Bom, o começo do texto é sobre arte moderna… bem, talvez sobre design de móveis.
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Tenho uma fascinação com cadeiras. É que dentro do esquema moderno entre Forma e Função, elas são, pra mim, os objetos que mais podem ter a forma alterada, preservando a função. Você pode até ter formas que dificultam a sua identificação como cadeira – confundem a tua cabeça por momentos (e justamente isso eu acho genial na cadeira). Mas só até que você re-descubra, no formato fora do convencional, a função cadeira.
Arte Moderna e Design
É possível entender o design moderno nesse mesmo movimento em que a arte se modernizou, deixando de lado o figurativismo e o realismo, e passou a falar sobre si mesma diretamente. Segundo Clement Greenberg – um dos primeiros teóricos da pintura modernista – a pintura naturalista dos velhos mestres usava arte para esconder a arte. O que isso significa?
Grandes Mestres da Pintura
Estará mais claro se olharmos, por exemplo, para o quadro de Velázquez – o Las Meninas: O que você vê no quadro?
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Um salão, pé alto, cheio de quadros nas paredes, e um espelho
Uma princesa com seu cortejo em primeiro plano
O auto-retrato de Velásquez, na figura do pintor em frente a uma tela
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Não vou tentar copiar Foucault aqui. Qualquer aproximação seria redutora, com um texto tão magnífico. Mas há muito mais coisas neste quadro que supõe a olhada desleixada.
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Há por exemplo, a presença de ausências. O pintor, que aparece em auto-retrato no quadro, pinta um outro quadro cuja superfície nos é negada aos olhos. Ao fundo um espelho mostra o reflexo do casal real, mas onde está o rei? (se você for adotar um ponto de vista naturalista, o rei e a rainha deviam estar no meio do quadro). Se o pintor do quadro está olhando pra o ponto em que o espectador se coloca para olhar o quadro, e se ele está na corte, ele estaria fazendo o retrato do Rei? Mas é o espectador que está nessa posição e o Rei está ausente do quadro. Se este é um retrato da princesa, por que ela, colocada numa posição lateral, com sua corte, também nos olha, assim como o Velásquez do quadro?
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Isto só pra dar um gostinho (vai ler o texto do Foucault). Mas onde eu quero chegar é que o quadro de Velázquez que pode parecer, num primeiro momento, se entregar completamente aos olhos do espectador, assim direto, sem segundas nem terceiras intenções, sem camadas de interpretação, está na verdade a nos jogar nesse alçapão, essa armadilha antiga da arte, para a qual nos voltamos quando do não entendimento da arte moderna.
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Ao renegarmos as artes abstratas por incompreensíveis, nos voltamos para os quadros representativos da arte dos grandes mestres antigos – de Da Vinci a Velázquez – e temos a sensação de que os conhecemos de uma só olhada – por serem figurativos. Reconhecemos a figura da princesa e sua corte, do pintor, do cachorro, do salão e temos a impressão de estarmos no terreno cognitivo cuja cognição seria direta, ao contrário das manchas e quadrados, borrões que não representam qualquer figura que possa ser traduzida, que gera todo o nosso desconforto com a arte moderna.
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[isto não é um cachimbo
Todos esses elementos estão também colocando muitos questionamentos sobre a arte, só que isso está de certa forma “escondido” no quadro, por trás de uma roupagem (as figuras) que reconhecemos. Nesse sentido que entendo o que Greenberg dizia sobre a arte anterior à moderna, que ela “usa a arte para esconder a arte”. A arte moderna se livra das camadas figurativas e coloca o discurso da arte sobre a arte em primeiro plano.
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A arte moderna é incompreensível?
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Como você mesmo pede concluir, ela é sim, difícil de compreender; tanto quanto a arte dos mestres antigos, mas sem a ilusão das figuras.
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E as cadeiras?
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Já chegamos nelas. Mas antes é preciso uma outra peripécia. O que ocorre então, a partir da modernidade, com o design?
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O design, não só de móveis, como de paredes e o teto acima delas, e de muitos tetos, compondo edifícios começa a perder alguns elementos e ganhar outros (veja, por exemplo, a mudança da art déco para o streamline moderne – a reforma ortográfica tirou o último ‘e’ de moderne, mas era assim que se escrevia na época). Um arquiteto evolucionista diz que “decoração é crime”. Outros arquitetos deixam de lado a bobagem do evolucionismo do cara e concordam – vamos matar a decoração. A arte do arquiteto deve deixar de lado a decoração e se concentrar no binômio Forma e Função (ou seja, elas devem ser trabalhadas juntas).
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Olhe, por exemplo, para esta figura: ![]()

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Você vai reconhecer que as formas das funções (a forma da mesa, da cadeira, do tapete, do sofá, da lareira, das janelas, das cortinas) nunca mudou muito. A forma da função sempre foi mais ou menos a mesma – fixada. Podemos reconhecer, por exemplo, a cadeira, sempre como algo assim:
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Sobre ela se põe a decoração, que podemos reconhecer como o estilo vitoriano na penúltima foto – que é a presença de muitos aveludados, os desenhos em padrões grandes que se repetem, uma coisa bastante sensual até (nas literaturas mais recentes sobre o período vitoriano, os autores tentam desfazer a noção de que essa fosse uma era castrada – é o contrário, é uma era em que se multiplicam os discursos acerca do sexo – por nos parecerem antiquados, parecem castrados, mas é o contrário, é uma era sensual, e podemos percebê-lo na decoração).
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A decoração se sobrepõe a uma forma mais ou menos fixa.
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Agora vai começar o bombardeio: este blog é pequeno para tudo o que eu tenho pra mostrar, mas a internet é grande. Dê você mesmo uma procurada básica – vai se surpreender com um objeto tão quotidiano e trivial.
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Toma isto:
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E mais isto:
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Por enquanto é só, mas não percam as cenas dos próximos capítulos:
- como é que tudo isso começou, e mais sobre cadeiras
- o estereótipo do design moderno como algo “clean demais”, impessoal – será?
- Cadeiras: de Arne Jacobsen a Verner Panton (todos nós temos os nossos preferidos)
- O ideário Modernista: industrialismo imaginado como acessível a todas as classes. (e sua corrupção – hoje uma ant chair de verdade custa no mínimo R$700,oo cada, mas a sua mãe já teve estas cadeiras por preço popular)
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=)



#1 por Alessandra - 23 de outubro de 2010 às 16:27
OI,
Li seu artigo e sua afirmação objetiva sobre a cadeira é tudo que eu precisava para o meu Trabalho de Conclusão de Curso. Pena que não posso citar como fonte segura o seu blog.
Gostaria de saber se publicou algo em algum periódico que eu possa citar, ou se conhece algum autor que afirme a cadeira como objeto de significado.
Obrigada,
Alessandra
#2 por Flavia - 26 de outubro de 2010 às 11:53
Oi, Alessandra.
Que bom que você gostou do post. Há muito tempo que o escrevi e naquela época eu planejava escrever mais, mas não tive mais tempo.
Por uma lado, como alguém doutrinada com o rigor acadêmico, eu consideraria que o texto não tem referências nem autoridade de autor. Por outro, eu acho uma pena que a academia aceite que se cite um artigo de um connoisseur qualquer como eu se este for publicado em qualquer jornal, do tipo Folha de São Paulo.
Cá entre nós, na minha pós eu pretendo citar blog, wikipedia e tudo o mais, pois acho que a academia tem que sair desse entrave e preconceito de fontes. As ideias são para ser examinadas, se preciso combatidas. Já existem regras para a citação de sites e eu acho que eles devem ser citados, que seja como uma evidência do que esse tema ainda hoje desperta nos seus comentadores. É claro que eu usaria com qualquer publicação sem fontes o mesmo rigor acadêmico e foco crítico que eu usaria com um artigo que saiu num caderno de cultura. Eu daria muito mais foco no meu tema e autores e usaria a fonte como algo lateral que pode adicionar algo de interesse.
Vou te explicar porque o artigo não tem fontes, então. É que esse é um hobbie. Quem vive em torno de mim acaba conhecendo algo sobre cadeiras, por que é uma paixão e eu sou empolgada e eu já tive a felicidade de ver meus amigos reconhecerem as minhas clássicas favoritas ao passarmos por elas na rua. Estou sempre visitando sites e lendo sobre designers, cadeiras, etc… e como socióloga eu tenho, talvez, um modo peculiar de refletir sobre essas coisas. O problema quando se tem um hobbie como esse é que a gente faz um monte de leituras que não são nada metódicas por um longo tempo, reunindo fragmentos que são apenas “anotados” na memória, de um assunto do qual você lê coisas picadas no tempo livre.
Enfim… mas fique livre para fazer o que quiser. Inclusive retornar notícias sobre o que você achou dessas ideias, o que para mim é superlegal, pois escrevo o blog exatamente para encontrar interlocutores com quem conversar sobre as minhas paixões (de que vale a vida sem elas, não é não?)
um abraço
Flavia