Este texto surgiu no espaço de comentários do post “Respostas a Algumas Perguntas Frequentes”, do Biscoito Fino e a Massa, em resposta a Alexandre Nodari, que comentou eu.
Alexandre,
“Essa história de “formar uma rede” é totalmente equivocada, mesmo se for caso de ativismo. Formar uma rede é o que as empresas e instituições tentam fazer.”
Então me diga como ficam os “cidadãos” atomizados frente a um poder que ele desconhece, de entranhas burocráticas e de conchavos, um sistema muito acima e para além dele. O “cidadão” (coloco o cidadão entre aspas e explico depois) … o “cidadão” moderno me lembra o ser humano pintado por Benjamim na modernidade da guerra: seu frágil corpo nada pode frente à imensidão de uma máquina de guerra.
Assim também é a política. Ao “cidadão” se dá o poder de apertar os botõezinhos de quatro em quatro anos. Sujeito a uma máquina de propaganda, uma máquina de CPIs e de criação de discursos, uma máquina cujos entremeios Kafkanianos ele desconhece, ele vai com fé (?) de quem por fim, sabe das coisas, apertar botões a cada 4 anos.
Quando se pega um assunto de interesse cidadão (sem aspas) – pois
não se está a tentar a fama por meio de uma discussão qualquer acerca da vida de Michael Jackson, mas de um processo que envolve um sem-número de brasileiros e que vai retornar -
na forma de leis à todos os brasileiros como norma, à qual
todos, mesmo que não rousseanamente envolvidos na feitura da lei que obedecemos, mas num momento posterior, no momento de sua
aprovação, atinge a todos como suditos desta república, e é,
portanto de qualidade diversa de qualquer outra discussão de blog, ou post.
Quando se deixa de ver que um post é qualitativamente diverso de outro, estamos num mercado de posts.
“toda manhã, para ganhar meu pão
vou ao mercado, onde se compram mentiras.
cheio de esperança
alinho-me entre os vendedores.”
(Hollywood, Bertold Brecht, tradução de Aroldo de Campos)
E como todo post, e assim, todo blog, é equivalente geral, passa-se a aplicar a ele as regras da troca como se fora um equivalente, uma
mercadoria qualquer. “Michael Jackson”, “Madona” e “disputa entre movimentos sociais e empresariado pela democratização ou manutenção das coisas como estão” passam, no universo de blogs, que me parece um mercado, a estarem sujeitas às mesmas regras de troca, de propaganda indireta (já viu que a propaganda hodierna não é direta? ela não diz: compre isto para fazer X, ao contrario, ela diz “o produto Y é tããããão legaaaalll, e nem diz o porquê).
Por isso se aplica a mesma regra a tudo, assim como no mercado a mesa (primeiro capítulo de O Capital) feita com arte, que leve ao artesão a sua vida para compor, tem um preço e entra na mesma régua monetária que a mesa feita em dois segundos pela indústria. São mercadorias, e isso lhes rouba a qualidade, ou o espírito – têm cada qual apenas um valor de troca, que as torna comparáveis.
Portanto, o pedido de linkagem é todo – cada qual – todo comparavel por que denota cada um, sem diferenças, uma e só uma
coisa, ou (será que?) a cabeça do blogueiro só pensa por meio de uma regra que reduz tudo ao mesmo mercado de trocas? E, dentre as moedas de troca estão as linkagens e dentre os prêmios a fama e os pêmios de melhor blog. A estas regras são submetidos todo e qualquer assunto (?), a partir da chamada “boa maneira blogueira”, como se os assuntos não fossem de qualidades e esferas distintas (tanto Michael Jackson quanto Confecom tem o mesmo valor de
troca, como se do ponto de vista politico eles fossem a mesma coisa?)
Assim, toda a proposta de formação de rede aparece no mercado de posts como se fosse a formação de quadrilha visando a fama, ou o prêmio, pois o “blogueiro” já não vê diferença entre isto e um ativismo “saudável”, uma alternativa do “cidadão” atomizado frente à máquina politica, uma tentativa de invenção de um mecanismo político não tão novo, mas modernizado (todo sujeito político torna-se político não pelo isolamento, mas pela associação. que esta se faça por blogs é só usar o recém-existente para re-criar em novos termos o previamente existente).
Deixa-se escapar as brechas que existem como se fossem coisas “que só empresas e instituições fazem” (?). (a respeito de instituições, me lembro como se fosse ontem o momento em que deixei a minha infância conceitual e passei a entendê-las de outro ponto de vista: foi quando, num banho de água fria, uma professora de sociologia disse que não é porque as instituições tenham um mesmo nome – como “escola”, por exemplo – que elas representam a mesma coisa: passei a tentar enxergar para além do nome, cada instituição em particular – por ex, sabemos que PT e PSDB estão sujeitos às mesmas regras do jogo polítco, mas ao mesmo tempo são instituições diferentes, para além das regras que as moldam grosso-modo).
Mas voltando à essa ideia de que “redes” é o que empresas e instituições fazem: isso quer dizer que o recurso é eficiente, e por isso as esquerdas perdem campo em deixar de fazê-lo, pois abrem um vacuo ocupado pela direita e com isso abrem seu flanco, ou que é um recurso do mal? Não seria ingenuidade pensar dessa segunda
maneira?
Partidos também caberiam nisso – é coisa de direita. Vamos abandonar os partidos então. Formação de opinião, através de textos tambem. Não é o que a Folha faz? Vamos também abandonar isto, pois deste ponto de vista, os blogs e a imprensa escrita não passam da mesma coisa. É coisa de direita. Vamos voluntariamente nos atomizar e vamos ver o que acontece. Pensar assim é um acerto ou um erro? Você me responde.
Entre os n projetos de estudo que faço, elaboro um método topologico para a análise da internet. É discurso comum que redes “brotam” “espontâneamente”. Do ponto de vista da análise dos discursos, essa ideologia se aparenta tanto à ideologia de mercado, onde a mão invisível trabalha para que a bonança se estabeleça, e segundo o qual os grandes oligopólios não são se não o fruto de um mérito – da capacidade de produção de produtos bons que são reconhecidos pelo mercado, que nesse segundo momento é o composto de consumidores atomizados que gostam da qualidade do produto, compram e assim “brota” “espontâneamente” uma marca forte. É também um discurso que bebe nas fontes de discurso biologico. “Brotar” e “espontâneo” são coisas que remetem ao crescimento vegetal.
Mas, invertamos a analise. Quais os limitadores de acesso de textos pela internet? O primeiro é o mais obvio: a linguagem. Para além disso, há mecanismos que enquadram a busca: O Google, por exemplo, tem um procurador. Quais os parâmetros deste procurador? São vegetativos e “espontâneos”, ocorrem ao sabor do acaso, ou eles têm, por um acaso um formato que impõe uma
hierarquia aos textos? Agora, digamos que, finalmente, você achou
um site. A partir deste site você tem links: eles abrem “espontâneamente” seu acesso para tudo o que existe, ou limitam seu acesso a links escolhidos por outros? Vamos pensar nos blogs, e
tomemos como parâmetro as ferramentas comuns, o blogroll, por
exemplo. Como é que você inicia as suas leituras? Por procuras por
palavras-chaves diretamente no Google, ou por seu blogroll, onde
você se utiliza de um mecanismo de restrição para abrir outras páginas, onde os links remetem a outros escolhidos por outrem? É espontâneo isso?
Ser sociologo é desconfiar de tudo: inclusive do mais “óbvio”, pois o
óbvio é na maior das vezes, discurso ideológico. A pergunta acima é
apenas isto: uma pergunta. Não é uma afirmação, não é uma conclusão. Se trata de uma pergunta de alteridade (pela qual o pesquisador assume uma postura antropológica de perguntar
sobre as coisas mais óbvias para poder encontrar o que há de não-tão-óbvio, o que no caso tem cor e cheiro de uma super-estrutura condicionante). O mesmo ocorre com os Feeds: eles abrem ou limitam a leitura ao que sai nos Feeds assinados? Por conta disso eu dou precedência à procura pelo google, não assino Feeds, abro blogs de comentaristas, dou precedência ao espaço de comentário e não ao post, mas mesmo assim, retorno aos blogs que gosto, como este. Na verdade, nenhum procedimento é antítese
completa às ferramentas de procura, pois o google tem suas regras e os comentaristas estão também seguindo links específicos.
Do ponto de vista da análise sociológica que procura como um objeto “grupos humanos”, esta restrição por mecanismos assumidamente “neutros” seria capaz de formar grupos? Como definir isto sociológicamente? A hipótese é que sim, há a formação de grupos, e por mais frouxos que eles sejam, pois admitem mais e mais leitores e assinantes, as ferramentas às quais cada um que entra no grupo (seja por meio de uma procura por interesses, seja por outras vias) se submetem não são “neutras” nem “espontâneas”. Aliás, Alexandre, me dê uma definição de “espontaneidade” que poderemos discutir isto melhor.
Estamos, por exemplo, em um blog (refiro-me ao Biscoito Fino), um
dos muitos, que tem uma percepção de si como membro de um grupo: “blogosfera crítica”, por exemplo, é uma das auto-denominações espontâneas deste grupo humano que se comunica e se forma a partir das linkagens de seus blogs. Espontâneo quer dizer, aqui, a percepção (não informada metodologicamente, mas por se fazer parte de uma dada cultura) de que se faça parte de um grupo social. Por menos que se possa medi-lo e por menos que esse grupo seja fechado, a percepção espontânea pode estar informando algo ao sociólogo: que este suposto grupo tenha suas fronteiras (eu sou diferente dele, eu sou mais parecido com estes, sim, uma coisa tribal).
Como passar da percepção social do indivíduo em seu grupo à ferramentas sociológicas de analise? É por isso que uma das minhas
inspirações neste projeto sai da geografia pós-moderna: a análise do
espaço – que tento subverter para a análise do espaço virtual – segundo a qual, pela análise das vias de circulação no espaço se chega a um desenho do espaço distinto do mapa produzido a partir de uma medida métrica. Por meio desta geografia é possível evidenciar que, por exemplo, apesar de Paraisópolis estar metricamente muito perto aqui de casa (moro no Butantã), o Butantã está, na verdade, estudando-se a circulação dos grupos sociais, muito mais próximo da Avenida Paulista do que de Paraisópolis, e ambos, Butantã e Av. Paulista, estão muito mais próximos de Campinas, por exemplo, do que de Paraisópolis,
apesar de que pelo mapa métrico possamos ter uma idéia distinta
disto. Há mais distinções no espaço – e também no espaço virtual – do que supõe a nossa percepção métrica rudimentar.
“as redes se formam”. Tá ai um bom mandamento de Deus, o novo deus que devemos inscrever na nova tábua dos mandamentos da “ética blogueira”, ou do “manual de bom-tom da internet”.
Não sou contra manuais de etiqueta. Eles normalmente explicitam regras de convivência que impõem uma ordem, e se o mundo não tivesse uma ordem, eu nem saberia o que fazer quando me levanto de manhã: andar de bike, trabalhar, tomar banho, comer macarronada, tudo isto ao mesmo tempo, ou numa ordem especifica? Meu senso informado culturalmente põe estas atividades em uma ordem compatível com a ordem do mundo, o
que é, de certa forma, bom para mim.
No entanto, é preciso notar que o fato de comermos cereais e não feijão (bom, ele também é um cereal, do ponto de vista botânico) no café da manhã não é uma escolha meramente informada pela nossa vontade, ou pela “razão pura”, mas culturalmente ordenada.
Segundo, regras são produtos histórico-sociais que tendem a simplificar as coisas, e uma de suas benesses é tornar a vida mais simples (imagina, se a cada manhã, eu me pusesse a considerar todas as fontes possíveis de nutrição, o seu balanceamento, o que é ecologicamente correto consumir,etc). No entanto, é preciso lembrar que não é porque as regras tornem o mundo mais simples de lidar, que o mundo corresponda a estas regras e seja, por isso simples. Não é. O mundo é complicado.
Terceiro, é preciso lembrar (se quiser uma citação eu indico Norbert Elias, mas não é o único) que regras sociais – como a etiqueta – surgem em manuais escritos (como acima, mas existem
outros) não só para elucidar aos que pertencem ou adentram um grupo social o que é de bom tom, e por isso torna-se a convivência harmoniosa dentro do grupo, mas em geral as regras de costumes viram obras escritas quando é preciso diferenciar os pertencentes ao grupo dos não-pertencentes ao grupo, e demandar que se alguém passe a pertencer a um grupo, deve agir segundo as regras
prescritas. Nos séculos por volta de XVI, XVII, começam a surgir manuais de comportamento à mesa, de comportamento em ambiente público, não só por que as esferas público-privado começam a se diferenciar (em Elias lemos que não se deve dirigir
a palavra a alguém, caso no momento ele esteja defecando), mas também por que começa a surgir uma classe de “novo nobre” (os burgueses que compram títulos de nobresa) de quem o nobre de sangue quer se diferenciar. Nestes tempos é possível vislumbrar o mesmo ocorrendo nos blogs. As regras de pertencimento ao grupo precisam ser explicitadas (e apesar de socióloga acreditei que uma racionalidade politica pudesse suplantá-las) para manter um padrão de convivência, mas também para ditar o que é de bom-tom e o que não é, e assim impor a diferenciação entre blogueiros (cujo ethos está ligado a um tipo de regras blogológicas) e o ativista (para dizer que este não é espaço de ativismo: o ativismo pertinente é so aquele que sai “espontaneamente” de blogs, e que diz respeito apenas ao que os blogs tenham em comum entre si – para dentro do grupo – e não com outros loci da sociedade – ou o que os blogs tenham em comum com os de fora. esta me parece ser uma das razões porque os blogs se movimentam em torno da Azeredo, mas não em torno das liberdades de expressão em geral).
Os movimentos em torno da Azeredo foram a inauguração da forma de ethos político que sai dos blogs. Foi legal, mas este modelo que saiu do não-à-ditabranda inaugurou também um modelo que vira um mito (é recorrentemente citado por blogueiros quando questiono suas formas de participação política) e constitui, atualmente o padrão, a norma de como deve ser a movimentação política partida de blogs. Mas por mais que um modelo seja legal, é sempre interessante questioná-lo e colocar novas perguntas a ele. Se é fato que há regras que delimitam, impelem e também limitam este jogo, por que não ser ciente delas, ao invés de ficar repetindo as palavras de ordem “espontâneo” e “brotamento”? Não seria legal, para além da ciência sobre as regras explícitas e não explícitas, passar a pensá-las, modificá-las, armar estratégias a partir dessa crítica e reformulá-las de maneira politicamente coerente? Se você deixa de fazêlo, serão, como você mesmo disse, as instituições e as empresas que o farão.
A denominada (auto-denominada ou denominada por outros) “blogosfera crítica” nasceu de um impulso muito consistente: usar uma nova tecnologia a partir da qual todos podem se tornar formadores de opinião para, exatamente, fazê-lo. Mas, mais do que isso, nasceu de um impulso re-ativo às besteiras ditas pelos Jornais. Outro detalhe, é que ela remete prioritariamente ao discurso escrito e tende a enxergar quase que necessariamente apenas ele (isso se deve, creio, ao fato de que a blogosfera se apoia no escrito, não na formação imagética das opiniões e nem à formação oitiva das opiniões, universo estranho a ela). Dessa forma, a blogosfera critica elegeu, numa ação reativa, a imprensa escrita como seu inimigo. Como cada grupo humano tende a acreditar que o seu grupo é o centro do mundo (nenhum ser humano jamais deixou sua tribalidade pra trás), e portanto, o seu inimigo também é o inimigo da humanidade, então a blogosfera crítica tende a se ver como o salvador do mundo por meio do texto escrito, numa batalha de Titãs, contra o inimigo público número um, que seria a imprensa escrita, denominada “grande midia”. Mas os números mostram que se de fato a mídia for o inimigo público número um (há, talvez outros inimigos a se adicionar a esta lista), a “grande mídia” não é a mídia impressa, pois TV e rádio atingem num fluxo muito mais ininterrupto e com poder de penetração muito maior, o conjunto de uma população.
Um exemplo foi o uso de imagens pela TV do que ocorreu em 8 de maio 9 de junho na USP. A questão do editoramento das imagens, a forma como elas são recortadas, colando-se a elas um discurso falado remete às técnicas de cinema e lembra um filme de Rambo: apareceram imagens colossais, tomadas por câmaras aereas, do poder do estado em forma de helicópteros. Talvez eles fossem 2 ou 3 (não contando o helicóptero de onde as imagens eram captadas, mas eles se transformaram, no nível da percepção num esquadrão de uns vinte. Isto devido não só à editoração, mas ao poder do campo-contra-campo, e lembravam-me a análise de Rovai (Livro chamado “Imagem, Tempo e Movimento: Afetos “Alegres” no Filme o Triunfo da Vontade”) de como o acontecimento (o Congresso Nazista de 30 e pouco) foi montado não para ser ele mesmo grandioso, mas para que a imagem deste fosse grandiosa (e assim deixar para a posteridade o que a cultura nazista denominava de ruína, o monumento ao qual a cultura remete como fundador de sua tradição). Voltando aos helicópteros sobrevoando os frágeis corpos de estudantes (estou traumatizada, hoje em dia basta ver um helicóptero para me sentir pequena e revoltada, isso é o poder destas imagens – elas dizem: cidadão, você não passa de um frágil corpo sob o poder de um estado moto-serra), o écrã os multiplica, pela coreografia de helicópteros que passavam sob o espaço aéreo da tomada da câmera, em 20 helicópteros, utilizando-se do fato de que a manobra de retorno do helicóptero está fora do campo (do écrã).
(o vídeo que vi não foi bem este, mas era parecido. do ponto de vista da montagem era muito mais “artístico”. é possível que eu ache que era Globo por tê-lo visto da Editora Globo?)
Nas tomadas próximas, apareciam explosões, talvez mais fumaça que fogo, mas ainda assim muito eficientes imageticamente, e corpos de estudantes saltando para longe da explosão )o que parecia, ou lembrava, da imagem cinematográfica da explosão como algo que produz um movimento de ar tão forte que lança os corpos centrifugamente. Mas, para além da própria forma como foram confabuladas as imagens do real, está o próprio fato de que tais imagens apareçam na mídia, e há ai um fenômeno muito mais perverso, de longa datação.
Quando as vi, além do meu estômago virar, passei a me perguntar: Que deu na Globo? Agora, será que a mídia passou de construtora de um discurso (imagem, fala e escrito) acerca do real, e passou a ser delatora de um estado perverso, ou será que há mais coisas entre a imagem e o real do que supõe nossa percepção socialmente emoldurada? Há algumas décadas os estudantes diziam que a mídia não mostra o que acontece: os movimentos estudantis somente apareciam em imagens como “impedimento de tráfego” (o que constitui um dos níveis deste discurso – perverte-se os ideais datados da revolução francesa num discurso de “liberdade do ir e vir”). Neste momento aparecem imagens do real desnorteadoras para mim, que não sou parte do grande público de Rambo, mas será que as mesmas desnortearam o grande público de Rambo? Ou será que por um (não tão longo) processo de educação dos sentidos este público está habituado a assistir as imagens (que me impactam como horror) como espetáculo, como entretenimento (a forma de transformação do tempo de não-trabalho em mercadoria a ser consumida), como lazer.
Para além disso, não está este público do Rambo acostumado a torcer por Rambo (que de um outro ponto-de-vista não seria mais que um covarde, detentor de todo o poder de fogo que um estado bélico e imperialista possa oferecer, e agindo em nome deste) como se ele fosse o mocinho, o “prince charm” que deve ganhar a batalha? Quem era o Rambo do filme da Globo sobre os ocorridos de 8 de maio 9 de junho na USP? Os estudantes? Não. A polícia? Dias depois desmarquei aula para ir à manifestação que não saiu (dia 10) devido à chuva, e mais uns dias depois, meus estudantes disseram “esse povo da FFLCH gosta de apanhar, eles têm mesmo é que apanhar”. Vi este tipo de opinião em muitos outros que assistiram comento pipoca, às imagens na TV.
Retornando deste longo percurso, eu me pergunto: será mesmo que a Folha de São Paulo é o inimigo publico número um? Ou será que o inimigo público número um tem seus vários ramos, imersos nas mídias, nos institutos de pesquisa, nos discursos científicos, no cinema, atacando-nos na nossa hora de recreio, de lazer, e de leitura informativa, na forma de educação, de informação, de entretenimento, e como diz Clara Crocodilo, escondidos nos nossos cérebros, esperando o momento oportuno para nos atacar e aos nossos entes queridos?
A desconfiança com relação à quebra de uma regra: será ela apenas a manutenção de um ambiente em termos aceitáveis para todos os que façam parte dele, ou terá ela características mais perversas, mantenedoras de uma realidade social tal qual ela está?
“A massa ainda comerá o Biscoito Fino que fabrico” (Oswald Andrade)


#1 por Flavia - 25 de julho de 2009 às 21:48
Sim, Edu,
A formação de panelinhas é a coisa mais comum do nosso proceder tribal. Mas vou ser sempre uma frustrada com o mundo dos homens, pois acredito na racionalidade, e vejo outros, que como eu quebram a cara.
Durante a greve na USP, que como disse em outro post, não começou da parte da maioria dos alunos (os que entraram nela, pois há uma grande direita de alunos USPianos produzindo tudo de mais truculento contra inclusive o sintusp e defensores do “tem que apanhar”) … da parte dos alunos que aderiram, a adesão não veio de um sentimento de preocupação pelo funcionariado da USP. O funcionário que se dane.
Age-se como se a USP fosse formada apenas de professores e alunos. E, no entanto, de um certo ponto de vista, os funcionários são não só a parcela da USP mais preocupada em demandar uma universidade de fato pública (entre outras coisas é isso que eles demandam, enquanto a maior parte dos professores está feliz em vender seu trabalho para empresas, fazer “cooperações universidade-empresas”, dar aulas nos cursos pagos que proliferam na universidade, ou seja, a maioria vende o rincão que lhe cabe da usp numa boa). Comparados aos alunos, que são categoria bem temporária (ficam na universidade uma média de 5 anos), os funcionários têm toda uma vida de relações com a universidade, e isso se evidencia numa sabedoria e carinho todo deles com a instituição. Sem eles a USP nao acontece. Mas não são vistos como parte da universidade.
Porque estou dizendo isto: por que é dessa mesma forma que a blogosfera se relaciona com a mídia que ela entende que não lhe cabe, e com os grupos sociais que lutam contra esses poderes: como se eles não existissem. A mídia impressa não existe sozinha nem como força: ela se apoia nas outras mídias. Dia desses fui ao sindicato dos Radialistas de São Paulo e acabei pegando um impresso deles. Por este impresso fiquei sabendo de uma face ainda mais perversa dessa desregulamentação das profissões: a blogosfera fica nesses termos de transformar os profissionais em bicho papão e não se sabe da missa a metade. Pela publicação do Sind. Radialistas fiquei a tomar consciência de quantas dessas emissoras, inclusive de TV, não pagam salários, cobram por seguros saúde, utilizam-se de serviços sem contratação, etc. Fico só imaginando o quanto também os jornais não o fazem. E nós em nossos blogs discutindo como se a desregulamentação da profissão de jornalista fosse acabar com os jornais. Não vai. Vai juntar mais um a esse grande processo de desregulamentação das profissões que um dia chegará aos professores, e sei lá mais que profissionais. Como professora de línguas esta já foi desde sempre a minha realidade profissional.
Falo também sobre isso por me recordar de um aluno que admiro muito – bom, ele e mais um grupo de amigos dele – que não se isola entre os alunos, como as panelinhas demandam. Quando a coisa saiu ele foi ver os funcionários, estava atento desde antes de chegarem os policiais e é uma das pessoas que conheço que tem a avaliaçao mais ampla, menos panelinha que conheço. Ele também se frustra, pois está ciente que os alunos (os que entraram na greve) não estão muito a fins de ir fundo nesse assunto, ou seja, desde que não tenha polícia na usp, eles também tão pouco se fudendo que a usp terciarize suas funções, que a reitoria aterrorize seus funcionários com demissões e tranferências pro raio que o parta, estão pouco cientes que pouco a pouco este tipo de procedimento venha a atingir professores no futuro e que já atinge alunos (como foi o caso de alunos grevistas em 2004, expulsos (o processo foi recuperado, mas expulsão é mais que jubilamento: quer dizer que você jamais pode ser da universidade de novo, mesmo que passe por vestibular). Os funcionários estão cientes disto. Os alunos não. Os professores que estão por dentro não tem o que fazer,pois a sua categoria na sua maioria está sub-locando o que pode para escapar à pauperização devida ao achatamento de salarios.
E se já somos uma grande república das bananas, no futuro pouca capacidade de produzir know how e alternativas econômicas nos restarão. Espero que o mesmo não esteja ocorrendo com as outras universidades que são centros de pesquisa, mas creio que minha esperança seja vã. Seremos grandes produtores de cana que mata e escravisa, soja que envenena e torna-nos dependentes da monsanto… enfim, uma verdadeira África.
#2 por Eduardo Prado - 25 de julho de 2009 às 15:34
Acho a formação de redes de blogs, em torno de interesses comuns, algo natural. O mesmo acontece no trabalho, onde também se formam redes de colegas afins, são as chamadas panelinhas. Na escola e na faculdade ocorre a mesma coisa. Novos membros são incorporados desde que pertençam a alguma teia dessa rede tipo um amigo do amigo do meu amigo. Uma rede de relacionamentos ou de opiniões precisa ter uma razão de ser para ser relevante e atribuir qualidades aos membros da rede, para isso ela precisa se diferenciar de outras redes e reforçar essa diferença, inclusive elegendo um inimigo comum. Isso vale até para países. Nada une mais os cidadãos de um país em torno da idéia de pertencimento à pátria que um ataque estrangeiro.
Eleger a Grande Mídia como a inimiga número um faz sentido, já que ela também faz parte de uma grande rede subdividida em centenas, provavelmente milhares, de outras redes menores, mas não menos relevantes. Não conheço o aluno que comentou o estranho gosto dos uspianos em apanhar da polícia, mas arrisco pensar que esse comentário teve origem numa opinião formada através da Grande Mídia, que seleciona as imagens que vão ao ar e quem será ouvido. O grande mérito da blogosfera é divulgar as informações que são ocultadas pela Grande Mídia. Hoje é muito mais fácil, caso se queira, conhecer versões diferentes sobre o que é noticiado. O problema é que muita gente prefere confirmar aquilo em que já acredita do que procurar outros argumentos, ou seja, prefere continuar pautando suas opiniões pela rede que acompanha e que, de alguma forma, também faz parte.
#3 por Luis Henrique - 22 de julho de 2009 às 0:49
Flávia,
Por quê não tenta o Linux? Faça como eu e filie-se à ‘legião do pinguim’!
PS: a-do-rei o seu post (he, he)
#4 por Flavia - 22 de julho de 2009 às 6:45
Oi, Luis Henrique!
Eu hojindia só digito do meu acer aspire one (o espirro), que foi feito pra linux. quando comprei eu achava que ia ter ele com o linux, mas no brasil só vem com windous. longa história depois, por que não dava sem dvd externo pra instalar… agora eu tou sem tempo de passar pro linux…
mas concordo, o linux é tudibom, eu quero ele um dia em que tiver umas ferias de verdade pra dar tempo de aprender a usar…
#5 por Flavia - 21 de julho de 2009 às 20:51
Puta merda, meu! Eu sou persegida pelo ilegismo. Uma hora uso o word-for-windows, e dá pau. (no espaço de comentário dos outros, e pega mal e eu fico com cara de brucutú), depois eu uso o bloco de notsa e dá pau, no mesmo lugar, e eu fico com cara de urubú, daí eu uso o word, colo no bloco de notas e colo no comentário, e o texto não é aceito (como ocorreu na carta maior, post abaixo).
Neste o texto deu um tal pau no bloco de notas que colei ele no word, usei Ctr L para localizar os parágrafos(^p), usei todos os caracteres especiais, fui no bloco, copiei de novo, colei sem formatação, reverti o arquivo pra RTF, fiz o car…alho, e nada do wordi-fô-indous localizar e arrancar os paragrafos. Tive que tirálos um por um manualmente enquanto cantava a música dos Beatles… I’m soooo tired, I haven’t slept a wink. I’m sooooo tired, my mind is on the blink…
O Bill Gates me persegue. É pessoal. É comigo.
#6 por Flavia - 21 de julho de 2009 às 20:56
Eu mesma,
Você está simplificando a coisa: na verdade você está sendo perseguida pelo Bill Gates e pelos templates dos blogs, que abrem um espaço do tamanho próprio só, apenas, para ser possível dizer “oi! a-do-rei o seu post!!! Sou sua fã. Passa lá no meu blog!”
Nenhum template tem um espaço de comentários do tamanho que você quer, minha filha, vai continuar passando carão, baby.