Não é irônico que ditaduras como as que estamos ver balançar (e no caso do Egito, cair) tenham essa fraqueza ao lado da possibilidade do uso da força sem limitações? Contra o estado de poder total, o ser humano perde todo o medo, pois sabe e assume que já está morto. Ao fazê-lo ele se torna mais vivo que todos nós.
Esses homens e mulheres sabem que o estado pode buscá-los em casa um por um, e desse estado eles esperam a morte certa se forem identificados, e eles sabem que serão – seus rostos gravados em imagens tão múltiplas quanto o número de portadores de celulares.
Foram poucos momentos na história da humanidade que essa verdade brota da alma humana no momento de maior perigo. O momento em que pode-se perder tudo. O momento em que tudo pode ser ganho. Nesse instante decisivo o ser humano revela que de fato tem uma alma, uma anima. Ele não é feito de mecanismos apenas, como quer uma sociologia de modelo neutoniano: ele transcende esses mecanismos em momentos de verdade.
Claro está que o momento de verdade se perde. As forças da reprodução são sim muito potentes. Mas eu acho uma pena essas pessoas mortas em torno de mim que ficam aí falando “ah, caiu o ditador, mas tem que ver qual o corrupto que vai entrar no governo”. Essas pessoas perdem um ponto importante, sem o qual a história é sem possibilidades, a vida sem sal e sem gozo, e a sociedade é apenas pura reprodução mecânica.
É sim, cansativo, sofrer com toda essa violência que os povos árabes estão sofrendo neste momento. Mas também não choramos toda a repressão que eles sofreram por décadas sem chamar nossa atenção.
Mas essa coragem da qual eles mesmos falam, a coragem que” uma vez você ganha, não perde mais”, é algo magnífico. É uma consciência coletiva que aconteceu de ocorrer poucas vezes na história da humanidade. Eu nunca pensei que eu viveria para testemunhar.


#1 por Flavia - 24 de fevereiro de 2011 às 10:21
Oi, Caceres,
espero que nos encontremos mais no Sociologia do Absurdo (http://carlosmagalhaes.com.br/). Foi legal o papo por lá.
Eu concordo com você. Que venham os corruptos. Pra pessoas que disseram “é.. tem que ver agora como vai ser…” “não sei não”, etc, eu dizia “desculpa, mas o que você quer dizer com isso: que o incerto de agora não é melhor que a ditadura certa de ontem?”
Mas eu não sei… eu sempre vivi esse conflito com a minha geração: deve ser uma coisa da formação política daqueles que estavam indo para o colegial quando o muro de Berlim caiu: eles tem um quê de que acreditar em coisas boas (que elas possam ocorrer) ou acreditar em política (essa parece ser uma concepção em que eles aglutinam corruptos, movimentos sociais, partidos de qualquer espectro… uma coisa confusa), bom, para eles acreditar nessas coisas é se demonstrar ingênuo. E se demonstrar ingênuo é o fim: pior que ser corno, pior que botarem teu vídeo pelada na internet…
#2 por Daniel Caceres - 23 de fevereiro de 2011 às 20:01
Que apareçam os corruptos (e um dia caiam também), mas ditadura não funciona. Tenho sempre uma boa sensação a cada vez que vejo uma ditadura caindo e a democracia criando raízes e contaminando as sociedades. Espero que um dia a democracia reine no mundo. E, como toda construção social, a democracia – espero – irá se desenvolver e possibilatará uma convivência humana mais humana.
E é nas democracias que veremos os direitos fundamentais (ou humanos, dependendo da abordagem que se dê e independente das diferençãos conceituais que sejam atribuídas) cada vez mais respeitados e buscados por toda sociedade. É uma questão de a própria humanidade observar (nas possíveis acepções deste termo): o que é melhor pra gente? Pra mim, pra minha mãe, pros meus filhos, pros meus amigos, pra aqueles que eu amo?