Copio abaixo meu comentário no site da Carta Maior, que não foi recebido por que “ORA-01001: invalid cursor”, seja o que for que isto signifique.
“é preciso assegurar o fim da proibição à leitura de jornal. Também devemos elaborar políticas públicas – já que o mercado exibe sua incapacidade – para que os brasileiros assim como recebem do estado merenda escolar, remédios, camisinhas, dentaduras, bolsa família, também recebam jornais e revistas para a sua informação”
Parece piada, pois o Governo Serra esta dando conta disso. Não é dessa forma que o governo de São Paulo anda gastando verba pública para ajudar a Abril? Enviando Revistas Veja não só para escolas como para professores? Conhece a maldição do Gênio? Quando fazemos um pedido ele nos dá o que queremos de forma a nos fazer um mal maior que se não tivèssemos o que queríamos. A moral da história é sempre: tenha cuidado com o que você deseja.
Será que o público não lê jornal por ser iletrado, ou não lê jornal porque os jornais estão cada vez menos informativos, cada vez mais truculentos e sem-sentido?
Além disso, as empresas de mídia estão muito bem, obrigado. Seu ramo “jornal impresso” vai mal, mas isto também devido à concorrência com o ramo televisivo – inclusive a cabo. Há uma competição interna às agências de notícias, o que não quer dizer que a corporação dona delas esteja indo mal…
Por outro lado, há setores que pedem a democratização dos meios de comunicação, e a Confecom (a Conferência Nacional de Comunicação) está acontecendo. Espaço no espectro para rádios e TVs comunitarias é o que se deseja. Mas apenas para pensarmos a situação das rádios, uma grande parcela das que operam “legalmente” nem teve sua concessão aprovada – ela deve ser aprovada de tempos em tempos – e as rádios comunitárias são chamadas de piratas e seus equipamentos são queimados pela Anatel. Radios e Tvs são as mídias de maior alcance na população. Agora há a internet e talvez a midia baseada na tecnologia de Gutemberg esteja mesmo com seus dias contados.
O que toda esta mídia diria caso o estado começasse a imprimir um jornal? Será que os benefícios de tal projeto suplantariam isto? Isso pensando que haja beneficios de uma mídia impressa governamental.
O jornalismo já está morto há muitas décadas, desde que se passou de noticiar e dar informações à produção de conteudos segundo um mote – contra o Lula, a favor de Aécio. Pouco muda: a informação quase não existe mais. É sim, preciso re-criar o lugar e papel dos jornalistas, encontrar meios para que os profissionais serios possam ter mercado, e não creio que um impresso governamental vá dar conta do recado. A abertura para que agências de notícias desligadas do grupo oligarca que ai está pode.
A palavra não nasceu escrita. A palavra nasceu falada. Esta teima em achar que só o que se lê é cultura mesmo é uma posição retrógrada. Tanto em termos de cultura em geral – pois é invenção moderna que data do romance burguês a idéia de que o livro é para leitura individual e silenciosa. Livros, e mesmo o romance, como se vê em Cervantes, foram feitos para serem anunciados em praça pública e lidos para um público. Assim era, de Homero a Cervantes. Assim continua sendo em muitas culturas, que ouvem livros (audiobooks) e que ouvem palestras de intelectuais pelas rádios (tanto as culturas de fala inglêsa, francêsa e alemã, talvez outras). Adiciona-se a esta mania de achar que somente a palavra escrita tenha valor, a idéia de que só a palavra escrita no papel tenha efeito. Você falou de Gutemberg. Já visitou o “projeto Gutemberg” pela internet? Lá descobrirá que em muitas línguas o site bota à disposição os grandes nomes da cultura em bites a serem convertidos em textos nos computadores e a serem imprimidos e distribuídos gratuitamente para quem queira. Talvez o papel esteja mesmo com os dias contados.
O governo faz um blog e tem vários sites à disposição do público. Sites dos ministérios, por exemplo. Por outro lado, ele – o governo federal – pretende levar a internet às escolas. Não seria por ai, e não pela impressão de um jornal – que o governo poderia botar à disposição a palavra escrita? O que estamos fazendo para que palestras sejam transmitidas por rádios (se inclusive as rádios comunitárias dentro das universidades são fora-da-lei, seus equipamentos apreendidos e destruídos pela Anatel)?


#1 por Hugo Albuquerque - 19 de julho de 2009 às 23:29
Flavia,
O apoio franco e e incisivo da mídia impressa a Serra nasce da ideia de que se eleito, o atual governador paulista vá garantir alguma reserva de mercado ou coisa do tipo para atenuar seu fim precoce – como o Nassif colocou no belo post dele Último Suspiro de Serra.
Imprensa em papel está com os dias contados. Seja pela comodidade da Internet ou por questões econômicas e ecológicas – note, cada vez mais indissociáveis. Lutar contra isso é lutar contra o próprio avanço do capitalismo e é aí que vemos com mais clareza os contornos da natureza reacionária da candidatura de Serra – e o que dá pontos para a tese do Nassif.
Outro ponto que pode tornar a sobrevida da mídia impressa brasileira mais curta que de seus pares pelo mundo é sua própria e baixa qualidade. Quando Serra se alinha com isso, ele não apenas quer resolver os problemas de apenas alguns poucos grupos políticos, mas ele pretende fazer isso tentando mover os ponteiros do relógio da História para trás.