Para mim é sempre assim: Será que gosto mais de dar início às coisas do que tomá-las como projeto de vida? Não sei responder a esta pergunta. Apenas que o que sinto é que há em torno de mim possibilidades inexploradas, e com relação a estas, eu poderia não fazer nada (pois estou confortável na minha profissão e sou razoavelmente bem sucedida). Então por que fazê-lo? (se não espero de meus projetos que revertam em uma alternativa de carreira, nem um lucro, nem fama e fortuna?)
Parece até que as justificativas que não envolvem o acima exposto são ou ingênuas, ou pura perda de tempo, ou cheiram à subversões (tipo FFLCH gosta de apanhar), ou têm uma agenda secreta (talvez conseguir dominar o mundo?).
Eu digo que não é nada disso, mas a crença alheia é como eu digo para os meus estudantes: Só você pode decidir. Só você pode fazer as coisas (aprendizado, crença, decisão) no seu cérebro, eu, o que eu posso fazer, como professora, é indicar certos caminhos e você é que tem o poder de escolha.
Inda bem! Imagina se professores fossem grandes controladores de mentes, acho uma coisa saudável quando meus alunos -- como dizem outros professores – “não cooperam” – isso demonstra que eles têm o poder de escolha (e que se eu não estou sendo bem sucedida é por que ou não consegui convencê-los ou por que simplesmente estou usando os “métodos” errados, ou sendo confusa). O mesmo com respeito às crenças.
No entanto sempre acho que os objetivos devem ser sempre bem claros e ter mais prioridade que qualquer outra coisa: Mais prioridade do que, por exemplo, ser bacaninha. Isso tanto como blogueira como professora. Ou ser divertido, ou tantas dessas coisas que podem entrar num blog ou numa sala-de-aula, mas que na minha opinião devem ser considerados como algo que se faça sempre que der (e que se justificam como meios, ou formas), mas que não se justificam como objetivos.
Imagine: qual o conteúdo de uma disciplina se o único objetivo do professor é ser bacaninha? Pode parecer estranho, mas como professora já recebi um sem número de turmas que vieram de um professor, ou, pior, de uma série de professores assim. É duro reverter o quadro de desinformação prévia dos alunos. Por essa razão, e a despeito de passar a ser considerada professora-lixo (que é como é visto o professor de básicos), eu pedia mais turmas de básico 1 quando dava aulas em escolas – pois pelo menos dava a formação básica para os alunos avaliarem suas metas e seus sucessos, e cobrar metas de outros professores. Vendo a formação daqueles que foram meus alunos no B1 eu via que alcançava o que queria.
Isso para mim era paga suficiente, apesar de me incomodar ser vista como professora-lixo por que pegava básicos. Já fui contratada em escolas exclusivamente para dar aulas de avançados, pois na seleção era assim avaliada como melhor investimento. Isso por que os avaliadores medem os conhecimentos e fluência daqueles que selecionam, mas não avaliam a formação dada na escola nem são, por isso, capazes de evidenciar onde é que os problemas começam, do ponto de vista da formação dos seus alunos. Há diversas razões para que isso ocorra, mas não vou perder o foco, que era outro. Ao pedir turmas de básico um professor como eu é visto como alguém que não quer trabalhar, que quer mole. Quando na verdade, era um oposto: se você recebe uma turma fluente de avançado, tem os professores anteriores a agradecer e é só mandar os alunos fazerem, pois eles não tem
dificuldades – isso sim é vida fácil: a aula vai praticamente no automático, e o professor diz que a turma é ótima, que são muito espertos, coisas assim. Mas quando pega uma turma emperrada, que foi sendo passada aos trancos e barrancos, ele diz que a turma é ruim, Reproduz o faz de conta que vocês estão aprendendo anterior e bola pra frente, que eu não sou jesus-cristo pra querer remendar o mundo. Mas não se trata de remendar o mundo, se trata de fazer ações que tenham eficácia: consertar uma turma de avançado é quase missão impossível. Dar uma formação para a independência desde o começo passa a ser a forma mais eficaz de fazer com que o aluno se torne o mestre e o avaliador do seu aprendizado e de seu saber.
Mas nada disso revertia em reconhecimento (não por via da instituição). Dar aulas divertidas foi sempre um ótimo meio de fazer com que os seus alunos respondam que você é uma maravilha nos questionários de avaliação de professores da escola, e se você der vídeos mudos do Mr. Bean, em geral vão responder que você utiliza recursos audio-visuais e que suas aulas são legais, mesmo que nada saia do vídeo (apesar de que o Mr. Bean pode ser usado com objetivos em sala-de-aula). Isso também ocorre por uma série de razões, mas deixemos por hora de lado. A questão é: se fazendo isso
eu consigo reconhecimento certo, porque teimo no caminho mais duro? Não é para ver os olhinhos dos meus alunos brilharem (apesar de que vejo, e gosto muito), nem por que seja uma vocação, um dom de deus (sou atéia). É por que tudo o que faço só consigo força psicológica para fazer e me motivar se achar que estou fazendo certo, que tenho objetivos claros, e que não estou enganando ninguém (pelo menos ninguém que não mereça, como os alunos: o diretor que me avalia como boa se eu passar um vídeo… já são outros quinhentos, ele merece).
É difícil levar a sério as coisas em que você não acredita. Para mim é difícil até fazê-las. Quando não acredito no que faço, deixo de acreditar em mim, e me sinto como se tivesse umas mil toneladas de chumbo ligadas aos meus braços. O insucesso eu não ligo. O não acreditar no que eu faço, para mim, é impossível levar: gera depressão, niilismo, o raio.
Ao contrário: fazer coisas em que acredito me move: arranjo energia para dar conta de tudo e mais um pouco, apesar de que certas coisas vão entrando em sub-categorias: mais e menos importantes, mais e menos urgentes, mais e menos eficazes, e claro: mais importante que tudo são aqueles que amo e que dependem de mim. Assim é a ordem das prioridades (apesar que de vez em quando perco o rumo, ai entram meu marido, minha gata, meus amigos pra me avisar que tou indo pro barranco feito uma lemingue feliz).


#1 por Flavia - 30 de julho de 2009 às 14:05
Que lindo o teu comentario… bom ver que as pessoas… é só ser razoavel que vc chega às mesmas conclusões que um professor vocacionado chega (o não vocacionado não chega em p… nenhuma)
isso mesmo eu digo pros alunos… leia outras coisas, procure pelos teus lazeres e interesses em inglês… uma vez eu comentei de um manual dos beijos, e um aluno de básico ficou tão interessado que foi ler… lindo.
eu digo, tente às vezes, durante o seu dia tentar pensar se o que voce está falando em português, se você conseguiria em inglês, tente como um exercício: você vai conseguir evidenciar as suas carências reais na língua…
enfim… bom, eu tou super correndo por causa da Confecom, e até esqueci dos blogs que quero visitar e do meu blog pessoal (que treca.. peço pros outros ajudarem a divulgar e esqueço de postar no algodão.. é coisa de imbecil mesmo…)
o projetão que tá aos poucos surgindo na minha cachola é baseado em reciclagem e na formação de redes sociais no meu bairro… um projeto mezo ecológico, mezo político-social… vou botar um timing de uns 30 anos nele… mas já estou começando a elucubrar, pesquisar, pensar quais sao as alternativas… pro meu bairro ser lindo, forte e feliz
#2 por Thiago Leite - 29 de julho de 2009 às 16:21
Sem motivação-trabalho-lazer, o elemento do meio se torna uma dor.
Sem falar na responsabilidade… mas, lembra-se de Max Weber? Ser responsável no meio que você descreve é dar um certificado de aprendizado, não garantir que o aluno aprendeu. O que a escola espera do professor? O que os alunos (ou os pais destes) esperam da escola? Que ética você está seguindo ao dar aulas?
Percebi isso quando fiz um curso de inglês há uns 10 anos. A maioria dos alunos estava ali para passar o tempo e, de quebra, conseguir um “diploma”. Outros estavam ali a pago dos pais, e esperavam um milagre dos professores, talvez uma fórmula mágica que os fizesse declamar automaticamente o To be or not to be… Eu queria aprender inglês, eu gostava disso. E procurava ler livros em inglês, ver filmes em inglês com legendas em inglês, dicionários, guias, sites…
Minha esposa, ao atender clases de Español, procura em casa outros materiais para estudar, filmes espanhóis ou argentinos, sites na internet, como o Livemocha, gramáticas e guias práticos… E se diferencia do resto da turma. Tanto que foi chamada pelo professor para se candidatar a monitora. Ou seja, Paulo Freire, aprender é ensinar é aprender. Normalmente, os bons professores, interessados, são os que foram bons alunos, interessados.