Suas moléculas começaram a perder coesão, assim como as da planta, do ar que seu peito cortava, se misturavam ao pavimento e o solo debaixo deste, começaram a se dissolver num gostoso movimento ondular que se prolongava na batida do seu pé contra a geléia do asfalto. Misturavam-se átomos de Juan ar, asfalto. O prazer que o invadia não era só seu: era do nitrogênio, clorofila, e cimento. O solo, com uma textura de teia de aranha, tocava-lhe as coxas, e continuava a penetrar-lhe em direção à braguilha. Todo ele, solo, planta, ventavam rumo à porta de entrada: o gerente o recebia como de costume, já não era gerente, continha uma difusão de ar e máquina registradora com notas verdes macias. Seu sabor se misturava ao das pastilhas de menta e chocolates, e aos números das notas e partículas soltas das fotografias de mulheres gostosas vindas de dentro das revistas. Anita, aquela delícia cujos seios vinham com moléculas de suor e leite aos seus lábios, partículas de gozo em dar ordens, o gosto salgado e metálico das bancadas de salgadinhos próximos ao caixa, carregados por marés de fótons vindos das estantes de cerveja.
O som do alarme. Ah, só mais um pouco… Suas pernas o empurram para fora da cama quente num movimento lento e deixa sua vontade sobre o travesseiro tão bom. Alarme de novo. Aperta o botão do relógio e olha o número que pisca: lembra o que significa aos trancos.
Já de café na mão, Juan sente o calor penetrar seus dedos e o aroma a lhe inundar o cérebro. Sorve, enquanto seus olhos se dirigem ao jornal que Carmen empurra em sua direção. Carmen. Raios úmidos de sol gelado refletiam sobre sua face inchada de sono. Ela é tão bonita.
“Muñequita…” ele mia. Ela volta seus olhos que se achinezam num início de espreguiçar.
Seus olhos lambem as notícias e sua língua se inunda de café quente. Subway collapses in Brazil. A las personas se las tragó la tierra… autorities discuss responsabilities… Metro company, técnicos del gobierno y de las constructoras. The major declares…
Seu pensamento se transporta no tempo e no espaço: Lembra-se de algo que ouvira na sua infância em Peñuelas, o padre dizia do pó viestes, e ao pó…
Olha a hora. Preciso acordar.
Sentia-se estranho. A voz de Carmensita lhe acariciava as orelhas, mas ele não compreendia. Era preciso fazer um esforço. O gato ondulava por suas pernas. Sua mão vai mecanicamente acariciá-lo. A hora. Café. Vai como autômato e gira a água quente. As roupas com cheiro de sono viajam por sua superfície, sua cabeça passa pelo buraco da blusa. Sua pele nua sente o ar gelado da manhã.
Chega pela porta e o gerente de cara amarrada. Ele sabe o que fazer: vai cumprimentando os amigos: Diego está colocando o cartaz de preços de ofertas do dia. Peter, um dos poucos nascidos naquela cidade de merda, é um pé no saco e ele faz que não o vê dando ordens à Anita, quando ela é funcionaria assim como ele. Imbecil. Pablo, Buenos dias, Hagalo bien hecho! Ele responde a brincadeira dizendo: Si, mi general! Entra pelo estoque e pega as caixas de leite. Meia hora para abrirem as portas. A multidão se acumula à porta. Seus braços treinados colocam as caixas. Pronto. Vinte e cinco minutos. Carlos lhe dá buenos dias, mientras lhe passa shampoos que ele leva à estante certa. Arrumado. Quinze minutos. Coloca as tarjetas de preço no balcão dos chocolates, junto com o representante da Nestlé que arranja o produto na prateleira mais aos olhos das crianças enquanto o gerente lhe ralha que falta alguém pra receber as frutas que chegam. Cinco minutos.
Uma bomba de adrenalina lhe invade as veias, enquanto Juan ao chão vê em câmera lenta solados de sapato e pacotes refletindo muitas cores enquanto caem em direção ao seu corpo. Sua cabeça de encontro ao piso vê e sente muitas coisas: relembra um sonho esquecido enquanto sente o cheiro de shampoo dos banhos tomados cedo, a marca de desodorantes que Pablo arrumara à pouco nas prateleiras lhe chega à garganta que se aperta sob o peso. Vê o rosto de Carmen, e sente o gato como teias de aranha a roçar suas pernas. Por fim, transporta-se no tempo e no espaço e por um breve instante é um menino sentado ao banco da igrejinha de Peñuelas. Do pó vieste e ao pó voltarás são palavras que lhe acariciam as orelhas. Palavras que ele apenas sente e não ouve mais.


#1 por Eduardo Prado - 12 de julho de 2009 às 16:15
A las personas se las tragó la tierra…
Isso quando obrigações, contas, números, ordens e preocupações não nos tragam primeiro…
Adorei!
#2 por Flavia - 12 de julho de 2009 às 16:40