Categoria Artes
Vale Cultura? Para ajudar no tal do debate
Postado por Flavia em Artes, Políticas Públicas no dia 30 de July de 2009 às 0:35
Ah, Brazil, Brazil… um retrato de ti que tu desconheces. Leia o post, belíssimo, de Maurício no blog Cinema e Outras Artes
Cadeiras, cadeiras
Bom, o começo do texto é sobre arte moderna… bem, talvez sobre design de móveis.
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Tenho uma fascinação com cadeiras. É que dentro do esquema moderno entre Forma e Função, elas são, pra mim, os objetos que mais podem ter a forma alterada, preservando a função. Você pode até ter formas que dificultam a sua identificação como cadeira – confundem a tua cabeça por momentos (e justamente isso eu acho genial na cadeira). Mas só até que você re-descubra, no formato fora do convencional, a função cadeira.
Arte Moderna e Design
É possível entender o design moderno nesse mesmo movimento em que a arte se modernizou, deixando de lado o figurativismo e o realismo, e passou a falar sobre si mesma diretamente. Segundo Clement Greenberg – um dos primeiros teóricos da pintura modernista – a pintura naturalista dos velhos mestres usava arte para esconder a arte. O que isso significa?
Grandes Mestres da Pintura
Estará mais claro se olharmos, por exemplo, para o quadro de Velázquez – o Las Meninas: O que você vê no quadro?
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Um salão, pé alto, cheio de quadros nas paredes, e um espelho
Uma princesa com seu cortejo em primeiro plano
O auto-retrato de Velásquez, na figura do pintor em frente a uma tela
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Não vou tentar copiar Foucault aqui. Qualquer aproximação seria redutora, com um texto tão magnífico. Mas há muito mais coisas neste quadro que supõe a olhada desleixada.
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Há por exemplo, a presença de ausências. O pintor, que aparece em auto-retrato no quadro, pinta um outro quadro cuja superfície nos é negada aos olhos. Ao fundo um espelho mostra o reflexo do casal real, mas onde está o rei? (se você for adotar um ponto de vista naturalista, o rei e a rainha deviam estar no meio do quadro). Se o pintor do quadro está olhando pra o ponto em que o espectador se coloca para olhar o quadro, e se ele está na corte, ele estaria fazendo o retrato do Rei? Mas é o espectador que está nessa posição e o Rei está ausente do quadro. Se este é um retrato da princesa, por que ela, colocada numa posição lateral, com sua corte, também nos olha, assim como o Velásquez do quadro?
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Isto só pra dar um gostinho (vai ler o texto do Foucault). Mas onde eu quero chegar é que o quadro de Velázquez que pode parecer, num primeiro momento, se entregar completamente aos olhos do espectador, assim direto, sem segundas nem terceiras intenções, sem camadas de interpretação, está na verdade a nos jogar nesse alçapão, essa armadilha antiga da arte, para a qual nos voltamos quando do não entendimento da arte moderna.
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Ao renegarmos as artes abstratas por incompreensíveis, nos voltamos para os quadros representativos da arte dos grandes mestres antigos – de Da Vinci a Velázquez – e temos a sensação de que os conhecemos de uma só olhada – por serem figurativos. Reconhecemos a figura da princesa e sua corte, do pintor, do cachorro, do salão e temos a impressão de estarmos no terreno cognitivo cuja cognição seria direta, ao contrário das manchas e quadrados, borrões que não representam qualquer figura que possa ser traduzida, que gera todo o nosso desconforto com a arte moderna.
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[isto não é um cachimbo
Todos esses elementos estão também colocando muitos questionamentos sobre a arte, só que isso está de certa forma “escondido” no quadro, por trás de uma roupagem (as figuras) que reconhecemos. Nesse sentido que entendo o que Greenberg dizia sobre a arte anterior à moderna, que ela “usa a arte para esconder a arte”. A arte moderna se livra das camadas figurativas e coloca o discurso da arte sobre a arte em primeiro plano.
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A arte moderna é incompreensível?
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Como você mesmo pede concluir, ela é sim, difícil de compreender; tanto quanto a arte dos mestres antigos, mas sem a ilusão das figuras.
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E as cadeiras?
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Já chegamos nelas. Mas antes é preciso uma outra peripécia. O que ocorre então, a partir da modernidade, com o design?
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O design, não só de móveis, como de paredes e o teto acima delas, e de muitos tetos, compondo edifícios começa a perder alguns elementos e ganhar outros (veja, por exemplo, a mudança da art déco para o streamline moderne – a reforma ortográfica tirou o último ‘e’ de moderne, mas era assim que se escrevia na época). Um arquiteto evolucionista diz que “decoração é crime”. Outros arquitetos deixam de lado a bobagem do evolucionismo do cara e concordam – vamos matar a decoração. A arte do arquiteto deve deixar de lado a decoração e se concentrar no binômio Forma e Função (ou seja, elas devem ser trabalhadas juntas).
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Olhe, por exemplo, para esta figura: ![]()

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Você vai reconhecer que as formas das funções (a forma da mesa, da cadeira, do tapete, do sofá, da lareira, das janelas, das cortinas) nunca mudou muito. A forma da função sempre foi mais ou menos a mesma – fixada. Podemos reconhecer, por exemplo, a cadeira, sempre como algo assim:
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Sobre ela se põe a decoração, que podemos reconhecer como o estilo vitoriano na penúltima foto – que é a presença de muitos aveludados, os desenhos em padrões grandes que se repetem, uma coisa bastante sensual até (nas literaturas mais recentes sobre o período vitoriano, os autores tentam desfazer a noção de que essa fosse uma era castrada – é o contrário, é uma era em que se multiplicam os discursos acerca do sexo – por nos parecerem antiquados, parecem castrados, mas é o contrário, é uma era sensual, e podemos percebê-lo na decoração).
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A decoração se sobrepõe a uma forma mais ou menos fixa.
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Agora vai começar o bombardeio: este blog é pequeno para tudo o que eu tenho pra mostrar, mas a internet é grande. Dê você mesmo uma procurada básica – vai se surpreender com um objeto tão quotidiano e trivial.
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Toma isto:
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E mais isto:
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Por enquanto é só, mas não percam as cenas dos próximos capítulos:
- como é que tudo isso começou, e mais sobre cadeiras
- o estereótipo do design moderno como algo “clean demais”, impessoal – será?
- Cadeiras: de Arne Jacobsen a Verner Panton (todos nós temos os nossos preferidos)
- O ideário Modernista: industrialismo imaginado como acessível a todas as classes. (e sua corrupção – hoje uma ant chair de verdade custa no mínimo R$700,oo cada, mas a sua mãe já teve estas cadeiras por preço popular)
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=)


