(vou deixar as linkagens para amanhã. como sempre, saio pra dar aula. Atualizado, agora 3/jun)
Faz um tempo que li o que escreveu o Maurício, mas, como dizia um amigo: “me quedei paralisada”. “Que nem cocô gelado”, era outro dos seus ditos. Fiquei sem palavras, mas acho que depois de dias deglutindo (lembro que levei semanas para achar alguma coisa sobre o filme “Sangre” – no fim achei genial, mas levou muito tempo ruminando – é um filme para nietzscheanos). Eu vou mudar de assunto para botar a coisa – propor – um outro foco possível.
Agora vem a frase de efeito – pra chocar (aviso, por que o ministério da saúde adverte . coisa e tal): A blogosfera crítica é, sem redundâncias, o que acabou-se de dizer: crítica – mas continua presa numa relação amor-ódio (ou amor apache, se preferir) com a grande mídia. Porque digo isto: Uma história, para acontecer tem que sair em algum lugar. Algum lugar significa a Folha, the Guardian, ou as Editoras. Por melhores que esses meios midiáticos sejam, passam por um processo de filtro. O livro, na melhor editora, passa por uma triagem que leva em conta seu potencial como mercadoria. Como disse Marx, no capítulo o Fetiche da Mercadoria, sobre a mesa (como um exemplo), ao se tornar mercadoria a mesa já não é mais mesa. Torna-se, pelo processo de fetiche, em algo que não é seu valor de uso, mas seu potencial como valor de troca. Adquire, sob esta roupagem o poder de tornar-se (ela – uma simples coisa) em sujeito (chamado pseudo-sujeito, pois na realidade o sujeito são os homens em sociedade) e como mercadoria tem o poder (ilusório) de fazer coisas. Assim é, que o conjunto de mercadorias unidas na entidade abstrata chamada mercado seja capaz de fazer coisas – determinar as ações do sujeito real. Em outras palavras, quando se diz que se faz algo porque o mercado ou quem sabe a (su)realpolitik, né,Hugo? Ou foi o Edu? (desculpem, a gente discutiu tanto os três juntos que acho que ajuda vocês diferenciar pelo fato de eu ser mulher, e eu a confundir pelo fato de vocês serem rapazes, fetichizei vocês por meio do meu fetiche masculino, transformei-os numa entidade abstrata HugedÚ ou EdUdugo) assim quando os sujeitos se despojam do poder e capacidade de sujeitos e se auto-identificam como objetos, pois dizem que fazem ações não por que querem, mas porque uma entidade fora e acima deles assim o determina, está fechado o ciclo do fetiche (palavra que quer dizer tão somente dar vida a um objeto inanimado, como fazemos com o filme, posto que é só projeção de fótons sobre uma tela branca).
Estamos, como dizia no argumento anterior, fechados num ciclo de fetiche – só realmente acontece o que foi publicado. Faz parte desse fenômeno a questão da autoridade, socialmente conferida, não ao bom argumento, ou à questão pertinente, ou à autoridade do contista, que como Benjamim elabora num texto sobre o narrador, é não aquele que vivenciou, mas que ouviu – não leu – ouviu alguém contar. Nenhuma destas autoridades conta muito.
Conta a autoridade socialmente conferida àquele que escreve: um acadêmico que recebeu sua tarja acadêmica dada por um grupo de especialistas acadêmicos que o avalia dentro dos moldes da produção científica, ou um autor de livro, que recebeu sua tarja de bom autor dada por uma autoridade que o avalia como mercadoria, ou pior, a autoridade conferida por um jornal ou revista, à qual apesar de sermos críticos, continuamos a reproduzir e polemizar, conferindo-lhe autoridade, ainda que seja através da crítica (falem mal, mas falem de mim). Noto que esse fenômeno ocorre inclusive com respeito aos blogs mais populares – o que lá sai é o que está ocorrendo de fato, se não sai lá é sem importância, essa autoridade é, como na academia, conferida por pares, ou seja, outros blogs. Mas eu pergunto – de onde sai a história, de onde sai a notícia, se não de uma pessoa, que nada mais é que uma pessoa como as outras pessoas – que sentou para escrevê-la? Não a autoridade, mas o reconhecimento de um bom conto ou um bom argumento, deveria vir da relação de cada leitor com cada autor. Que autoridade tenho eu, por exemplo? Sou uma especialista em Confecom, é assim que doravante deverei ser tratada? Ou como uma simples pessoa, que foi atrás ou presenciou assuntos, e que simplesmente, como qualquer outra pessoa que fora alfabetizada, escreve? Que autoridade é essa que vem na cabeça dos sujeitos, através do fetiche?
Outro dia escrevi sobre um imbróglio que ocorreu na virada cultural, deixei o e-mail da prefeitura, para aqueles que também vivenciaram a coisa reclamassem, se quisessem, e o que consegui? Fui visitada por outra pessoa que vivenciou a coisa e prontamente ela, em vez de escrever um email também e tomar nas rédeas a sua capacidade de sujeito, prontamente se coisificou (verbo aplicado por Marx àquele que se transforma em objeto – não é transformado: se transforma – como sujeito de uma única ação, ele ainda é sujeito da transformação): ela me elegeu – sem que houvesse nem eleição nenhuma – sua re-pre-sen-tan-te! Agora, estamos com a questão que se junta e faz parte do fetiche, que é a questão da democracia real: ela deveria ser participativa ou representativa?
Devemos nos coisificar e entregar as rédeas do que nos acontecerá a um representante, que elegemos formal ou informalmente, ou devemos enfiar as mãos na terra e praticar a política enfiando as mãos até os cotovelos nessa terra roxa que jamais sairá de nossas mangas?
Sei do assombro que assola o sujeito quando ele decide enfiar a mão na terra. É magnífico e aterrorizante. Como Abraão de Kierkegaard, o sujeito se entrega ao mesmo tempo em que se revolta e luta contra um Deus que é muito mais potente. O que Kierkegaard descreve não é, para mim, uma questão apenas religiosa: ela diz respeito ao drama que vive aquele que se entrega profundamente a uma questão ética na modernidade (e percebe que o conflito não é meramente externo, mas interno e constitutivo de sua própria personalidade). Nessa modernidade em que tudo o que era sólido se desmancha no ar, este sujeito está em profunda luta contra e por algo muito acima e maior que ele, ao mesmo tempo em que está em luta contra si próprio – contra todas as suas células, como disse Marcuse, e se revoltando em cada uma delas, numa negação-afirmação que é a história da procura de sua própria alma. É um movimento que ao mesmo tempo em que te constrói te consome. É portanto, magnífico e aterrorizador. Como em lobo das estepes, de Hesse, ele encontra um teatro mágico, (certo, Guilherme?) onde descobre uma pluralidade, descobre que pode ter umas 1000 almas, que suspeito, são compostas de todas as almas com as quais teve contato: por livros, blogs, nos seus encontros com os demais sujeitos que compartilham com ele de um mesmo problema: viver nesta sociedade.
Mas será um drama ao qual é melhor fugir? É bem mais fácil (e também mais difícil) se entregar de olhos fechados à autoridade autoritária do representante. Elegemos representantes para que sejam sujeitos em nosso lugar sem ao menos nos apercebermos do fato. Todas as nossas células estão por demais educadas para sermos autoritários (autoritário não é, segundo Adorno, apenas o líder carismático weberiano na modernidade das mass media, mas também aquele que se entrega e é o outro lado da moeda, sem a qual não existe o líder – ele se coisifica: passa por uma transmutação e se converte em massa que obedece cegamente). Estamos por demais acostumados a isso e nos entregamos à autoridade constituída pelas instituições. O livro é bom, por que a instituição lhe conferiu a autoridade – o sujeito cego se entrega a esta idéia. O mesmo ocorre com jornais, revistas, nomes de autores famosos, autoridade conferida por um público. E pelo seu filtro passa aquilo que para este público existe, e o que deixa de existir, por não ser mencionado. Vem daí minha revolta (e todo ódio é também paixão) contra meu próprio nome, e me pergunto se isto tudo ocorreu àquele que se chamava Prince, e como é que ele conseguiu ir mais longe. Flavia é, como todo nome romano feminino, algo que tem suas origens num fenômeno pelo qual a mulher é posse: era Flavia se fosse filha de Flavio e passava a se chamar Júlia caso se casasse com Júlio (li isso nos idos tempos de colegial, posso estar me confundindo). Seria um nome que não é seu. Mas aquele que não tem nome – nem sei se tem ainda voz – conseguiu renegar tudo (me impressiona!).
Então se o líder carismático ao qual conferimos uma autoridade cuja origem está na nossa formação para o autoritarismo diz “não se preocupem com isto, eu que sou seu líder, conversei com outros líderes em off e posso contar para vocês todos que está tudo resolvido” o que acontece? Os sujeitos realizam uma única ação e se coisificam.
Todas as minhas células, as minhas moléculas e partículas subatômicas se horrorizam diante deste Deus. Percebo que este impulso irresistível do qual falou Durkheim está não só nos outros – fora – mas em mim – dentro. Me revolto contra mim.
Esta deve ser a origem da múltipla personalidade que descreve Hesse. O sujeito moderno está dilacerado, Como dizem os pós-modernos. Numa sociedade globalizada ele se encontra sob uma multiplicidade de forças que empurram sua alma para o ser, mas que neste caso é conflitante. Ele não se encontra em si mesmo, nem fora de si.
Por isso acho que é um esforço válido – que se bem que meio vão – catar os pedaços e nomeá-los. Como acontece com aquele conto infantil – como Benjamim disse, os contos infantis ensinam a astúcia contra o perigo de nos perdermos – como acontece com aquele personagem de quem preciso me lembrar o nome, que ao ser nomeado, ele cai em nosso poder, quando antes estávamos sob o poder dele. Ao encontrarmos o preconceito, por exemplo, que está desapercebido em nós mesmos, passamos a ter controle sobre ele, quando antes ele teve controle sobre nós. Para aqueles que gostam de literatura, é esse um dos sentidos possíveis de Orgulho e Preconceito, de Austeen. Quando recebe uma carta e percebe que estava sendo vítima de seu próprio preconceito, e também de seu orgulho, Eliza toma em suas mãos os rumos de sua existência e deixa de ser enganada por outros personagens na história.
Precisamos tomar as rédeas de nossa capacidade de sujeitos e autores. Precisamos contar as histórias não contadas. Histórias que tem o poder de colocar coisas sob outros ângulos até agora desapercebidos – e que, por passarem batidos, nos controlam. Um exemplo é uma história que não me canso de repetir para a criançada que tomou um lugar onde já estive – que é o movimento estudantil. Creio que a falta de memória nos torna burros ingênuos. Ninguém sabe todas as histórias, mas as histórias que se conhece devem ser contadas. Elas ajudam outros sujeitos a olhar o mundo com mais astúcia e a encontrar – como em muitas das versões de chapeuzinho vermelho – saídas onde só há portas fechadas (e a fugir de perigos, como demonstram muitas outras versões da mesma história, para não termos o mesmo fim do personagem que se perdeu – Benjamim está certo, as histórias contém nelas várias possibilidades e ensinam a astúcia).
A história a que me refiro é da invasão da Reitoria na USP em mil novecentos e noventa e poucos (2, 3, ou 4, não me lembro). A história parece até sem nada: sem peripécia (que é quando parece que vai ser tudo tragédia e o herói se salva, ou o contrário). Caminhamos até a Reitoria – a entrada era um largo saguão aberto. Entramos calmamente – não havia transições entre o dentro e o fora, a não ser o teto e as paredes laterais, que não constituíam obstáculo – a Reitoria não era, nessa época uma heterotopie distinta, como diz Foucault em uma palestra (hetero=outro, topos=lugar. As heterotopias distinguem e delimitam o que se torna possível e impossível nos espaços: determinam poderes), pois não havia muita distinção que marcasse esse dentro e esse fora. Chegamos no dentro, que era onde deixávamos de tomar sol. Olho eu pra cara do sujeitão ao lado (era um grandão muito bacana da Educação Física) e digo “…agora…” ele responde “agente senta”. Foi assim. O que eu acho de interessante nesta história? É que não houve chute que deformasse a porta, pois não havia a porta.
As heterotopias determinam espaços e poderes, mesmo no universo virtual. Quem entra no grupo dos publicados se constitui socialmente como autor e a ele é conferida autoridade. Não estou em buscas das autoridades, pois já quase não existem autoridades que não sejam autoritárias – mesmo sem percebê-lo, mesmo que isso não se faça por mal. Estou em busca da racionalidade – sei que sou filha do iluminismo, mas vá lá – estou em busca da racionalidade, que como Weber disse, só existe de fato nos sujeitos. Estou em busca da anti-autoria, já que como autor se cai mais facilmente nas armadilhas da autoridade. É preciso compreender a história e a formação social dos grandes nomes que como esfinges nos dizem “me decifre ou te devoro”.
sobre apatia política, e a fantasia (que tem a ver com o fetiche), ler Apatia e Absurdamento


#1 por Flavia - 8 de junho de 2009 às 8:05
Ah, não te confundo com o Edu quando lembro dos nossos emails, mas quando lembro de nossas discussões a três no Descurvo e no Conversa de Bar, que há muito tmepo atrás, muito antes de imeiarmosnos foram as responsáveis pela formação do complexo que Freud explica
#2 por Flavia - 8 de junho de 2009 às 7:49
É de preocupar quando se olha o Brasil mesmo, Hugo. Acho que toda essa coalisão tucanalha e truculenta que se formou no Brasil e que tem o judiciário, e as reitorias, como braços, mas cujo principal braço direito é a grande mídia, só não dá golpe de estado por 2 razões. 1. Eles sabem por experiência que os militares usaram a direita similar a eles feito papel higiênico no golpe de 64 (essa geração que ainda está aí, velha, eram os jovens da época e eles já fizeram essa conta). 2. Os militares e polícias hoje não formam uma corporação unida e podem se prestar ao trabalho tanto de entrar na USP quanto de participar da Confecom – de suas discussões – ver gravações de seminário acho que de brasília – e a própria experiência recente deles os põe em sua maioria contrários a qualquer atitude desta.
Não fosse por isso, as condições estariam dadaas. Mas descanse. Não estão.
Não quiz te deixar preocupado. Pelo contrário. A tucanalha é truculenta justo porque é banguela.
O único dentinho que eles tem é a mídia, por isso mesmo eu dou toda esta importância à Confecom, assim como uma multitude de formiguinhas trabalhando por ela, e mais outras multitudes de formiguinhas trabalhando contra os seus efeitos, como vocês na PUC. Mesmo a mídia já não tem força nenhuma quando o negócio é política grande – eleger presidente. Mas quando se trata de uma série de políticas práticas – de segurança, contra uma política de inclusão, por exemplo, ela continua dando as cartas, o que é bastante grave, quando pensamos em modança social.
A sua geração não é diferente da minha, eu própria já fui assim, acreditei em toda a contra-propaganda que retratava o utopista como um bobinho sonhador, um mártir enganadinho. Eles foram convencidos a abrir mão de sua potencialidade político-participativa, e como eu também me coisifiquei no início da minha existência entendo o que se passa. Estão convencidos, pois foram formados pelos cartoons, propagandas de Mao virou relojinho (lembra?), pelas novelas, e toda uma assimilição perversa da contra-cultura pela mídia, segundo a qual, todos eles se acham geniais por terem chegado a uma conclusão para a qual foram dirijidos: a de que é inocente útil o bobinho que se envolve com política, e ninguém quer ser bobinho, então se coisificar virou grande astúcia e entendimento. (observe que todos eles se acham mais sabidos que você).
É a mídia quem faz esse processo danoso. E somos todos filhotes dela, mesmo os filhotes que como o Abraão de Kierkegaard se rebelam. A propósito, leia, quando puder. O livro é escrito em narrativa. Chega a ser melhor que Saramago (perdoe, meu rei, Saramago, esta herezia). É a mesma história curta de Abraão oferecendo seu próprio filho em holocausto a um deus sacana, e toda a vez que é recontada, ou que recomeça, pois o livro dá mais a impressão de um loop, um bug na matrix, ocorre algo diverso. É aterrorizante e espetacular, não entendo que não seja best seller.
#3 por Hugo Albuquerque - 7 de junho de 2009 às 21:02
Achei espetacular esse post. Isso é o que se pode chamar de brainstorm; sobre o porvir, vejo com certa angústia o que há e com muito medo o que haverá.
Minha geração, esse pessoalzinho que nasceu lá no final dos anos 80 e que hoje está na faculdade, já se ajoelhou na diante da (su)realpolitik e acha que ela é última bolacha do pacote; a aceitação – e até a louvação – da distopia me causam espécie.
Mas ainda há esperança. Como você disse lá em cima. Os moleques na FFLCH, os pirados como eu que na semana passada largaram suas vidas para peitar um Centro Acadêmico de direita – e chapa-branca – da PUC, lutando contra a política anti-pobre que eles promovem.
No entanto, quando eu olho pra molecadinha mais nova, não acho essas exceções.
Sabe, Flavia, tem horas que eu fico confuso pra burro sobre o Brasil atual, não há como negar que as coisas melhoraram olhando para trás, mas quando se olha pra frente, o que se vê não é animador.
Fui numa palestra, nessa última sexta, na Escola da AGU em SP. Quem estava lá era o Professor Celso Antônio Bandeira de Mello, uma jóia rara, caso raro de jurista brasileiro inteligente e digno; democrata até o último fio do cabelo, mas já velhinho, bem velhinho.
Era impressionante a qualidade e a quantidade de críticas que ele fazia ao Governo FHC, coisa de quem mais do que entender de Direito até dizer chega, também entende de muita coisa mais – coisa rara entre juristas do Brasil moderno, que, em geral, são bons técnicos de legislação, mas entendem tanto de política quanto eu entendo de fisíca quântica e apenas papagaiam o que a mídia porcorativa fala sobre o mundo.
O que me chamou a atenção, eram os elogios que ele fazia sobre a evolução do Brasil nos últimos anos, principalmente agora no Governo Lula, mas eu via que era uma esperança de alguém que precisava ter esperança, a mesma que eu, tantos anos mais novo, me vejo às voltas. Esperança do verbo esperancear. Esperança de ter esperança. Auto-enganação? Talvez.
#4 por Hugo Albuquerque - 7 de junho de 2009 às 19:44
Hmmm que legal, nunca antes na minha vida eu havia sido amalgamado com outra pessoa e me tornado uma entidade abstrata, mas eu acho que fui eu que disse isso mesmo hehehe
#5 por Flavia - 3 de junho de 2009 às 8:58
brigada (bochechas vermelhas), Carlos, acho o mesmo do Imaginação sociológica. Gosto da forma como você põe em prática o que disse Mills. A imaginação sociológica é uma característica da alma, vai muito além da academia e de um curso de sociologia, é olhar as pequenas coisas e detalhes sob uma nova lente. Eu olho tudo assim: o trânsito, os livros escolares, os meus alunos, eu mesma, como professora…
A nossa vida foi passada assim – fomos desse tipo de adolescente e vemos o comportamento adolecente de hoje como uma coisa natural, talvez sem nos perguntarmos se é de fato natural (biológico) ou uma das muitas camadas que a sociedade e nossa história depositaram sobre a nossa natureza. Colocando em outro foco, os estudos da chamada história das calcinhas (por quem não gosta das histórias da vida privada) são reveladores e demonstram que até mesmo a infância foi inventada socialmente. é assim também com os nossos impulsos primitivos, que um ramo muito potente da ideologia biologista quer que aceitemos como determinada pelos nossos genes (falo de Dawkins, o cão, cujos seguidores enterocéfalos, que são a maioria dos biólogos e ideólogos de direita, usam para provar que homens e mulheres são diferentes e que o capitalismo é natural. conheço bem a área por ter sido uma promissora ex-futura-quase-bióloga e por ter querido estudar social studies of science numa universidade onde estes estudos não seriam aceitos – desisti, por enquanto).
É possível, creio, tirar vantagens de professor por cima dessa ideologia que nos formou e que forma essa galerinha nova. Uma das minhas armas é concordar ironicamente, tirar sarro pesado da cara deles, até que eles não tenhham mais como sustentar nem o argumento, nem o carão (o que pro adolecente é mais grave). É preciso saber tirar vantagem da estereotipia contra ela mesma. Uma das histórias que tenho de derrota do meu próprio preconceito (sim, nós mulheres temos preconceitos contra outras mulheres, como o negro contra o negro, o pobre contra o pobre, o blogueiro contra o blogueiro) é de quando tive aula com a Maria Arminda. Ia iniciar o curso sobre Marx, e eu esperava que surgisse uma mulher de cabelos grisalhos mau cuidados, presos num rabo-de-cavalo desleixado, de macacão de labour class e se possível suja de gracha e de coturno velho. Entra uma perua dourada, cabelos tingidos de loiro, tecidos esvoaçantes, roupa provocante sobre um corpo mais ainda, luís 15. Eu disse: “xi!”. Foi a melhor professora que eu posso imaginar existir na face deste planeta – a gente tinha que gravar as aulas pra entender aos pouquinhos depois. Quando mais tarde uma amiga hiponga disse que achava muito superficial a mulher que se empiriquita demais eu respondi com uma pergunta: “superficial é quem tem a superfície, ou quem enxerga só a superfície?” é uma exemplo, dos muitos que tenho contra mim.
Os adolecentes de hoje foram como nós formados desde criança para serem assim. Na verdade, o vídeo “criança, a alma do negócio” (tá no youtube) mostra que eles estão passando por um processo muito mais perverso. Eles serão os adultos de amanhã. Mas o mundo não estará perdido enquanto pudermos cultivar a astúcia.
Ah, sobre o Orkut, procura no Donizete um texto chamado o Orkut e o Existir, ou algo assim, ele põe as coisas sob um outro ângulo possível – gosto de angulações múltiplas…
#6 por Carlos - 2 de junho de 2009 às 23:18
Putz, Flávia! Que post legal! Gosto muito de texto jorrados como esse, cheio de idéias a serem pensadas. O gosto pela autoridade, a pronta obediência, a opção pelo não-pensar coisificante me impressionam e despertam meus impulsos iconoclastas mais primitivos. Ontem mesmo estava olhando uma comunidade de alunos no Orkut (a rede social dos pobres) e em um tópico sobre os melhores professores choviam elogios àqueles “disciplinadores”, que se impõem autoritariamente na sala de aula. Eu como convicto professor “laissez-faire” me espanto com essa vontade de ser disciplinado, de ser objeto nas mãos do outro. Sinceramente, meu ceticismo me diz que lutar contra esse estado atual das coisas é entrar em um luta perdida. Mas não é esse detalhe que vai me fazer abandonar a minha trincheira. Morro, mas morro atirando!