deixa isso pra lá.
O japinha estudava no grupo de crianças e a mãe dele estudava no mesmo horário com um grupo de adultos, com outra professora. O problema era que o japinha não fazia lição de casa, e eu, que começava a ficar preocupada, falei diretamente com a mãe dela depois de uma aula. Ela chamou o japinha e deu uma lição de moral, que no discurso estava perfeita: sem autoritarismo, na boa, uma mensagem perfeita sobre a necessidade de fazer lição de casa.
Próxima aula, mandei todo mundo abrir o livro de exercício, como de prache, par ver se a lição fora feita. O livro do japinha (sem preconceitos, apenas não me lembro mais o nome do guri, que era daqueles japinhas super-fofos)… o livro do japinha em branco. Foi ai que me caiu uma ficha. Depois da aula, fui à sala dos professores falar com a professora da mãe dele. “Oi, professora, deixa eu te perguntar uma coisa: a fulana (mãe do japinha) como ela é como aluna? Ela faz lição de casa?”
Ouvi, vendo a cara exasperada da professora dela: “Ah, a fulana é um problema, não faz uma lição…”

Quer dizer, discurso mesmo não adianta nada: criança não é imbecil. Eles vêem quem está falando. Em inglês se diz para o caso: “You talk the talk, but you don’t walk the walk”, que nem serve de similar para “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, pois o provérbio em inglês não é um mandamento, mas uma constatação irônica (pensar em duas línguas às vezes ajuda a pensar melhor, ou talvez com mais astúcia, não sei).
Só pra terminar a história, na aula seguinte, usei de uma didática sacana, cujo inventor deve ter se perdido no início dos tempos do ensino. Começei assim (imagina isso falado em inglês, pois eles já entendiam estes comandos): “Agora vamos jogar aquele jogo de memória…” e todos: “Êbá!!!” (era o jogo favorito do japinha) “… mas tem um porém, antes eu vou verificar quem fez a lição e…” (a cara do japinha mudava pruma espécie de troublesome) “… e vai ser a regra de hoje, quem por ventura não fez a lição, vai ficar no canto da sala completando a tarefa” (grunhidos vinham do japinha).
Bom, ele ficou de castigo, mas só aquele dia. Tive a felicidade de constatar que a idéia funcionou e ele passou a trazer a tarefa sempre feita, pelo menos na minha aula, né?


A questão do controle social da mídia tem a ver com o caso. Agora veja este vídeo -- estou trabalhando num texto para ele que tenha um cunho menos pessoal para o Liberdade de Expressão. A qestão do controle social dos conteúdos televisivos nos atinge a todos, como pais, professores e cidadãos. Dar voz a mais que um Brasil, dar espaço à opiniões divergentes e no caso das crianças, promover a proteção da infância, é uma das metas das ONGs que se organizam em torno da Confecom.

Estou a procura de um documentário a respeito disso, sobre o qual li há dez mil anos atrás, e não lembro o nome (aceita-se ajuda de amigos)

;)

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