Categoria Ideologia
Blogos-Fera Critica
Este texto surgiu no espaço de comentários do post “Respostas a Algumas Perguntas Frequentes”, do Biscoito Fino e a Massa, em resposta a Alexandre Nodari, que comentou eu.
Alexandre,
“Essa história de “formar uma rede” é totalmente equivocada, mesmo se for caso de ativismo. Formar uma rede é o que as empresas e instituições tentam fazer.”
Então me diga como ficam os “cidadãos” atomizados frente a um poder que ele desconhece, de entranhas burocráticas e de conchavos, um sistema muito acima e para além dele. O “cidadão” (coloco o cidadão entre aspas e explico depois) … o “cidadão” moderno me lembra o ser humano pintado por Benjamim na modernidade da guerra: seu frágil corpo nada pode frente à imensidão de uma máquina de guerra.
Assim também é a política. Ao “cidadão” se dá o poder de apertar os botõezinhos de quatro em quatro anos. Sujeito a uma máquina de propaganda, uma máquina de CPIs e de criação de discursos, uma máquina cujos entremeios Kafkanianos ele desconhece, ele vai com fé (?) de quem por fim, sabe das coisas, apertar botões a cada 4 anos.
Quando se pega um assunto de interesse cidadão (sem aspas) – pois
não se está a tentar a fama por meio de uma discussão qualquer acerca da vida de Michael Jackson, mas de um processo que envolve um sem-número de brasileiros e que vai retornar -
na forma de leis à todos os brasileiros como norma, à qual
todos, mesmo que não rousseanamente envolvidos na feitura da lei que obedecemos, mas num momento posterior, no momento de sua
aprovação, atinge a todos como suditos desta república, e é,
portanto de qualidade diversa de qualquer outra discussão de blog, ou post.
Quando se deixa de ver que um post é qualitativamente diverso de outro, estamos num mercado de posts.
“toda manhã, para ganhar meu pão
vou ao mercado, onde se compram mentiras.
cheio de esperança
alinho-me entre os vendedores.”
(Hollywood, Bertold Brecht, tradução de Aroldo de Campos)
E como todo post, e assim, todo blog, é equivalente geral, passa-se a aplicar a ele as regras da troca como se fora um equivalente, uma
mercadoria qualquer. “Michael Jackson”, “Madona” e “disputa entre movimentos sociais e empresariado pela democratização ou manutenção das coisas como estão” passam, no universo de blogs, que me parece um mercado, a estarem sujeitas às mesmas regras de troca, de propaganda indireta (já viu que a propaganda hodierna não é direta? ela não diz: compre isto para fazer X, ao contrario, ela diz “o produto Y é tããããão legaaaalll, e nem diz o porquê).
Por isso se aplica a mesma regra a tudo, assim como no mercado a mesa (primeiro capítulo de O Capital) feita com arte, que leve ao artesão a sua vida para compor, tem um preço e entra na mesma régua monetária que a mesa feita em dois segundos pela indústria. São mercadorias, e isso lhes rouba a qualidade, ou o espírito – têm cada qual apenas um valor de troca, que as torna comparáveis.
Portanto, o pedido de linkagem é todo – cada qual – todo comparavel por que denota cada um, sem diferenças, uma e só uma
coisa, ou (será que?) a cabeça do blogueiro só pensa por meio de uma regra que reduz tudo ao mesmo mercado de trocas? E, dentre as moedas de troca estão as linkagens e dentre os prêmios a fama e os pêmios de melhor blog. A estas regras são submetidos todo e qualquer assunto (?), a partir da chamada “boa maneira blogueira”, como se os assuntos não fossem de qualidades e esferas distintas (tanto Michael Jackson quanto Confecom tem o mesmo valor de
troca, como se do ponto de vista politico eles fossem a mesma coisa?)
Assim, toda a proposta de formação de rede aparece no mercado de posts como se fosse a formação de quadrilha visando a fama, ou o prêmio, pois o “blogueiro” já não vê diferença entre isto e um ativismo “saudável”, uma alternativa do “cidadão” atomizado frente à máquina politica, uma tentativa de invenção de um mecanismo político não tão novo, mas modernizado (todo sujeito político torna-se político não pelo isolamento, mas pela associação. que esta se faça por blogs é só usar o recém-existente para re-criar em novos termos o previamente existente).
Deixa-se escapar as brechas que existem como se fossem coisas “que só empresas e instituições fazem” (?). (a respeito de instituições, me lembro como se fosse ontem o momento em que deixei a minha infância conceitual e passei a entendê-las de outro ponto de vista: foi quando, num banho de água fria, uma professora de sociologia disse que não é porque as instituições tenham um mesmo nome – como “escola”, por exemplo – que elas representam a mesma coisa: passei a tentar enxergar para além do nome, cada instituição em particular – por ex, sabemos que PT e PSDB estão sujeitos às mesmas regras do jogo polítco, mas ao mesmo tempo são instituições diferentes, para além das regras que as moldam grosso-modo).
Mas voltando à essa ideia de que “redes” é o que empresas e instituições fazem: isso quer dizer que o recurso é eficiente, e por isso as esquerdas perdem campo em deixar de fazê-lo, pois abrem um vacuo ocupado pela direita e com isso abrem seu flanco, ou que é um recurso do mal? Não seria ingenuidade pensar dessa segunda
maneira?
O coração feminino bate mais devagar
Postado por Flavia em Coisas da Vida, Ideologia no dia 2 de July de 2009 às 17:43
Impressionante o que se descobre a partir de uma simples tosse ingênua.
Não se diz que o diabo está nos detalhes? Há uma lírica nos detalhes…
Então começei da tosse seca de fumante. Passei na farmacinha de bairro e troquei uma idéia com aqueles conhecidos. Tava parecendo o início daquela tosse que vai ser o cão chupando limão. Além das mentas, mel, agrião e chá, resolvi escolher um charope que não fosse natureba.
Indicação: xarope contendo cloridato de clobutinol e succinato de doxilamina.
Parênteses: depois de anos longe do curso de biologia ainda tenho resquícios dessa de-formação que se impôs sobre meu caráter. Bateu a re-caída. O Biólogo é um garoto que chegou ingênuo, por amar a natureza num curso chamado Biologia, que lhe ensina que amor é coisa de boiola e que é coisa de criança ingênua -- o legal, o inteligente, não-emocional, não-ingênuo, ou seja, adulto, é odiá-la. ODEIE A NATUREZA.
Tá bom. Concedo. Parece exagero, então vamos a mais digressões, me afastando da história da tosse.
O ingênuo amante da natureza passa por um processo de socialização -- o que significa dizer, um processo de insercão num grupo, o que inclui tanto passar por certos rituais quanto deixar de lado certos valores prévios e absorver valores do grupo onde está sendo iniciado. Odiar a natureza é um desses valores.
E como se passa do amor ao ódio? Se você já quis deixar de amar alguém, e foi duro consigo mesmo, você decerto submeteu o outro (que já não é mais ser amado desde o momento que você resolve liquida-lo simbolicamente) aos seguintes processos:
- um isolamento simbólico completo (ele nada tem a ver com você)
- sujeição do outro, sua transformação em objeto de experimentos
- sua redução a uma série de equações causa-efeito (passa a pensá-lo como previsível, manipulável, dado estímulo x, você tem o resultado y)
- como você não conhecia estas 3 “verdades” acima, antes, crê que estava sobre o domínio de uma força que desconhecia, agora você tem os olhos bem abertos e será você que dominará sobre estas forças (e se vingará pelo período em que esteve sob o feitiço do outro)
É similar com a forma como o Biólogo passa da admiração, fascinação, ao controle e ódio. “Natureza” passa a ser objeto de ser picada, centrifugada, extirpada de seu contexto e examinada nos seus contituintes mais simples. Se bem socializado, o Biólogo é aquele que não passa nem perto de ter pena do ratinho sacrificado, do inseto rasgado vivo ao meio para extirpar-lhe o intestino médio. Uma vez eu cheguei ao cúmulo da eficiência, que foi, ao invés de arrancar a primeira porção do torso do inseto com o primeiro par de patinhas que jogados no lixo ficava horas se mexendo, e só depois arrancar o abdomem onde estava o intestino, arranquei só o abdomem pra tirar de vez o intestino e criei um monstro que passeava sem abdomem pelo laboratório por mais que uma hora. Ah, sim, o biólogo cronometra o evento. Para ele o inseto não sofre.
Impressiona a maneira como eu, bem treinada em biologia, era capaz de deixar de amar rapidamente outros seres humanos. Me apaixonar, me frustrar, tornar o outro objeto, manipular, jogar fora, era técnica aprendida. Até o momento em que me dei conta: não era essa a pessoa que eu queria ser. Essa era a pessoa que me diziam para ser. Foi o momento em que decidi amar até o fim. Decidi que so assim, qual a sereia de Cristian Andersen, ganharia uma alma.
Acerca do tipo de personalidade que é dura consigo mesma, é totalitária. Hitler se tornou o herói da multidão por ser duro consigo mesmo -- se ele mesmo se sujeitava inteiramente à sua própria autoridade, ao Triunfo da sua Vontade, então a nação devia segui-lo como exemplo do que o ser humano alcança pelo controle.
Os alunos de Bio frequentemente
competem pra ver quem tem mais controle -- seja sobre o nojo, sobre o asco, sobre o metabolismo, a capacidade de matar bichos sem piscar, dar injeções em pintinhos, matar o sapo com punção no cerebelo… se você consegue fazer isso, vira modelo -- isso é status no grupo, pela demonstração de controle sobre a sua própria natureza, assim como sobre a outra natureza, totalmente separada de si.
A tal da Tosse
Mas de repente a recaída. Do controle calculado sobre a minha própria natureza: sobre o meu corpo. O succinato de doxilamina causa sonolência, então não posso tomar e sair de moto. Mas é sexta-feira e estou voltando pra casa pra ficar de molho no fim de semana. Cloridato de clobutinol causa taquicardia. Legal, pensei, se o ritmo cardíaco acelera, ajuda a circulação levar defesas e limpar toxinas.
Isso eu li antes de comprar. Pago 15 pau, vambora pra casa.
Chegando, fiz aquilo que todo gripado deve fazer: caldo quente, banho, pijamão, e cama.
Levo junto as mentas, méus, e o xarope. Começo a ler bula. Bla blá, aquilo que eu já tinha lido no Reference book da farmácia, agora a dúvida: mulheres grávidas não devem… mulheres amamentando não devem… (esquisito), mas não parecia nada que tivesse o efeito de interromper gestação, fiquei curiosa e googlei informações.
Descobri que o componente cloridato de clobutinol havia sido retirado de circulação mundialmente… não é a primeira vez que me deparo com remédios, com essa mercadoria cheia de valor agregado, fruto de investimentos maciços, e quando não se pode realizar o lucro dessa mercadoria nos mercados de primeira linha, onde elas vêm parar? No 3o mundo.
Algo semelhante acontece com o paracetamol -- Chá pra gripe, remédio pra gripe, pra dor de cabeça… tá cheio de produto com isso. Paracetamol pode causar Falência Aguda do Fígado. Tradução: se você for sorteado, … se você tomar isso e for sorteado, diga adeus de vez ao seu fígado, como se ele fosse um bichinho de estimação atropelado por um Scânia a 180 Km/h bem na sua frente.
É claro que isso acontece com uma porcentagem mínima da população.
Em busca da anti-autoria perdida
Postado por Flavia em Ideologia, Para Mudar os rumos da Mídia no dia 2 de June de 2009 às 18:35
(vou deixar as linkagens para amanhã. como sempre, saio pra dar aula. Atualizado, agora 3/jun)
Faz um tempo que li o que escreveu o Maurício, mas, como dizia um amigo: “me quedei paralisada”. “Que nem cocô gelado”, era outro dos seus ditos. Fiquei sem palavras, mas acho que depois de dias deglutindo (lembro que levei semanas para achar alguma coisa sobre o filme “Sangre” – no fim achei genial, mas levou muito tempo ruminando – é um filme para nietzscheanos). Eu vou mudar de assunto para botar a coisa – propor – um outro foco possível.
Agora vem a frase de efeito – pra chocar (aviso, por que o ministério da saúde adverte . coisa e tal): A blogosfera crítica é, sem redundâncias, o que acabou-se de dizer: crítica – mas continua presa numa relação amor-ódio (ou amor apache, se preferir) com a grande mídia. Porque digo isto: Uma história, para acontecer tem que sair em algum lugar. Algum lugar significa a Folha, the Guardian, ou as Editoras. Por melhores que esses meios midiáticos sejam, passam por um processo de filtro. O livro, na melhor editora, passa por uma triagem que leva em conta seu potencial como mercadoria. Como disse Marx, no capítulo o Fetiche da Mercadoria, sobre a mesa (como um exemplo), ao se tornar mercadoria a mesa já não é mais mesa. Torna-se, pelo processo de fetiche, em algo que não é seu valor de uso, mas seu potencial como valor de troca. Adquire, sob esta roupagem o poder de tornar-se (ela – uma simples coisa) em sujeito (chamado pseudo-sujeito, pois na realidade o sujeito são os homens em sociedade) e como mercadoria tem o poder (ilusório) de fazer coisas. Assim é, que o conjunto de mercadorias unidas na entidade abstrata chamada mercado seja capaz de fazer coisas – determinar as ações do sujeito real. Em outras palavras, quando se diz que se faz algo porque o mercado ou quem sabe a (su)realpolitik, né,Hugo? Ou foi o Edu? (desculpem, a gente discutiu tanto os três juntos que acho que ajuda vocês diferenciar pelo fato de eu ser mulher, e eu a confundir pelo fato de vocês serem rapazes, fetichizei vocês por meio do meu fetiche masculino, transformei-os numa entidade abstrata HugedÚ ou EdUdugo) assim quando os sujeitos se despojam do poder e capacidade de sujeitos e se auto-identificam como objetos, pois dizem que fazem ações não por que querem, mas porque uma entidade fora e acima deles assim o determina, está fechado o ciclo do fetiche (palavra que quer dizer tão somente dar vida a um objeto inanimado, como fazemos com o filme, posto que é só projeção de fótons sobre uma tela branca).
Estamos, como dizia no argumento anterior, fechados num ciclo de fetiche – só realmente acontece o que foi publicado. Faz parte desse fenômeno a questão da autoridade, socialmente conferida, não ao bom argumento, ou à questão pertinente, ou à autoridade do contista, que como Benjamim elabora num texto sobre o narrador, é não aquele que vivenciou, mas que ouviu – não leu – ouviu alguém contar. Nenhuma destas autoridades conta muito.
Conta a autoridade socialmente conferida àquele que escreve: um acadêmico que recebeu sua tarja acadêmica dada por um grupo de especialistas acadêmicos que o avalia dentro dos moldes da produção científica, ou um autor de livro, que recebeu sua tarja de bom autor dada por uma autoridade que o avalia como mercadoria, ou pior, a autoridade conferida por um jornal ou revista, à qual apesar de sermos críticos, continuamos a reproduzir e polemizar, conferindo-lhe autoridade, ainda que seja através da crítica (falem mal, mas falem de mim). Noto que esse fenômeno ocorre inclusive com respeito aos blogs mais populares – o que lá sai é o que está ocorrendo de fato, se não sai lá é sem importância, essa autoridade é, como na academia, conferida por pares, ou seja, outros blogs. Mas eu pergunto – de onde sai a história, de onde sai a notícia, se não de uma pessoa, que nada mais é que uma pessoa como as outras pessoas – que sentou para escrevê-la? Não a autoridade, mas o reconhecimento de um bom conto ou um bom argumento, deveria vir da relação de cada leitor com cada autor. Que autoridade tenho eu, por exemplo? Sou uma especialista em Confecom, é assim que doravante deverei ser tratada? Ou como uma simples pessoa, que foi atrás ou presenciou assuntos, e que simplesmente, como qualquer outra pessoa que fora alfabetizada, escreve? Que autoridade é essa que vem na cabeça dos sujeitos, através do fetiche?
Outro dia escrevi sobre um imbróglio que ocorreu na virada cultural, deixei o e-mail da prefeitura, para aqueles que também vivenciaram a coisa reclamassem, se quisessem, e o que consegui? Fui visitada por outra pessoa que vivenciou a coisa e prontamente ela, em vez de escrever um email também e tomar nas rédeas a sua capacidade de sujeito, prontamente se coisificou (verbo aplicado por Marx àquele que se transforma em objeto – não é transformado: se transforma – como sujeito de uma única ação, ele ainda é sujeito da transformação): ela me elegeu – sem que houvesse nem eleição nenhuma – sua re-pre-sen-tan-te! Agora, estamos com a questão que se junta e faz parte do fetiche, que é a questão da democracia real: ela deveria ser participativa ou representativa?
Devemos nos coisificar e entregar as rédeas do que nos acontecerá a um representante, que elegemos formal ou informalmente, ou devemos enfiar as mãos na terra e praticar a política enfiando as mãos até os cotovelos nessa terra roxa que jamais sairá de nossas mangas?
Sei do assombro que assola o sujeito quando ele decide enfiar a mão na terra. É magnífico e aterrorizante. Como Abraão de Kierkegaard, o sujeito se entrega ao mesmo tempo em que se revolta e luta contra um Deus que é muito mais potente. O que Kierkegaard descreve não é, para mim, uma questão apenas religiosa: ela diz respeito ao drama que vive aquele que se entrega profundamente a uma questão ética na modernidade (e percebe que o conflito não é meramente externo, mas interno e constitutivo de sua própria personalidade). Nessa modernidade em que tudo o que era sólido se desmancha no ar, este sujeito está em profunda luta contra e por algo muito acima e maior que ele, ao mesmo tempo em que está em luta contra si próprio – contra todas as suas células, como disse Marcuse, e se revoltando em cada uma delas, numa negação-afirmação que é a história da procura de sua própria alma. É um movimento que ao mesmo tempo em que te constrói te consome. É portanto, magnífico e aterrorizador. Como em lobo das estepes, de Hesse, ele encontra um teatro mágico, (certo, Guilherme?) onde descobre uma pluralidade, descobre que pode ter umas 1000 almas, que suspeito, são compostas de todas as almas com as quais teve contato: por livros, blogs, nos seus encontros com os demais sujeitos que compartilham com ele de um mesmo problema: viver nesta sociedade.
Mas será um drama ao qual é melhor fugir? É bem mais fácil (e também mais difícil) se entregar de olhos fechados à autoridade autoritária do representante. Elegemos representantes para que sejam sujeitos em nosso lugar sem ao menos nos apercebermos do fato. Todas as nossas células estão por demais educadas para sermos autoritários (autoritário não é, segundo Adorno, apenas o líder carismático weberiano na modernidade das mass media, mas também aquele que se entrega e é o outro lado da moeda, sem a qual não existe o líder – ele se coisifica: passa por uma transmutação e se converte em massa que obedece cegamente). Estamos por demais acostumados a isso e nos entregamos à autoridade constituída pelas instituições. O livro é bom, por que a instituição lhe conferiu a autoridade – o sujeito cego se entrega a esta idéia. O mesmo ocorre com jornais, revistas, nomes de autores famosos, autoridade conferida por um público. E pelo seu filtro passa aquilo que para este público existe, e o que deixa de existir, por não ser mencionado. Vem daí minha revolta (e todo ódio é também paixão) contra meu próprio nome, e me pergunto se isto tudo ocorreu àquele que se chamava Prince, e como é que ele conseguiu ir mais longe. Flavia é, como todo nome romano feminino, algo que tem suas origens num fenômeno pelo qual a mulher é posse: era Flavia se fosse filha de Flavio e passava a se chamar Júlia caso se casasse com Júlio (li isso nos idos tempos de colegial, posso estar me confundindo). Seria um nome que não é seu. Mas aquele que não tem nome – nem sei se tem ainda voz – conseguiu renegar tudo (me impressiona!).
Então se o líder carismático ao qual conferimos uma autoridade cuja origem está na nossa formação para o autoritarismo diz “não se preocupem com isto, eu que sou seu líder, conversei com outros líderes em off e posso contar para vocês todos que está tudo resolvido” o que acontece? Os sujeitos realizam uma única ação e se coisificam.
Todas as minhas células, as minhas moléculas e partículas subatômicas se horrorizam diante deste Deus. Percebo que este impulso irresistível do qual falou Durkheim está não só nos outros – fora – mas em mim – dentro. Me revolto contra mim.
Esta deve ser a origem da múltipla personalidade que descreve Hesse. O sujeito moderno está dilacerado, Como dizem os pós-modernos. Numa sociedade globalizada ele se encontra sob uma multiplicidade de forças que empurram sua alma para o ser, mas que neste caso é conflitante. Ele não se encontra em si mesmo, nem fora de si.
Por isso acho que é um esforço válido – que se bem que meio vão – catar os pedaços e nomeá-los. Como acontece com aquele conto infantil – como Benjamim disse, os contos infantis ensinam a astúcia contra o perigo de nos perdermos – como acontece com aquele personagem de quem preciso me lembrar o nome, que ao ser nomeado, ele cai em nosso poder, quando antes estávamos sob o poder dele. Ao encontrarmos o preconceito, por exemplo, que está desapercebido em nós mesmos, passamos a ter controle sobre ele, quando antes ele teve controle sobre nós. Para aqueles que gostam de literatura, é esse um dos sentidos possíveis de Orgulho e Preconceito, de Austeen. Quando recebe uma carta e percebe que estava sendo vítima de seu próprio preconceito, e também de seu orgulho, Eliza toma em suas mãos os rumos de sua existência e deixa de ser enganada por outros personagens na história.
Precisamos tomar as rédeas de nossa capacidade de sujeitos e autores. Precisamos contar as histórias não contadas. Histórias que tem o poder de colocar coisas sob outros ângulos até agora desapercebidos – e que, por passarem batidos, nos controlam. Um exemplo é uma história que não me canso de repetir para a criançada que tomou um lugar onde já estive – que é o movimento estudantil. Creio que a falta de memória nos torna burros ingênuos. Ninguém sabe todas as histórias, mas as histórias que se conhece devem ser contadas. Elas ajudam outros sujeitos a olhar o mundo com mais astúcia e a encontrar – como em muitas das versões de chapeuzinho vermelho – saídas onde só há portas fechadas (e a fugir de perigos, como demonstram muitas outras versões da mesma história, para não termos o mesmo fim do personagem que se perdeu – Benjamim está certo, as histórias contém nelas várias possibilidades e ensinam a astúcia).
A história a que me refiro é da invasão da Reitoria na USP em mil novecentos e noventa e poucos (2, 3, ou 4, não me lembro). A história parece até sem nada: sem peripécia (que é quando parece que vai ser tudo tragédia e o herói se salva, ou o contrário). Caminhamos até a Reitoria – a entrada era um largo saguão aberto. Entramos calmamente – não havia transições entre o dentro e o fora, a não ser o teto e as paredes laterais, que não constituíam obstáculo – a Reitoria não era, nessa época uma heterotopie distinta, como diz Foucault em uma palestra (hetero=outro, topos=lugar. As heterotopias distinguem e delimitam o que se torna possível e impossível nos espaços: determinam poderes), pois não havia muita distinção que marcasse esse dentro e esse fora. Chegamos no dentro, que era onde deixávamos de tomar sol. Olho eu pra cara do sujeitão ao lado (era um grandão muito bacana da Educação Física) e digo “…agora…” ele responde “agente senta”. Foi assim. O que eu acho de interessante nesta história? É que não houve chute que deformasse a porta, pois não havia a porta.
As heterotopias determinam espaços e poderes, mesmo no universo virtual. Quem entra no grupo dos publicados se constitui socialmente como autor e a ele é conferida autoridade. Não estou em buscas das autoridades, pois já quase não existem autoridades que não sejam autoritárias – mesmo sem percebê-lo, mesmo que isso não se faça por mal. Estou em busca da racionalidade – sei que sou filha do iluminismo, mas vá lá – estou em busca da racionalidade, que como Weber disse, só existe de fato nos sujeitos. Estou em busca da anti-autoria, já que como autor se cai mais facilmente nas armadilhas da autoridade. É preciso compreender a história e a formação social dos grandes nomes que como esfinges nos dizem “me decifre ou te devoro”.
sobre apatia política, e a fantasia (que tem a ver com o fetiche), ler Apatia e Absurdamento
Dia Internacional Contra a Homofobia
Taí um dia com nome
batuta. Não creio que haja razões para ficar puto com um nome desses, como eu fico puta com “dia da mulher”, com suas rosas pra cá, rosas pra lá… Será que ia ter rosas se fosse chamado de “Dia Contra o Chauvinismo”?
Ah, tudo bem.
O dia de hoje é uma data que nos recorda que o fato da homofobia é algo vergonhoso e deve ser desconstruído. A posição é boa.
Então vamos desconstruir.
Comecemos com a sexualidade.
É fato conhecido pelo mundo inteiro que a humanidade se divide em homossexuais e heterosexuais, certo? Será? Estou farta do fato de que entre o binômio homo-hetero é sempre o homo que é analisado (1). Isto por que o “heterossexualismo” é tomado como o normal, e na história das ciências é sempre o patológico que deve ser estudado, sem que jamais se questione este ponto de partida, que são as idéias acerca do normal (2).
O que vem a ser o heterossexualismo? Menino com menina. Olhamos o casal nos espaços públicos e a nossa mente se ampara na idéia: normal. Okay. Não se pensa mais sobre o assunto. Mas o que é que esses dois fazem entre quatro paredes? Impossível saber? Ora, se você tem mais que 18 anos, pode entrar honestamente numa pletora de sites e descobrir uma porrada de coisas: vamos mencionar algumas.
(atenção, o texto abaixo contém linguagem chula e pode causar incômodos aos mais pudicos)
Além das diversas posições em que menino e menina se colocam, algumas capazes de te mandar pro médico se você for tentar em casa, e as diversas fantasias de dominar e ser dominado, há outros truques psicológicos: os meninos que gostam de ser mal tratados por dominatrises, tratados como crianças, tratados como cachorros, que gostam de receber ordens do tipo “me lamba” após a menina ir ao banheiro. Escatologias, golden showers, meninos que gostam que meninas usando Luis 15, pisem com o salto no seu saco, e entramos no amplo terreno SM, onde ambos os sexos gostam de maltratar ou ser maltratados, os bondage, que vão da deformação do corpo com a corda e roxos pra todos os lados, até uma forma de bondage japonesa, com corda especial e dita artística que não deve deixar marcas.
Adeptos dos sufocamentos, e demais fantasias de violação em que “não” quer dizer “sim” (e uma outra palavra quer dizer “pare”), o tal do “fio terra”, além de sexos um pouco mais públicos, praticados entre homens heteros nos cinemas pornôs, e meninos héteros que curtem de vez em quando serem “ativos” com outros homens. Os chamados “fetiches”, vão desde caras que tem tesão pelos pés da menina, até caras que se ligam em suas roupas, e mesmo gostam de usá-las.
Ah, dava uma tese de uma vida toda, as variações do heterossexualismo só tomadas do
ponto de vista masculino. Mas vou parar por aqui, pois acho que já deixei claro que há muito mais coisas entre a idéia de normalidade – menino e menina – e a terra do que supõe nossa vã filosofia. Então, não fica meio ridículo separarmos a humanidade entre heteros e homos?
A questão é na verdade o que nos incomoda. O incômodo com outro ser humano – pela forma como age (menino segurando a mão de menino em público, menino beijando menino em público 3) e mesmo pela forma como se veste. Vamos então desconstruir o incômodo. A questão é: por que uma outra pessoa que não está fazendo nada a você te incomoda. São várias as formas de incômodo. Há quem se incomode com a forma como os outros se vestem. Vem daí as várias denoninações redutoras do outro que me lembram a forma como os primitivos (4) chamavam as outras tribos de “macacos”. Menino-shopping-center, mauricinho, perua, bixo-grilo, etc, são alguns dos estereótipos capazes de nos tornar avessos de primeira olhada ao outro. Que
dizer então dos estereótipos ligados às idéias de marginalidade? Negro, rastafári, puchador-de-fumo, são estereótipos capazes de nos fazer fechar nossos ouvidos a outros pontos de vista.
Certa feita respondi a uma asserção de que mulheres que se vestem com muito aprumo são superficiais com uma pergunta: “a superficialidade está em quem tem a superfície ou em quem enxerga apenas a superfície?”
Qual a natureza do incômodo? Impossível saber. Mas uma hipótese que sempre me ocorre é que o incômodo se constrói sobre um conflito entre o id e o super-ego. Traduzindo, é algo que queremos ser ou ter, mas que não nos permitimos.

(hmmm... que gostoso)
(1) (da mesma forma, no binômio macho-fêmea, é o segundo o mais estudado)
(2) leitura sugerida: O Normal e o Patológico de Georges Canguilhem (médico e filósofo, e influência sobre Foucault) ver mais em inglês na Wikipédia.
(3) tempos atrás dois garotos foram expulsos de uma festa de CA na USP. Quando os presentes viram os dois meninos se beijando pararam a música, o grupo (que não era pequeno) de héteros teve um imenso peti e tal. Veja esta página http://www.deuslovult.org/2008/10/29/os-gays-estragaram-a-festa/
(4) me matem, antropólogos! Brincadeira, foi só pra provocar.
Educação é como a mesa para A Escada
.
Alguma vez você já parou para pensar que valores motivam ações? Não estou falando da campanha do Betinho não: estou falando da vida rotineira de qualquer um de nós – homo erectus, homo tortus, homo agrárius, homo criminosus, homo lattes, homo lavamaisbrancus…

"olha o que você fez: mau designer, mau designer" "que cretino! Ô Bob, você nunca vai conseguir educar ele desse jeito. Você tem que pegar ele no ato!"
Vejamos um exemplo mais próximo de mim: o homo lattes. É uma tribo interessante de homo: pergunte o que ele faz e a resposta será “mestrado”, “doutorado”, “pós-doutorado” ou uma variação disso. No seu cérebro aquela pergunta se converte em algo como “Em qual degrau você está dA Escada?”. Quando a resposta vier do tipo “eu estudo os efeitos de x em…” ou “eu pesquiso as conexões entre y e…” com cenho franzido de quem tenta traduzir uma língua exótica, você pode ter certeza de que está em presença de um deslocado da comunidade dA Escada. O homo lattes é um homem de títulos.
O homo lattes olha com desdém os membros deslocados dA Escada. Alguns desses deslocados são dignos de pena: eles ficam por anos e aaaanos tentando subir os Degraus com uma manobra esquisita que só dificulta a subida – são um tipo demente de quem é melhor ficar longe. Mas alguns deslocados dA Escada alcançam os degraus mais altos muito rapidamente. Esses devem ser odiados, pois decerto vêm de uma família que está nA Escada por gerações, e com toda certeza, eles jogaram uma corda pra ele. Ou então esse deslocado vem de uma das poucas famílias com acesso a helicópteros: com certeza eles deram uma carona ao deslocado para o topo dA Escada.
O homo lattes não vê diferença entre títulos: são equivalentes gerais, como disse Marx sobre a moeda. Assim como uma mesa é uma mesa, igual a qualquer mesa por sua função, independente da arte que se use para fazê-la. Ele só vê função, e essa função é ao mesmo tempo seu valor de uso e seu valor de troca. De seu ponto de vista uma mesa cuja feitura usa tecnologias de materiais que demoraram séculos para serem desenvolvidas e conceitos de design que tem uma história bonita, ou uma mesa que é feita toda a partir de uma brilhante estratégia de engenharia desenvolvida por alguém brilhante que teve que esculpir demoradamente peça por peça é uma pura perda de tempo e recursos, pois não é diferente de uma mesa feita com uma tábua e 4 paus colados com pra quê prego: estando firme é funcional – é uma mesa como as outras.
Como dizia um outro motoqueiro (1), um indivíduo só pode compreender sua própria experiência (e avaliar as possibilidades de seu próprio destino) entendendo sua posição na história, em sua cultura e em sua classe. O espírito dA Escada não surgiu do nada: suspeito que surgiu da FAPESP, uma entidade de uma só vez terrível e magnífica, como o Deus de Abraão (2).
A ética lattes, é uma ética classe-média. Como qualquer outro homo classe média (mesmo os não lattes), o que ele quer na vida é continuar a ser classe média (diferente das várias tribos de homo miserabilis, que querem ser outra coisa). Educação é como a mesa – tem essa função: Por meio dela ele ganha as ferramentas para sua subsistência como membro da classe. Faz parte dessa ética a noção de self-made-man. Essas tribos de homo frequentemente não vêem que a sua posição financeira e familiar classe média constituem um chão pelo qual é possível chegar À Escada. Mas eles são capazes de enxergar – e com um ressentimento de classe já suspeitado por Nietzsche (3) – que os membros dA Escada oriundos da tribo homo abastadus abastadíssimus trazem consigo no mínimo um tênis ergonômico (daqueles feitos pra aumentar o seu impulso) quando chegam À Escada. Com que tecnologia eles construíram a sua mesa não importa: essas noções sucumbem frente ao ódio de classe.
Mas a minha preocupação é com o homo miserabilis. O espírito das discussões políticas de nossa época sai da tribo lattes, que é classe média. Há membros dessa tribo que ao invés de subirem A Escada, sobem A Folha (ou outra instituição dessa Árvore aos pés dA Escada: Veja, alguns dos pertencentes À Escada não deixam nunca de cuidar dela, Isto É, regá-la, colocar fertilizante e de jogar um pouco de sua luz nA Árvore, para alimentar aqueles homo que como lagartas crescem, e viram lindas borboletas, algumas vezes voando para o lindo Exterior).
E o homo miserabilis? O homo lattes realiza um supremo sacerdócio – sacrificado pra caramba – de tentar fazê-lo entender que ele é feio – feio mesmo, mas muitos miserabilis são cabeça-dura. Não se trata apenas de uma estética do visível (claro que muitos dos miserabilis não são zarcos, nem bem tratados, às vezes torcem pro Corinthians e faltam-lhes uns dentes (4) sua estética equivocada não é A Estética que aparece impressa nAs FolhaS). Mas, para além disso, trata-se de uma questão mais profunda: muitos deles não são dotados da capacidade que lhes permite ler A Árvore, e isso é por culpa deles mesmos, da forma que se portam nA Vida. A Vida é dura, e pra eles subirem nA Vida eles precisam penar, como penaram os que subiram nA Escada, e a via destes sacros suplícios é a educação, ou seja, conseguir galgar pelo menos a escadinha que chega no chão que leva À Escada.
A Vida é dura. E os membros da classe que subiu A Escada entendem que tanto a escadinha como A Escada são suplícios que justificam que os que passaram por elas com sucesso são uma espécie de santos e devem ganhar salários no mínimo umas vinte vezes maiores que aqueles que nem a escadinha conseguiram galgar (5), como compensação justa por seus esforços nA Vida.
Mas o homo miserabilis, em especial o brasiliensis, apesar de muitas vezes concordar com o homo lattes, é um Macunaíma preguiçoso que tem que aprender uma lição dura: é nada mais nada menos que o justo que o homo classe média brasiliensis pague ao miserabilis por semana menos do que a metade do que o homo classe-média gasta no supermercado comprando fandango e barrinha de cereal por semana, para que ele limpe o chão da habitação do homo classe-média brasiliensis (e lave sua privada). Valores motivam ações e ele age assim todo dia. O homo médiaclasse brasiliensis sabe da existência do homo trabalhatoris europeu e canadensis, por exemplo, e que é diferente do miserabilis: é uma coisa briguenta, dada a passeatas, coisa que ele não compreende nem gosta. O homo classe-média brasiliensis é um pacifista de ocasião: Ele sabe que na sua tradição de pensamento brasiliensis, que é herdeira tanto de Aristóteles quanto de Miranda de Azevedo (ver a partir de pag 89), o mundo é muito mais claro do que querem esses membros deslocados dA Escada, e que A Vida é pão pão, queijo queijo (apesar que o queijo não é considerado essencial por ele, pelo menos não como ingrediente necessário na mesa do miserabilis).
Notas:
(1) Wright Mills, sociólogo deslocado. Em sua produção militante imaginava ser a Imaginação Sociológica a capacidade que traria ao homem forças e ferramentas para modificar suas condições de existência, um dos últimos e mais valiosos frutos do iluminismo, portanto, junto com os teóricos da escola de Frankfurt. Diz-se dele que era uma figura, andava de jaqueta de couro na sua Harley Davison, e foi impedido pelas estruturas da universidade de ter seguidores (orientandos). Seus livros, no entanto, (assim como sua audácia), foram um grande sucesso de público e inspiraram várias gerações de sociólogos. “Outro” motoqueiro, por que como motoqueira e socióloga, quando penso nele me sinto em boníssima companhia. Um dos meus amigos imaginários mais queridos.
(2) O Deus de Abraão pediu-lhe que oferecesse seu único filho em holocausto como prova de amor (ao Deus, não ao filho). Mais sobre os desenvolvimentos disso, sugiro “Temor e Tremor” de Kierkegaard, que é leitura apaixonante. Nada me tira da cabeça que, impedido pelo anjo de sacrificar seu filho, Abraão não deixa de ser um assassino.
(3) Pela idéia da transvaloração dos valores, Nietzsche procura desvendar o alicerce do interesse material e de classe, poderia-se dizer, que está na base dos valores passados às verdades da filosofia. É o primeiro filósofo anti-filósofo a inaugurar em sua própria disciplina estudos críticos sobre a mesma. Segundo ele, a transformação de conceitos políticos da prominência (e, portanto, podemos ler, de dominação) num conceito psicológico é regra. É assim que ele analisa o surgimento, desde sua etmologia, dos conceitos de bem e mal. Assim como ocorre com sua análise da moral de raiz judaica – que contém elementos de uma vingança simbólica de um povo vencido – creio que é possível olhar da mesma forma para a noção da classe média acerca de educação como um bem (tanto como justificadora de seu status, e como remédio para a pobreza brasileira, que parece querer dizer que quando todos os pobres tiverem estudado deixarão de ser o que são para se tornarem como eles – classe média – não levando em conta e mesmo sendo contrários às políticas distributivas que visam atingir o que poderíamos chamar de estruturas sociais da pobreza). A noção de educação que vem da classe média é vingativa tanto contra as classes mais baixas quanto contra as classes mais altas, onde é possível perceber o seu ressentimento contra aqueles mais poderosos que triunfam justo em seu bosque, que é a academia.
(4) Circulava nos anos 90 um questionário que um povo achava muito muito engraçado pra ver se você é mesmo corintiano. Uma das questões era se lhe faltavam dentes. Fui vítima do mesmo questionário, aplicado por alguém de quem deixei de ser amiga na mesma data, para saber se eu era mesmo petista. A mesma pergunta constava, Mas não consigo recordar, tanta a emoção, se me perguntava também se algum dedo me faltava.
(5) A educação pela dureza, na análise de Adorno em “Educação após Auschwitz”, aponta para a tendência de os duros consigo mesmos se acharem no direito de serem duros contra os outros e de se vingar dos outros pelos sacrifícios pelo qual passou. A análise de Adorno acerca do totalitarismo também não caberia ao caso brasileiro? Para muitos membros da classe média educação é vista como sacrifício necessário (e raramente como gozo), capaz de justificar a diferença entre aqueles que foram capazes de se submeter a ela (e duros consigo mesmos, perseveraram) dos macunaímas que “fugiram” a ela (não o bastante duros consigo mesmos, são seres humanos menos merecedores dos louros).

