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Nós éramos muito diferentes…
Postado por Flavia em Coisas da Vida no dia 4 de April de 2009 às 14:00
Quantas pessoas não põem nestas palavras a razão para o rompimento amoroso?
Claro que não é fácil ter que se explicar quando a ferida da separação ainda dói e um amigo ou amiga tem a infeliz idéia de perguntar o “Porquê”.
É de uma falta de sensibilidade fora do comum, apesar de amplamente adotada para expressar surpresa e preocupação. Eu normalmente prefiro dizer que entendo, e perguntar “E você está bem?” ou “E como você está?” e deixar que a pessoa fale e me conte o que quizer e se quizer. Na verdade acho que o mais importante é conversar sobre outros assuntos, tentar, como amigo, refazer a ponte da pessoa com o mundo, pois uma das coisas que mais dói no fim de um relacionamento é que a maior conexão que temos com o mundo é pela pessoa que amamos.
Mas gostaria de me deter um pouco nessa resposta à infeliz pergunta: “Não podia dar certo… Éramos muito diferentes”. Apesar de ser resposta pronta que põe de lado rapidamente a incômoda pergunta sem-noção, o frequente recurso a ela demonstra que é idéia compartilhada, compreendida e aceita como resposta pertinente. Aponta, portanto, que é uma noção a respeito de relacionamentos que é muito forte na nossa sociedade. Pode até ser mentira, mas as pessoas aceitam.
Você consegue imaginar as pessoas aceitarem sem mais, sem a necessidade de explicações pormenorizadas, a resposta “É que nós éramos iguais demais”? É totalmente contrária à noção de “almas gêmeas”, da “outra metade da maçã” que está no lugar comum do nosso pensamento sobre relacionamentos amorosos.
Ontem li um texto realmente liberador e revelador a respeito dessa noção, de Marcos Donizetti. Sugiro a leitura!
Sobre a noção de Fetiche, e o que isso tem a ver com o amor narcisista
Fetiche é uma noção ligada à psique e à sociologia marxista. É a idéia de que o ser humano é capaz de projetar elementos da sua psique e “dar vida” a um objeto inanimado. Quando temos tesão por roupas e sapatos estamos a dar vida a estes objetos com o sentido que a eles imputamos. Na sociologia marxista, quando dizemos que é o dinheiro que faz o mundo girar estamos também dando vida a um objeto inanimado e incapaz de agir, botando à sombra as relações de dominação entre os homens que realmente fazem o mundo funcionar da maneira que funciona.
Após a leitura do texto de Donizetti é possível que fique mais claro o entendimento da idéia de narcisismo como fetiche: ela sugere que ao procurarmos nós mesmos no outro estamos projetando nossa psiquê no outro, que é tomado não como pessoa, mas como objeto.

